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Walter Barros
Escrito por Walter Barros,Redator
Lucas Caram
Revisado por Lucas Caram,Editor da Equipe

Regulamentação deve espremer lavagem de dinheiro com criptomoedas e ouro no Brasil, dizem especialistas

Movimentos regulatórios nacionais acompanham tendência global de ampliação da capacidade de rastreamento pelas autoridades.

Regulamentação deve espremer lavagem de dinheiro com criptomoedas e ouro no Brasil, dizem especialistas
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Resumo da notícia:

  • Regulamentação brasileira segue tendência global e deve encurralar lavagem de dinheiro por criptomoedas e ouro.

  • Novas regras tornam mais difícil a realização de operações sem identificação adequada e facilitam o acompanhamento dos caminhos percorridos pelos ativos.

  • Regulamentação impõe responsabilidades mais claras às empresas que operam serviços de criptomoedas.

  • Proposta de uso de blockchain no rastreamento do ouro marca uma mudança relevante no controle de ativos e no combate à lavagem de dinheiro.

Na última semana, a Polícia Federal (PF) deflagrou uma operação contra suspeitos de usar criptomoedas na lavagem de R$ 1,6 bilhão. Para alguns especialistas, essa modalidade ilícita do uso de criptomoedas está com os dias contados pelos fortes movimentos regulatórios, que também já estão de olho no ouro.

Segundo eles, o pacote normativo do Banco Central (BC) para criptomoedas chega em um momento de maior atenção sobre o uso de criptoativos em investigações que apuram possíveis esquemas de circulação e ocultação de recursos. As novas regras reforçam que essas operações devem ocorrer em ambientes supervisionados, com exigências mais rigorosas de identificação de clientes, registro de informações e monitoramento das transações.

Thiago Amaral acredita que a medida acompanha uma tendência global de maior controle sobre o setor e busca reduzir a opacidade que marcou parte desse mercado nos últimos anos. De acordo com o sócio do Barcellos Tucunduva – Advogados e especialista em meios de pagamento e criptoativos, na prática, o objetivo é dificultar o uso de ativos virtuais em operações que dependem de baixa transparência, ao mesmo tempo em que amplia a capacidade de rastreamento pelas autoridades.

As novas regras tornam mais difícil a realização de operações sem identificação adequada e facilitam o acompanhamento dos caminhos percorridos pelos ativos, explica.

O advogado acrescenta que a regulamentação impõe responsabilidades mais claras às empresas que operam serviços de criptomoedas no Brasil, já que elas devem coletar e armazenar dados dos clientes, manter registros detalhados das operações e adotar mecanismos voltados à prevenção de irregularidades. Para ele, também ganham relevância medidas como a identificação dos participantes das transações e o monitoramento de movimentações consideradas suspeitas.

As plataformas passam a ter um papel mais ativo na prevenção de irregularidades, com obrigações claras de controle e acompanhamento das operações, salienta.

Outro ponto em destaque para o especialista é o aumento da transparência nas transferências, principalmente nas operações internacionais e naquelas que envolvem carteiras controladas diretamente pelos usuários. Nesse caso, a proposta é assegurar que as transações estejam vinculadas a informações mínimas sobre quem envia, quem recebe e qual é a finalidade econômica da operação.

O Brasil acompanha um movimento internacional de maior controle sobre o mercado de criptoativos, especialmente diante do uso dessas ferramentas em operações complexas, diz Thiago Amaral.

Ele também lembra que a diferença dos dois grupos de medidas: de um lado, estão as regras voltadas à proteção do cliente, que ajudam a evitar o uso indevido de recursos pelas próprias empresas; de outro, estão as medidas de prevenção a fraudes e outros ilícitos, que reforçam o rastreamento das operações, a preservação de registros e a identificação de movimentações fora do padrão.

O especialista ressalta que a nova regulação não elimina, por si só, o risco de fraudes, mas reduz vulnerabilidades do setor e amplia a transparência nas operações com ativos virtuais.

O resultado prático dependerá de como essas regras serão implementadas pelas empresas e fiscalizadas pelas autoridades, em um cenário de rápida evolução tecnológica, conclui.

Murillo Oliveira, por sua vez, acredita que a aprovação de uma proposta que prevê o uso de blockchain para rastrear toda a cadeia do ouro no Brasil, no final de março pela Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados, marca uma mudança relevante no controle de ativos e no combate à lavagem de dinheiro. A medida exige registro da origem e da circulação do metal, elimina a presunção de boa-fé nas transações e amplia a responsabilidade de quem atua no setor.

