
Desconhecimento e risco catapultam renda fixa digital no Brasil: 18,9% ao ano
Cofundador da DeFin Global, André Carvalho avalia catalisadores que põem debêntures tokenizadas em vantagem sobre as tradicionais em termos de rendimento.

Resumo da notícia:
- Debêntures tokenizadas fecharam 2025 com retorno médio anual de 18,9% em 2025.
- Risco é mais alto do lado da Renda Fixa Digital.
- Segmento também é pouco conhecido e cada plataforma opera de forma isolada.
- Automatização também se reverte em lucro.
As debêntures tokenizadas fecharam 2025 com retorno médio anual de 18,9% e se favoreceram com o risco e o desconhecimento da maioria dos investidores brasileiros, segundo avaliação do especialista André Carvalho.
A análise do cofundador da fintech brasileira de inteligência financeira DeFin Global lança luz sobre dados do Idex-CDI, apontando que as debêntures tradicionais pagaram em média CDI+1,7% ao longo de 2025, e sobre o Relatório Renda Fixa Digital 2026, identificando centenas de operações pagando cerca de CDI+5%, com retorno médio de 18,9% ao ano.
O especialista acrescenta que, para o universo que se autodenomina "renda fixa", essa dispersão é grande e levanta a pergunta: quanto desse spread é prêmio por risco adicional e quanto é ineficiência de mercado que pode ser capturada?
Lado do risco
Em relação ao risco da Renda Fixa Digital, André Carvalho destaca que a maioria dos captadores são Pequenas e Médias Empresas (PMEs) com faturamento real, operações em andamento e necessidade concreta de capital, mas sem rating de agência, sem balanço publicado e com histórico de crédito difícil de acessar. Quando o investidor não consegue verificar a qualidade do devedor com facilidade, ele exige mais retorno, o que é racional, na avaliação do especialista.
Ele acrescenta que a ausência de Fundo Garantidor de Crédito (FGC) é o segundo fator. Nesse caso, “se o devedor não paga, a recuperação depende das garantias constituídas na operação”.
Em debêntures tradicionais de empresas listadas, o investidor conta com mais transparência e, em muitos casos, com garantias reais de alto valor. Em operações de Renda Fixa Digital, a garantia pode ser um recebível de cartão, um imóvel de uma PME ou uma fiança corporativa. A liquidez e a executabilidade dessas garantias variam bastante, explica.
Ele acrescenta como terceiro fator a liquidez, argumentando que debêntures tradicionais têm mercado secundário, ainda que imperfeito, e que, na Renda Fixa Digital, cada plataforma forma um silo de negociação fechado em que o investidor compra e carrega até o vencimento.
Somando esses três fatores, estimo que algo entre 100 e 150 basis points do spread se justifica como prêmio de risco puro. É o custo de investir em emissores menores, sem rede de proteção e sem saída antecipada, completa.
Ineficiência de informação e outras
A análise chama a atenção para o restante do spread entre as debêntures tradicional e digital, o da informação. Nesse caso, ele salienta que o mercado de Renda Fixa Digital ainda é desconhecido pela maioria dos profissionais de investimento, destacando que:
Os dados das emissões não circulam nos terminais Bloomberg ou nas newsletters de crédito tradicionais. Quando poucos compradores conhecem o produto, o emissor precisa oferecer mais retorno para atrair capital. É falta de visibilidade que vira spread.
Ele comenta sobre outra ineficiência da Renda Fixa Digital, da distribuição, explicando que cada plataforma de Renda Fixa Digital opera de forma isolada.
O investidor não consegue comparar ofertas entre plataformas com facilidade. Não existe um agregador. Não existe um índice de referência. Essa fragmentação reduz a competição entre compradores e mantém os spreads artificialmente altos. Em mercados mais organizados, a simples existência de comparabilidade já ajuda a comprimir prêmios, emenda.
Sobre a terceira ineficiência, do custo estrutural residual, André Carvalho lembra que alguns estudos indicam que a tokenização pode reduzir custos operacionais em até 38% ao automatizar fluxos e eliminar intermediários, embora nem toda essa economia tenha chegado ao investidor final, já que os emissores e as plataformas absorvem parte do ganho de eficiência.
À medida que a competição entre plataformas aumenta, essa margem tende a ser repassada na forma de spreads mais atrativos, o que eventualmente comprime o retorno para o investidor, comenta.
Janela e timing
André Carvalho enfatiza que os investidores que estão ingressando na Renda Fixa Digital, capturam o spread cheio, formado pelo risco e pela ineficiência.
Quem espera a institucionalização em curso se consolidar vai encontrar retornos mais próximos do crédito tradicional, com a vantagem operacional do registro digital, mas sem o prêmio excedente, destaca.
Por outro lado, ele pondera dizendo que isso não significa investir sem critério, já que o “sweet spot” identificado está em operações de 6 a 24 meses, na faixa de CDI+3% a CDI+5%, com garantias formalizadas e plataformas com histórico comprovado.
É a região do mercado em que o prêmio de risco é adequado e a ineficiência é mais capturável, argumenta.
Enquanto isso, as operações de high yield, acima de CDI+10%, representam apenas 3,4% das emissões, exigem diligência reforçada e tolerância a risco de crédito significativamente maior, e não é onde a tese de captura de ineficiência se aplica com mais clareza.
Esta semana, durante um painel no Tokennation, executivos de diversas empresas de criptomoedas apontaram que as regras publicadas pelo Banco Central e pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) tornam o mercado cripto mais regulamentado e seguro no país, mas também estão criando obstáculos que podem limitar o acesso dos investidores brasileiros a produtos já disponíveis em outras regiões do mundo, conforme noticiou o Cointelegraph Brasil.
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