
Duplicata escritural: 82% das instituições financeiras do Brasil já estão preparadas para novo mercado de R$ 11 trilhões
Mercado aponta o crescimento potencial de crédito disponível e redução do seu custo como vantagens do novo modelo, em um mercado projetado de R$ 11 trilhões pela empresa

A duplicata escritural tende a mudar a lógica de crédito no Brasil, saindo de um modelo concentrado para um ambiente mais competitivo e orientado a dados, segundo a Pesquisa de Duplicatas 2026, realizada pela Núclea em parceria com o Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPad) e a Môre Consultoria.
O estudo da empresa, que estima um mercado superior a R$ 11 trilhões, mostra que, entre as instituições financeiras entrevistadas, 82% afirmam possuir planejamento estruturado para operar no novo ambiente que pode permitir o uso de blockchain.
A pesquisa mostra que o sucesso de implementação da duplicata escritural será medido principalmente pelos impactos na economia real: para 63% dos entrevistados entre instituições financeiras e associações, o principal indicador será o aumento do volume de crédito disponível no mercado, enquanto 41% apontam a redução do custo do crédito como um dos resultados esperados da implementação. Logo, o modelo passou a ocupar posição estratégica nos planos de expansão e modernização das operações de crédito.
“A duplicata escritural já deixou de ser apenas uma agenda regulatória e passou a ser uma transformação estratégica do mercado de crédito corporativo. Existe uma expectativa muito clara de aumento de eficiência, competição e circulação de crédito”, afirma Rodrigo Furiato, vice-presidente de Negócios da Núclea.
O mercado envolve em torno de 1,5 milhão de empresas emissoras e mais de 18 mil grandes empresas sacadoras, criando condições para ampliar a circulação de recebíveis como garantia em operações financeiras e aumentar as alternativas de financiamento para empresas de diferentes portes.
A transformação já mobiliza o mercado financeiro brasileiro, com 88% das instituições financeiras e associações entrevistadas acreditam que o novo modelo ampliará a distribuição de crédito no país, impulsionado pela redução da assimetria de informações, pelo aumento da concorrência entre financiadores e pela entrada de novos participantes no mercado de recebíveis.
“Com a duplicata escritural, o mercado de recebíveis como garantia pode ser destravado, gerando a oportunidade de muitos títulos que hoje estão fora do sistema serem efetivamente negociados”, analisa Furiato.
Duplicata escritural serviços agregados
O mercado percebe a duplicata escritural como um combinado de soluções que podem otimizar o sistema financeiro brasileiro. As preferências por serviços agregados refletem o papel de cada ator: enquanto as instituições financeiras priorizam inteligência de dados, qualificação de títulos e gestão de colateral para crédito e estratégia; empresas valorizam monitoramento, visibilidade de recebíveis e automação para reduzir riscos e fraudes; associações enfatizam transparência e compartilhamento de dados para segurança + jurídica e redução de assimetrias no crédito.
Para Instituições Financeiras, os pontos mais importantes são qualificadores do título e serviços de gestão de colateral, já que priorizam precisão de crédito, redução de atritos e inteligência de negócios; empresas priorizam visibilidade, segurança cibernética e automação; associações focam em segurança jurídica e redução de custos sistêmicos.
Preocupadas com fraudes e o risco de "pagar a mesma conta duas vezes", as grandes empresas desejam serviços de monitoramento para saber exatamente quem possui o seu opt-in e acessar alertas caso seus recebíveis estejam sendo transacionados de forma anômala. Associações, por sua vez, exigem que os dados de histórico de pagamento e recusa de duplicatas sejam disponibilizados de forma ampla e transparente, servindo de insumo para que financiadores menores consigam entrar no mercado e conceder crédito sem estarem em desvantagem contra os grandes bancos.
Interoperabilidade e escala
“A duplicata escritural representa um marco para o ecossistema financeiro e para a Núclea. Além da adequação à regulação, a tendência é termos custos menores para quem toma o crédito. São R$ 11 trilhões entrando no mercado com mais financiadores podendo utilizar essas duplicatas”, afirma Joyce Saika, vice-presidente Financeira, Jurídica e de Relações Institucionais da Núclea.
