Resumo da notícia:
Mercado brasileiro de criptomoedas se encontra em um momento decisivo de adaptação.
Desafio é especialmente sensível para empresas cujo núcleo do negócio está na negociação de ativos digitais.
Modelo BaaS é uma das saídas encontradas pelo mercado para acelerar a adaptação.
A adoção do modelo de Banking as a Service (BaaS) deve crescer entre as exchanges de criptomoedas e outros Provedores de Serviços de Ativos Virtuais (PSAVs) nos próximos meses, para enquadramento nas regras de conformidade estabelecidas pelo Banco Central (BC).
Editado entre o final do ano passado e o início deste ano, o pacote normativo do Banco Central para os PSAVs promete ser uma virada de chave para o mercado cripto nacional. Entre as novas regras está a Instrução Normativa (IN) 704, que estabelece o dia 30 de outubro como limite para enquadramento de empresas ou sociedades relacionadas a serviços como negociação de criptomoedas, câmbio e corretoras de títulos e valores mobiliários.
Na avaliação do diretor Jurídico e de Compliance do Z.ro Bank, Marcelo Bueno, o mercado brasileiro de criptomoedas se encontra em um momento decisivo de adaptação, já que as exchanges e demais empresas que intermediam operações com ativos virtuais passam a enfrentar um desafio além da obtenção de licença: montar, em território nacional, uma estrutura operacional capaz de atender exigências de compliance, prevenção à lavagem de dinheiro, integração ao sistema de pagamentos local e segregação patrimonial dos recursos dos investidores.
Bueno explicou que, para os investidores comuns, isso significa que empresas de criptomoedas precisarão demonstrar, de forma mais clara, onde o dinheiro deles está, como ele é movimentado e quais controles existem para proteger esses recursos. Para as plataformas, a mudança traz uma camada extra de complexidade: além de negociar criptomoedas, elas passam a depender de infraestrutura financeira local para operar contas de pagamento, liquidar transações em reais, oferecer Pix, lidar com fluxos internacionais e sustentar rotinas contínuas de monitoramento e conformidade.
O desafio é especialmente sensível para empresas cujo núcleo do negócio está na negociação de ativos digitais, e não na operação financeira tradicional. Internalizar toda essa estrutura pode exigir investimento elevado, adaptação tecnológica frequente e interlocução constante com a regulação brasileira, observou.
Para o executivo, no contexto atual, a infraestrutura local deixa de ser apenas um suporte operacional e passa a ser parte central da estratégia de continuidade e crescimento dessas companhias. O que exige uma mudança de postura dos PSAVs, já que “a discussão agora não é mais apenas sobre inovação, mas sobre resiliência regulatória e segurança jurídica”.
O mercado amadureceu e a regulação impõe uma lógica nova: não basta oferecer acesso a criptoativos, é preciso demonstrar capacidade operacional e controles compatíveis com a responsabilidade de custodiar e movimentar recursos de clientes no Brasil, acrescentou.
Ele deixou escapar que a empresa está em negociação avançada com duas exchanges de criptomoedas internacionais e três nacionais ao classificar o modelo BaaS como uma das alternativas encontradas pelo mercado para acelerar a adaptação. Segundo ele, esse arranjo, em que empresas reguladas fornecem a camada bancária e de pagamentos para que as PSAVs consigam operar dentro das exigências locais sem precisar construir toda essa estrutura do zero, pode incluir contas individualizadas.
Parcerias
Bueno acredita que esse tipo de parceria tende a ganhar relevância à medida que o cronograma regulatório se aproxima da fase de execução plena. Como exemplo, ele citou que, em 2025, a Binance anunciou a integração do Pix a sua solução de pagamentos Binance Pay para permitir pagamentos e transferências instantâneas em real utilizando criptomoedas para qualquer pessoa ou estabelecimento comercial no Brasil. A operacionalização dos pagamentos é feita pelo Z.ro Bank, instituição de pagamentos autorizada pelo Banco Central.
Quando buscávamos um parceiro BaaS para o Binance Pay Pix, precisávamos de um player que estivesse aberto a criar algo customizado e o Z.ro também era um parceiro de processamento Pix para a Binance, contou o ex-diretor de Operações da Binance e atual COO do Z.ro Bank, João Dunin.
Para o executivo, a principal dor do setor hoje é conciliar velocidade de negócio com robustez operacional.
Muitos PSAVs cresceram com foco em produto, liquidez e experiência do usuário. Agora, eles precisam adicionar uma camada financeira e regulatória muito sofisticada, sem perder eficiência. O grande desafio é fazer isso dentro do prazo e com operação local efetiva, porque qualquer falha nessa transição pode afetar desde a experiência do cliente até a sustentabilidade do negócio, explicou.
Dunin disse ainda que a escolha do parceiro de infraestrutura tende a ser decisiva, argumentando que as exigências do BC não se resumem ao acesso a trilhos de pagamento:
Envolvem também gestão de risco, prevenção a fraude, políticas de bloqueio cautelar, tempos de liquidação e integração entre o universo bancário e a dinâmica específica dos ativos virtuais. Em um mercado em que experiência do usuário e confiança são ativos centrais, essas definições operacionais podem impactar diretamente conversão, retenção e reputação.
Ele finalizou dizendo que, “medida que o prazo regulatório se aproxima, a adaptação à infraestrutura local passa a ser vista menos como uma etapa burocrática e mais como um teste de maturidade para os PSAVs que pretendem seguir competitivas no país”.
Na avaliação de alguns especialistas, a regulamentação também deve espremer lavagem de dinheiro com criptomoedas e ouro no país, conforme noticiou o Cointelegraph Brasil.

