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Walter Barros
Escrito por Walter Barros,Redator
Lucas Caram
Revisado por Lucas Caram,Editor da Equipe

Regulamentação não acabará com stablecoins de privacidade, diz especialista

Monitoramento do BC segue na proporção da adoção no Brasil, mas protocolos de privacidade também não param.

Regulamentação não acabará com stablecoins de privacidade, diz especialista
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Resumo da notícia:

  • Avanço das stablecoins criou uma das maiores transformações silenciosas do mercado financeiro.

  • Crescimento também trouxe o desafio da conciliação entre eficiência financeira com privacidade real.

  • Usuários estão ativamente buscando alternativas de privacidade.

O avanço das stablecoins no Brasil deve caminhar de mãos dadas com o monitoramento de usuários e transações nos próximos anos, o que não deve frear os protocolos de privacidade, segundo análise feita na última semana por Vadim Taszycki.

Na avaliação do diretor de crescimento da exchange StealthEX, o avanço das stablecoins criou uma das maiores transformações silenciosas do mercado financeiro nos últimos anos, já que esses criptoativos não ganharam espaço por promessas especulativas, mas por resolverem um problema direto: movimentar valor com estabilidade. Por outro lado, o crescimento também trouxe o desafio da conciliação entre eficiência financeira com privacidade real.

Taszycki frisou que os dados mais recentes mostram que esse não é mais um tema teórico ao citar um levantamento da plataforma de conformidade AMLBot que rastreou mais de US$ 4,2 bilhões em fluxos de stablecoins passando por protocolos de privacidade.

Isso revela como usuários estão ativamente buscando alternativas para proteger suas transações em um ambiente cada vez mais monitorado por reguladores, como vem ocorrendo no Brasil com as novas regras da Receita Federal e do Banco Central, avaliou.

O executivo da StealthEX lembrou que o crescimento das stablecoins no Brasil é um fenômeno difícil de ignorar, já que os dados mais recente do Banco Central apontaram que mais de 90% de todo volume de cripto negociado no país é de stablecoins.

Empresas, instituições financeiras e até departamentos de tesouraria já começam a tratá-las como infraestrutura, acrescentou.

O especialista citou ainda um estudo da plataforma de análises PYMNTS Intelligence mostrando que 42% das empresas de médio porte já discutiram, testaram ou utilizaram stablecoins, número maior do que o observado para criptomoedas tradicionais e com interesse ao uso prático, não especulativo.

Hoje, stablecoins são utilizadas principalmente para pagamentos. Elas viabilizam liquidações internacionais, reduzem custos operacionais e aceleram transferências que antes levavam dias. Em muitos casos, funcionam como uma camada invisível da infraestrutura financeira, algo que usuários finais nem percebem, mas que empresas já começam a adotar estrategicamente, explicou.

Por outro lado, Vadim Taszycki abordou a contradição trazida pelo crescimento da adoção, já que, ao mesmo tempo em que stablecoins facilitam transações globais, elas também carregam um nível de rastreabilidade muito superior ao dinheiro tradicional.

Diferente do dinheiro em espécie, praticamente todas as movimentações ficam registradas em blockchain. Isso cria um ambiente onde transparência e vigilância caminham lado a lado, pontuou.

O especialista acredita que essa contradição representa uma lacuna preenchida pelos procolos de privacidade, já que os dados também mostram que o comportamento dos usuários muda drasticamente dependendo do nível de controle do protocolo. Segundo ele, em ambientes sem monitoramento, como mixers tradicionais, há uma preferência clara por ativos como a stablecoin descentralizada do dólar americano DAI, que não podem ser congelados por emissores. Já em protocolos com algum nível de compliance ou filtragem, o uso migra para stablecoins como USDC e USDT, também lastreadas no dólar.

Quando usuários escolhem DAI em ambientes não rastreados, eles estão optando por resistência à censura. Por outro lado, ao usar USDC em ambientes com triagem, aceitam um modelo mais alinhado às exigências regulatórias. Isso cria dois mundos distintos dentro do mesmo ecossistema, um mais aberto e outro mais institucionalizado, disse.

O representante da exchange citou o caso recente do exploit da Kelp DAO, que desviou cerca de US$ 292 milhões, como sinal de reforço dessa dinâmica.

Parte dos fundos passou por protocolos como THORChain, Umbra e Chainflip, evidenciando como essas ferramentas já fazem parte da infraestrutura real do mercado, tanto para usos legítimos quanto para atividades ilícitas e, portanto, ignorar esse cenário seria um erro, argumentou.

Ele disse ainda que, desde a sanção do mixer de criptomoedas Tornado Cash em 2022 pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, as soluções voltadas à privacidade não pararam.

Protocolos como Railgun e zkBOB ganharam espaço, mostrando que a demanda por privacidade não desaparece com proibições. Isso levanta uma questão central para o futuro: será possível regular stablecoins sem eliminar sua utilidade em ambientes descentralizados? Questionou.

Futuro das stablecoins

O especialista acredita que atualmente há um equilíbrio instável no mercado de stablecoins: de um lado, empresas e bancos pressionam por mais integração e conformidade; do outro, usuários continuam buscando ferramentas que preservem autonomia e confidencialidade.

Os próprios CFOs deixam claro esse dilema. Embora 77% apontem a incerteza regulatória como barreira, muitos já utilizam stablecoins como ‘trilhos de pagamento’, convertendo rapidamente os valores para dólar, justificou.

Taszycki observou que, se as stablecoins são infraestrutura, a discussão sobre privacidade deixa de ser ideológica e passa a ser funcional.

Empresas precisam de eficiência, mas também de segurança operacional. Usuários querem conveniência, mas não abrem mão de controle sobre seus ativos, fundamentou.

Para ele, o futuro provavelmente não será definido por uma vitória de um lado sobre o outro, mas por uma convergência:

Veremos o surgimento de soluções híbridas, onde protocolos incorporam mecanismos de privacidade seletiva, permitindo auditoria quando necessário, mas protegendo dados sensíveis por padrão. Tecnologias como provas de conhecimento zero tendem a desempenhar um papel central nesse processo.

O especialista encerrou dizendo que, ao mesmo tempo, bancos e instituições tradicionais devem atuar como pontes entre esses dois mundos.

A preferência por soluções integradas ao sistema bancário mostra que a adoção em massa dependerá da capacidade de encaixar stablecoins nos fluxos financeiros existentes. E é exatamente nesse equilíbrio que o futuro da privacidade financeira será definido, finalizou.

Em outra análise, um especialista apontou o caminho para investidores de criptomoedas lucrarem com a queda do dólar, conforme noticiou o Cointelegraph Brasil.

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