
Brasil enfrenta uma combinação perigosa de dívida crescente e juros elevados, alerta Moody’s
Agência vê economia brasileira resiliente, mas custo da dívida e rigidez fiscal ameaçam o rating e podem afetar dólar, Bitcoin e stablecoins.

O Brasil chega às eleições de outubro com uma economia grande, diversificada e protegida por reservas internacionais, mas ainda enfrenta uma combinação perigosa de dívida crescente, juros elevados e baixo espaço para cortar despesas.
A Moody’s apresentou esse diagnóstico durante o Inside LatAm Brasil 2026. A agência mantém o Brasil com classificação Ba1 e perspectiva estável, um nível abaixo do grau de investimento. William Foster, vice-presidente sênior da Moody’s Ratings, destacou que a estrutura da dívida, o tamanho da economia e a solidez do sistema bancário ajudam a sustentar a nota brasileira.
Por outro lado, o custo dos juros, a rigidez do Orçamento e a dificuldade política para aprovar reformas impedem uma melhora mais rápida do perfil de crédito.
Economia grande sustenta rating Ba1 do Brasil
A Moody’s considera o tamanho e a diversidade da economia como os principais pontos fortes do Brasil. O Produto Interno Bruto nominal alcançou aproximadamente US$ 2,28 trilhões em 2025, muito acima da mediana de US$ 153,6 bilhões entre países com rating Ba1.
O PIB per capita brasileiro, medido pela paridade do poder de compra, ficou em US$ 23.381. O valor também superou a mediana de US$ 19.288 do grupo. Mesmo assim, a Moody’s projeta que o crescimento médio real brasileiro ficará em 2,7% entre 2021 e 2030. A mediana dos países Ba1 alcança 3,8%.
Isso significa que o Brasil possui uma economia maior e mais diversificada, mas cresce menos do que vários países com classificação semelhante. A agência também destacou a composição da dívida pública como uma proteção. O governo mantém aproximadamente 95% de sua dívida denominada em moeda local, o que reduz a exposição direta a desvalorizações cambiais.
O Brasil ainda conta com reservas internacionais elevadas e um sistema bancário com índices sólidos de capital e liquidez. Esses fatores ajudam o país a enfrentar choques externos sem criar imediatamente uma crise de financiamento.
Essas fortalezas explicam por que a Moody’s manteve o rating Ba1 com perspectiva estável, apesar da deterioração dos indicadores fiscais.
Juros transformam déficit controlado em problema fiscal
A maior fragilidade brasileira não aparece apenas no resultado primário. O país mantém o saldo entre receitas e despesas, antes dos juros, relativamente próximo de zero e em situação comparável à de outras economias emergentes.
O problema começa quando o governo paga os juros da dívida. Segundo o comparativo apresentado pela Moody’s, os pagamentos de juros consumiram 19,5% das receitas do governo em 2025, acima da mediana de 16,1% dos países Ba1.
Os juros também corresponderam a 7,7% do PIB brasileiro. A mediana entre países com a mesma classificação ficou em apenas 2,6%. A Moody’s calcula que o déficit fiscal geral do Brasil deve alcançar uma média de 7,9% do PIB entre 2025 e 2027. A mediana dos países Ba1 fica em 3,8%.
Parte desse custo decorre da exposição da dívida à política monetária. Cerca de 50% do endividamento do governo acompanha taxas flutuantes ligadas à Selic, segundo a apresentação.
Por isso, cada período prolongado de juros altos pressiona diretamente as contas públicas. O governo precisa emitir mais dívida para financiar os juros, enquanto o próprio aumento da dívida eleva a percepção de risco.
Os números mais recentes do Banco Central reforçam o alerta. A dívida bruta alcançou 81,1% do PIB em maio de 2026, com aumento de 0,9 ponto percentual em apenas um mês.
Os juros nominais somaram R$ 1,11 trilhão em 12 meses, ou 8,48% do PIB. Já o déficit nominal chegou a R$ 1,26 trilhão, equivalente a 9,62% do PIB, segundo as estatísticas fiscais do Banco Central. A Moody’s também comparou o custo efetivo da dívida doméstica dos países latino-americanos. O Brasil apresentou a maior taxa da região, apesar de possuir uma base de arrecadação maior do que a de vários pares.
Orçamento rígido limita próximo presidente
O próximo governo não terá liberdade para simplesmente reorganizar as despesas. A Moody’s calcula que mais de 95% do Orçamento brasileiro envolve gastos obrigatórios ou quase obrigatórios.
