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Cassio Gusson
Escrito por Cassio Gusson,Redator
Lucas Caram
Revisado por Lucas Caram,Editor da Equipe

'Morte' do RG?: verificação sem documentos (Non-Doc Verification) avança no mercado cripto no Brasil

Tecnologia de Non-Doc Verification cresce no país e equilibra segurança, privacidade e compliance no setor cripto

'Morte' do RG?: verificação sem documentos (Non-Doc Verification) avança no mercado cripto no Brasil
Notícias

O mercado de criptomoedas no Brasil começa a adotar um novo padrão de identificação digital, no qual os dados do usuário substituem documentos tradicionais, a chamada verificação sem documentos, ou Non-Doc Verification.

A mudança ocorre em um contexto de aumento da sofisticação das fraudes digitais. Em entrevista ao Cointelegraph Brasil, durante o Merge São Paulo, Katherine Cloud, diretora de relações governamentais da Sumsub, o setor já percebe uma transformação estrutural nesse cenário.

Esse avanço tecnológico pressiona empresas a repensarem seus modelos de verificação. Em vez de depender exclusivamente de documentos físicos, plataformas passam a analisar comportamento, padrões de uso e dados digitais para validar identidades. Cloud explica que essa tecnologia já mostra resultados concretos.

Além disso, ela destaca que o Brasil já apresenta desempenho relevante nesse tipo de validação. “As taxas de aprovação no Brasil estão entre as mais altas da América Latina”, afirma, apontando que o país ocupa a segunda posição regional.

O avanço da verificação digital ocorre paralelamente ao fortalecimento das regras no setor. No Brasil, medidas como a Travel Rule e normas do Banco Central exigem maior transparência nas transações. De acordo com Cloud, o mercado já mudou sua prioridade.

“O setor está deixando de crescer a qualquer custo e passando a focar mais em segurança, verificação e compliance”, afirma.

Confira a entrevista completa.

Fraudes que impactam o setor cripto

Cointelegraph Brasil (CTBR): O relatório “State of the Crypto Industry 2026” aponta que as fraudes estão se tornando mais soffisticadas. Quais são hoje os tipos de fraude que mais preocupam as empresas do setor cripto?

Katherine Cloud (KC): As tentativas de fraude estão se tornando cada vez mais complexas na América Latina, mesmo com a queda geral nos índices. Criminosos estão combinando identidades sintéticas com engenharia social e redes organizadas, tornando os ataques mais difíceis de detectar e transformando a fraude em uma ameaça sofisticada e persistente, em vez de incidentes isolados.

Isso significa que as empresas precisam olhar além da falsificação documental tradicional ou de casos isolados e desenvolver uma estratégia abrangente que conecte verificação de identidade, monitoramento de transações e análise comportamental. A fraude em cripto é cada vez mais sistêmica, automatizada e impulsionada por IA, podendo ocorrer em todas as etapas do ciclo de vida do usuário.

No mercado cripto, especificamente, lavagem de dinheiro e fraude continuam sendo preocupações constantes, já que criminosos buscam explorar o anonimato do setor. Algumas tendências observadas incluem transações em camadas e estruturas complexas de carteiras para ocultar a origem dos recursos, ataques de ransomware e uso de laranjas, entre outros vetores de lavagem de dinheiro.

As fraudes geralmente têm como foco a obtenção ilegal de ativos por meio de identidades roubadas ou sintéticas, invasão de contas com técnicas de manipulação emocional, esquemas de pirâmide e golpes de investimento, além de estornos em transações de moeda fiduciária para cripto.

De forma geral, a pressão da fraude não diminuiu; ela está sendo redistribuída e reformulada na medida em que serviços e produtos cripto fortalecem algumas defesas e os atacantes adaptam suas técnicas.

Na América Latina, as taxas de fraude caíram 7%, representando apenas 1,4% de todas as verificações. Mas isso não significa que a ameaça desapareceu, e sim que os criminosos estão migrando de esquemas em grande volume e facilmente detectáveis para golpes mais sofisticados e difíceis de identificar

Regulamentação global

CTBR: Como reguladores ao redor do mundo estão reagindo ao aumento das fraudes digitais e qual deve ser o próximo passo regulatório para exchanges e plataformas cripto?

KC: Os reguladores no Brasil e na América Latina estão se movendo rapidamente para fechar lacunas. As recentes regras do Banco Central sobre lavagem de dinheiro e a Travel Rule mostram uma clara intenção de se alinhar aos padrões globais. Para exchanges e plataformas de criptomoedas, o próximo passo não é somente compliance, mas integração.