A ampliação do crédito, no entanto, dependerá da capacidade do mercado de construir um ambiente interoperável, com compartilhamento padronizado de informações e integração entre os diferentes participantes. Em torno 63% dos entrevistados, coordenação entre players e tecnologia aparecem como os principais fatores para o sucesso da implementação.
Pela agenda regulatória, a adoção obrigatória começa pelas empresas com faturamento superior a R$ 300 milhões, responsáveis por aproximadamente 55% do valor das duplicatas emitidas.
Mais crédito para PMEs
A pesquisa mostra que a duplicata escritural tem potencial para transformar o acesso ao crédito das pequenas e médias empresas no Brasil. A expectativa é que a digitalização dos recebíveis aumente a concorrência entre financiadores, melhore a avaliação de risco das empresas e reduza a dependência de poucos bancos para operações de capital de giro.
Dados da Núclea mostram que as PMEs já vêm ampliando o uso de duplicatas como instrumento de financiamento. Entre 2024 e 2025, empresas com faturamento de até R$ 200 mil registraram crescimento de 49% na quantidade de operações e de 125% no valor financeiro movimentado por esses títulos.
Apesar do potencial de expansão do crédito, a pesquisa aponta desafios relacionados à preparação das empresas e ao entendimento do novo modelo. A nota média atribuída à capacidade de orientar participantes do mercado foi de apenas 4,2 em uma escala de 0 a 10, reforçando que a comunicação e a adaptação operacional serão fundamentais para que as empresas aproveitem os benefícios da duplicata escritural.
Desafios da implementação
A duplicata escritural substituirá gradualmente processos físicos por registros eletrônicos interoperáveis, criando maior transparência, rastreabilidade e compartilhamento padronizado de informações entre os participantes do sistema financeiro. Na prática, o modelo deve ampliar a competição entre financiadores, reduzir a dependência de relações bancárias concentradas e aumentar as opções de financiamento para empresas, especialmente pequenas e médias.
“O mercado reconhece o potencial da duplicata escritural, mas também demonstra preocupação com a execução operacional da transição, ou seja, o fator de sucesso depende de que todo mercado esteja preparado. A interoperabilidade e a coordenação entre participantes serão fundamentais para garantir confiança no sistema”, analisa Furiato.
Enquanto 82% das instituições financeiras ouvidas já possuem um roadmap aprovado e os grandes bancos já discutem diferencial e novos produtos, a prontidão das empresas sacadas é próxima de zero, criando um risco de um início (go-live) assimétrico. Temas como liquidação, conciliação, onboarding e adaptação tecnológica aparecem entre os principais pontos de atenção.
B3 recebe autorização
A B3, a bolsa do Brasil, recebeu autorização do Banco Central para atuar na atividade de escrituração de duplicatas escriturais. A aprovação ocorre após a conclusão dos testes individuais e dos testes integrados realizados com as demais escrituradoras e registradoras participantes do primeiro ciclo.
Com a autorização, a B3 passa a exercer a função de escrituradora no novo modelo. A companhia é líder no registro de duplicata mercantil e atuará como escrituradora e registradora para duplicata escritural com benefícios como solidez operacional, atendimento facilitado, suporte técnico dedicado, conexão direta com ERPs ou plataformas, governança de dados, entre outras funcionalidades.
O próximo passo do processo é o início da fase de produção assistida, um ambiente controlado em que empresas, instituições financeiras e demais participantes poderão operar com duplicatas escriturais em condições reais, permitindo ajustes operacionais e evolução do ecossistema antes da obrigatoriedade entrar em vigor.
A implementação da duplicata escritural será gradual e escalonada, com previsão de início da obrigatoriedade para grandes empresas em 2027 e expansão para médias e pequenas empresas em 2028.
“A chegada da duplicata escritural tende a tornar o mercado de crédito mais seguro e acessível, com potencial de redução de custos e ampliação das oportunidades de financiamento às empresas. Na B3, estamos desenvolvendo iniciativas para expandir a proposta de valor da duplicata, com investimento em inteligência de dados e no desenvolvimento de indicadores, análises e ferramentas que contribuam para a segurança e a tomada de decisão”, afirma Roberta Fortunato, superintendente de Duplicata Escritural da B3.
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