Programas sociais, aposentadorias, vinculações de receitas, reajustes ligados ao salário mínimo e emendas parlamentares reduzem o espaço para mudanças.
Em 2024, subsídios e transferências consumiram aproximadamente 67% do Orçamento brasileiro, de acordo com os dados apresentados. O percentual ficou abaixo dos 73% da Argentina, mas acima dos 60% da Colômbia.
As emendas parlamentares também passaram a ocupar uma parcela maior dos recursos disponíveis. Elas representavam 2% das despesas discricionárias em 2015, mas chegaram a 24%.
Na avaliação da Moody’s, a polarização política e a fragmentação do Congresso dificultam reformas que reduzam vinculações, alterem regras previdenciárias ou contenham o crescimento automático dos gastos.
Por isso, o resultado da eleição não encerra a incerteza. O próximo presidente ainda precisará formar uma maioria no Congresso e escolher entre um ajuste mais rápido ou uma consolidação gradual.
A agência poderá elevar o rating se o governo e o Congresso construírem um consenso amplo para reformar despesas, reduzir indexações e ampliar a flexibilidade orçamentária.
Por outro lado, a Moody’s poderá rebaixar a nota se o governo abandonar a consolidação fiscal, perder a confiança dos investidores ou registrar uma desaceleração econômica mais intensa.
“A ausência de reformas manterá a rigidez dos gastos primários como uma restrição fiscal central”, resumiu a agência na apresentação.
Selic deve cair lentamente até 2028
O Banco Central reduziu a Selic para 14,25% ao ano em junho. Mesmo assim, o Copom manteve uma postura cautelosa diante da inflação, dos estímulos à demanda e das dúvidas sobre a estabilização da dívida.
Na ata da reunião de junho, o BC afirmou que a perda de disciplina fiscal e o aumento do crédito direcionado podem elevar a taxa neutra de juros e tornar a política monetária menos eficiente.
O relatório Focus com data-base de 24 de julho projetava Selic de 14% no fim de 2026, 12% em 2027 e 10,5% em 2028. O mercado também estimava crescimento do PIB de 1,99% em 2026, 1,60% em 2027 e 2% em 2028, segundo o relatório Focus.
Para a inflação, as medianas alcançavam 5,12% em 2026, 4,22% em 2027 e 3,80% em 2028. A meta oficial permanece em 3%. O IPCA acumulou 4,64% nos 12 meses encerrados em junho. Enquanto isso, o PIB cresceu 1,1% no primeiro trimestre em relação aos três meses anteriores e 1,8% na comparação anual, conforme o IBGE.
Mario Mesquita apresentou outro bloco sobre as tendências econômicas entre 2026 e 2030. Os slides ressaltaram expressamente que as opiniões eram pessoais e não deveriam ser atribuídas a nenhuma instituição.
Mesquita classificou um crescimento próximo de 2% como a nova “velocidade de cruzeiro” do Brasil. Para superar esse limite, ele apontou três vetores: inteligência artificial e tecnologia, infraestrutura e integração comercial internacional.
Minerais críticos abrem uma oportunidade para o Brasil
A apresentação também destacou o potencial do Brasil na transição energética e digital. O país possui uma diversidade mineral muito maior do que a pauta exportadora atual sugere.
Segundo os dados apresentados, o Brasil concentra aproximadamente 66,6% das reservas globais de nióbio, 24,7% das reservas de terras raras e 23,9% das reservas de grafite.
O país também possui reservas relevantes de minério de ferro, estanho, manganês, titânio, níquel, cobre e lítio.
Apesar dessa disponibilidade, a mineração representa cerca de 13% das exportações brasileiras e 3% do PIB. No Chile, o setor responde por 60% das exportações e 13% da economia.
A Moody’s destacou que a existência de recursos geológicos não garante investimentos. O país ainda precisa ampliar infraestrutura, financiamento, capacidade de processamento, segurança regulatória e velocidade de licenciamento.
Essa oportunidade também se conecta à infraestrutura digital. Redes de inteligência artificial, data centers, computação de alto desempenho e mineração de criptomoedas exigem grandes volumes de energia e equipamentos especializados.
De acordo com a análise, o Brasil possui uma matriz elétrica majoritariamente renovável, mas ainda precisa resolver gargalos de transmissão, conectividade e financiamento para transformar essa vantagem em novos projetos digitais.