Os dados indicam que o mercado está deixando para trás a ambição de crescer a base de usuários “a qualquer custo” e passando a focar mais na segurança, verificação e compliance, incorporando o monitoramento diretamente no design de seus produtos. Essa mudança é essencial em mercados como o Brasil, onde a maturidade regulatória avança e os operadores precisam demonstrar transparência e responsabilidade em tempo real.

No Brasil, a Travel Rule tornou-se um ponto de inflexão. Segundo o relatório, mais da metade das plataformas já estão alinhadas com padrões internacionais: cerca de 23% estão totalmente preparadas, enquanto outros 28% estão implementando a Recomendação 16 do Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI). Essa regra exige que plataformas compartilhem informações detalhadas sobre transações internacionais, forçando empresas a aprimorar seus fluxos de verificação.

Embora isso traga complexidade operacional, também fortalece a confiança no ecossistema. Ao mesmo tempo, 43% das empresas ainda enfrentam incertezas sobre como avançar, o que mostra que, apesar do progresso significativo, ainda há um longo caminho para se alcançar conformidade consistente em todo o setor.

Fiscalização x privacidade

CTBR: Quando a gente fala em regulamentação, segurança e fraudes digitais, também estamos falando em monitoramento, rastreamento e identifficação dos usuários. Há como 'fugir' deste ciclo, no qual, para ter mais segurança temos que ceder em privacidade?

KC: O avanço das regulamentações e da maturidade do mercado geralmente vem acompanhado de mais exigências de monitoramento, o que gera preocupações. No entanto, o setor está aprendendo que segurança e privacidade não precisam ser mutuamente exclusivas, com yecnologias como a verificação sem documentos (Non‑Doc Verification) reduzindo a fricção ao mesmo tempo em que mantêm a conformidade.

Esse é um dos principais exemplos e também uma das razões pelas quais as taxas de aprovação no Brasil estão entre as mais altas da América Latina, ocupando atualmente a segunda posição. Ao desenvolver sistemas que respeitam a privacidade por padrão, mas ainda atendem ms exigências regulatórias, as plataformas mostram que é possível proteger os usuários sem criar barreiras desnecessárias.

Terrorismo

CTBR: Muito se fala em 'usar cripto para financiar o terrorismo', mas quem deffine o que é terrorismo e quem pode receber ou não receber cripto? E como isso está totalmente em oposição ao 'ethos' libertário que move a ffilosoffia do mercao cripto

KC: Há uma tensão no debate sobre financiamento do terrorismo com cripto, especialmente na América Latina, onde os marcos regulatórios estão em constante evolução. Especificamente no contexto do Brasil, a definição de terrorismo não é subjetiva, mas estabelecida pela Lei Federal 13.260/2016 e alinhada aos padrões internacionais do GAFI, cujas normas são aplicadas pelo Banco Central e pelo COAF.

Enquanto o ethos libertário do “code is law” imagina um sistema financeiro sem fronteiras, neutro e resistente m censura, onde nenhuma autoridade central pode desligar uma carteira, a conformidade é necessária para evitar abusos e proteger consumidores.

A realidade do Marco Legal dos Criptoativos exige que as plataformas atuem como guardiãs. Para os operadores, o desafio é exercer esse papel ao mesmo tempo em que constroem confiança com controles robustos, sem que a regulamentação comprometa a natureza descentralizada do ecossistema.

Inteligência artificial

CTBR: Com o avanço da inteligência artifficial, tanto criminosos quanto empresas de segurança estão usando novas tecnologias. A IA está ajudando mais a combater fraudes ou a soffisticá-las?

KC: Na verdade, ambos. A inteligência artificial é uma faca de dois gumes. De um lado, fraudadores estão usando IA para criar identidades sintéticas altamente convincentes e ataques automatizados em múltiplas etapas.

De outro, empresas estão implantando ferramentas de verificação e monitoramento baseadas em IA que já melhoram as taxas de detecção e reduzem o tempo de onboarding. Essas ferramentas são capazes de identificar sinais de golpes que sistemas tradicionais não conseguiam perceber. No Brasil, assim como em qualquer parte do mundo, essa tecnologia está se tornando indispensável para a resiliência.

Globalmente, até o fim de 2025, mais da metade das empresas (57%) pesquisadas por para o relatório mencionado afirmaram já usar ferramentas de detecção de fraude baseadas em IA, enquanto 51% investem em plataformas avançadas de análise e monitoramento.

Nesse cenário, o mais importante é garantir que governança e colaboração acompanhem o ritmo da tecnologia, para que a inovação fortaleça a proteção em vez de ampliar os riscos. Em última análise, o futuro da prevenção de fraudes dependerá da construção de uma cultura de confiança que torne a segurança uma responsabilidade compartilhada em todo o ecossistema. As capacidades de detecção impulsionadas por IA continuarão sendo parte essencial desse processo.


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