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Escrito por Cassio Gussonstaff writerRevisado por Lucas Caramstaff editor

Exclusivo: Banco Central notifica empresas e manda suspender operações de câmbio com fundos cripto no Brasil

Últimas NotíciasPublicado24 de jun. de 2026

Autarquia considera ilegais operações de câmbio para importação de ativos virtuais quando fundos atuam como intermediários; mercado contesta enquadramento e prepara reação.

O Banco Central do Brasil elevou a pressão sobre o mercado cripto e notificou na terça, 23, participantes do setor, entre eles bancos e fundos de investimento, para interromper operações de câmbio ligadas à importação de ativos virtuais por fundos de investimento, segundo uma notificação compartilhada com o Cointelegraph Brasil.

No documento, o BCB afirma que convocou empresas para comunicar formalmente seu entendimento sobre a “ilegalidade das operações de câmbio para a finalidade de importação de ativos virtuais” quando essas operações caracterizam atividade de intermediação por parte de fundos de investimento.

A autarquia também determinou a “imediata descontinuidade” desse tipo de operação. Segundo a notificação, a manutenção das transações pode levar à aplicação de medidas cautelares, coercitivas e sancionatórias pelo Banco Central.

A reunião para a qual ora são convocados terá por objetivo comunicá-las formalmente do entendimento do BCB acerca da ilegalidade das operações de câmbio para a finalidade de importação de ativos virtuais que caracterize a atividade de intermediação por parte de fundos de investimento, bem como determinar a imediata descontinuidade desse tipo de operação.

Ressalta-se que, sem prejuízo da devida responsabilização das condutas adotadas até então, a manutenção da realização das referidas operações ensejará a aplicação, pelo Banco Central, das medidas cautelares, coercitivas e sancionatórias cabíveis, no exercício de suas competências legais e regulamentares, com vistas à preservação da integridade, da transparência e da disciplina do Sistema Financeiro Nacional.", destaca a notificação do BC.

BC vê intermediação irregular em operações de fundos

O ponto central da discussão está na forma como o Banco Central interpreta a atuação dos fundos de investimento nessas operações. Segundo informações compartilhadas com o Cointelegraph Brasil, a autarquia entende que alguns fundos não apenas compram e vendem criptoativos para suas próprias carteiras, mas exercem uma atividade de intermediação.

Esse enquadramento muda o tratamento regulatório da operação. Para o BC, quando o fundo atua como intermediário na compra e venda de ativos virtuais, a estrutura deixa de representar apenas uma alocação de carteira e passa a se aproximar de uma prestação de serviço no mercado cripto (PDSVA).

A avaliação ouvida pela reportagem afirma que o mercado defende uma interpretação diferente. Nesse entendimento, os fundos não prestam serviço a terceiros e não atuam como intermediários. Eles apenas executam operações por conta própria, dentro de suas estratégias de investimento e conforme a política definida em regulamento.

“Na minha visão, a discussão não deve ser tratada a partir de uma presunção genérica de irregularidade dos fundos com exposição a ativos virtuais. Fundos de investimento são veículos regulados, sujeitos à supervisão da CVM, e podem desempenhar papel legítimo na organização de exposição econômica a criptoativos, inclusive contribuindo para a liquidez do mercado nacional.

É importante verificar qual função o fundo exerce na estrutura concreta. Se o fundo atua em nome próprio, com recursos da carteira, assumindo risco de mercado, dentro de sua política de investimento e sem executar ordens individualizadas de clientes finais, não me parece adequado presumir, automaticamente, intermediação irregular de ativos virtuais.

A preocupação regulatória é legítima quando há indícios de desvirtuamento da estrutura ; por exemplo, quando o fundo deixa de atuar por conta própria e passa a funcionar, na prática, como canal operacional para atendimento de demandas individualizadas de terceiros na compra, venda ou conversão de criptoativos. Mas essa conclusão exige análise concreta, proporcional e baseada em risco, e não uma vedação abstrata à utilização de fundos nesse mercado.”, disse Thiago do Amaral Santos, sócio do Barcellos Tucunduva - Advogados nas áreas de meios de pagamento e criptoativos. Professor da pós-graduação em Direito da FGV/SP e do Insper.

Outro ponto citado na discussão envolve a natureza jurídica dos fundos. O argumento atribuído ao BC parte da ideia de que o fundo não tem personalidade jurídica própria, já que a legislação brasileira trata o veículo como uma comunhão de recursos organizada sob a forma de condomínio de natureza especial.

Com isso, a autarquia questiona se um fundo poderia atuar como provedor de liquidez em operações de criptoativos. Segundo a interpretação relatada à reportagem, para exercer essa função de forma regular, a atividade deveria ocorrer por meio de uma pessoa jurídica, e não por um fundo despersonalizado.

Mercado prepara resposta ao Banco Central

A notificação já teria impactado o mercado nacional e operadores notificados pelo BC apontaram para a reportagem que o spread das operações com stablecoins era de 0.1 acima do mercado e agora, após a notificação, já mudou para 0.7.

Além disso, a notificação também indica preocupação do Banco Central com integridade, transparência e disciplina do Sistema Financeiro Nacional. O documento afirma que a continuidade das operações, sem a interrupção determinada pela autarquia, poderá gerar responsabilização e sanções.

No mercado, a leitura inicial é que o BC não acusou necessariamente falhas específicas de prevenção à lavagem de dinheiro em todas as operações. A discussão, segundo pessoas que acompanham o tema, parece concentrada no enquadramento jurídico e regulatório da atividade realizada pelos fundos.

Representantes do setor agora discutem uma resposta institucional ao Banco Central. A ideia em avaliação é enviar um ofício para explicar como funcionam as operações dos fundos, sustentar que eles agem por conta própria e defender que não há intermediação irregular quando o veículo compra ativos virtuais para compor sua própria carteira.

Uma nova reunião com o Banco Central também deve ocorrer nos próximos dias, segundo relatos de mercado. Até lá, a tendência é que bancos e prestadores envolvidos nas estruturas mantenham uma postura mais conservadora, com suspensão ou revisão das operações.

A tensão ocorre em meio ao avanço da regulação brasileira sobre ativos virtuais. Desde 2025, o Banco Central passou a disciplinar a prestação de serviços de ativos virtuais, criou categorias específicas para prestadoras do setor e detalhou situações em que operações com criptoativos entram no campo do mercado de câmbio e de capitais internacionais.

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