Para o especialista em investimentos e estruturação financeira internacional a mudança aproxima o país de um novo padrão de controle baseado. Nessa direção, dados o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontam aumento nas comunicações de operações suspeitas envolvendo setores ligados à mineração e metais preciosos, enquanto investigações da Polícia Federal têm identificado o uso do ouro como instrumento de ocultação de recursos ilícitos.

A blockchain cria um registro que não pode ser alterado ao longo do tempo. Isso muda a lógica do mercado, porque a confiança deixa de depender da declaração das partes e passa a estar ancorada em dados verificáveis, afirma.

O diretor de Tesouraria da corretora de câmbio e empresa de comércio exterior Saygo também frisa que a proposta altera um dos pilares históricos do setor, que permitia a comercialização do ouro com base na autodeclaração de origem. Com a rastreabilidade digital, cada etapa passa a ser registrada, o que reduz brechas para fraudes e dificulta a circulação de material de origem ilegal.

O impacto não é apenas regulatório. Existe uma mudança estrutural na forma como o ouro passa a ser tratado como ativo. Ele continua sendo uma proteção patrimonial, mas agora com uma camada adicional de controle e transparência, diz.

Caminho sem volta

Murillo Oliveira ressalta que a rastreabilidade do ouro pela tecnologia que suporta as criptomoedas acompanha um movimento global de digitalização de ativos físicos, com uso crescente de tecnologias como blockchain para registrar e acompanhar cadeias produtivas. Para ele, esse avanço tende a elevar o nível de exigência do mercado, especialmente em operações internacionais, onde critérios de compliance e origem ganham peso.

Transparência deixa de ser diferencial e passa a ser requisito. Empresas que não se adaptarem a esse novo padrão podem perder acesso a mercados e enfrentar restrições operacionais, afirma.

Ele lembra ainda que a nova exigência impacta empresas de mineração, distribuidoras, instituições financeiras e investidores. De acordo com o especialista, a rastreabilidade tende a melhorar processos de auditoria, reduzir riscos jurídicos e criar um ambiente mais seguro para negociação do metal. Por outro lado, ele aponta cinco cuidados para empresas se adaptarem à nova rastreabilidade do ouro, considerando que a adoção da tecnologia exige mais do que implementação técnica. Segundo ele, empresas precisam revisar processos, integrar sistemas e fortalecer a governança para atender às novas exigências.

Entre os principais pontos de atenção, ele destaca:

  • Estruturação de dados confiáveis: a rastreabilidade depende da qualidade das informações inseridas. Processos internos inconsistentes comprometem a credibilidade de toda a cadeia.

  • Escolha de parceiros especializados: fornecedores com experiência em tecnologia e regulação reduzem riscos operacionais e garantem aderência às normas.

  • Integração com sistemas existentes: a solução deve se conectar a sistemas de gestão, controles logísticos e financeiros para evitar falhas e retrabalho.

  • Adequação regulatória contínua: mudanças na legislação exigem atualização constante dos sistemas e revisão periódica dos processos.

  • Monitoramento e auditoria recorrentes: a rastreabilidade só gera valor quando acompanhada de validação contínua e análise dos dados registrados.

O erro mais comum é tratar a blockchain como uma solução isolada. Ela precisa estar conectada à operação real da empresa, aos controles internos e à governança. Caso contrário, não resolve o problema, afirma Murillo Oliveira.

O especialista acredita que, para investidores, a mudança também tende a alterar a percepção de risco. Nessa vertente, ativos com origem comprovada devem ganhar mais relevância, enquanto operações sem rastreabilidade podem enfrentar desvalorização ou restrições.

A tendência é que o mercado passe a precificar não apenas o ouro em si, mas a qualidade da sua origem. Isso cria uma nova dinâmica de valor e influencia diretamente decisões de investimento, observa.

Ele argumenta que avanço da rastreabilidade do ouro insere o Brasil em um movimento mais amplo de integração entre ativos físicos e infraestrutura digital, ao justificar que a medida amplia a capacidade de controle, reduz brechas para ilegalidades e eleva o padrão de transparência em um setor estratégico. Ao mesmo tempo, exige das empresas adaptação rápida a um ambiente mais rigoroso, no qual tecnologia, governança e compliance passam a atuar de forma integrada.

Este mês, a empresa Acelen Renováveis também anunciou a adoção de uma solução baseada em blockchain para monitorar toda a origem da matéria-prima utilizada na produção do combustível sustentável de aviação (SAF), com foco inicial na cultura da macaúba no Recôncavo Baiano, conforme noticiou o Cointelegraph Brasil.

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