
Brasil atrai US$ 318 bilhões em cripto, mas entra na rota global da lavagem de dinheiro
Estudo da Chainalysis aponta que o país concentra cerca de um terço do valor on-chain recebido na América Latina, enquanto redes globais ligadas a lavagem de dinheiro, sanções e tráfico passam a usar exchanges brasileiras

O Brasil se consolidou como o maior mercado de criptomoedas da América Latina, mas esse crescimento também colocou o país no radar de redes internacionais de lavagem de dinheiro. Entre julho de 2024 e junho de 2025, o país recebeu cerca de US$ 318 bilhões em valor on-chain, aproximadamente um terço de todo o volume recebido na região, segundo estudo da Chainalysis.
O avanço reflete a combinação de uma população grande e jovem, a força do setor de fintechs, a familiaridade dos brasileiros com serviços financeiros digitais e a demanda por stablecoins lastreadas no dólar. No entanto, a Chainalysis afirma que o mesmo mercado que atrai usuários legítimos também passou a atrair atores ilícitos globais, incluindo redes de lavagem de dinheiro operadas em língua chinesa, evasores de sanções russos e organizações ligadas ao tráfico de drogas.
De acordo com o estudo, essas três categorias responderam por mais de 50% dos fluxos ilícitos identificados em exchanges brasileiras selecionadas em 2025. A leitura da Chainalysis mostra que o Brasil deixou de ser apenas um mercado relevante de adoção cripto e passou a integrar a infraestrutura usada por redes criminosas que operam em escala internacional.
Crime cripto movimenta US$ 154 bilhões no mundo
A Chainalysis estima que endereços ilícitos receberam US$ 154 bilhões em criptomoedas em 2025, acima dos US$ 59 bilhões registrados em 2024 e dos US$ 11 bilhões observados em 2020. Para a empresa, o salto não reflete apenas o crescimento do mercado cripto, mas também uma mudança estrutural na forma como criminosos usam blockchains, exchanges e stablecoins.
O estudo afirma que a atividade criminosa on-chain se profissionalizou desde 2020. Em vez de operações isoladas, organizações ilícitas passaram a usar infraestrutura compartilhada, serviços especializados e redes de liquidação transfronteiriça. A entrada de atores estatais nesse ecossistema também ampliou a escala do problema.
As stablecoins aparecem como peça central dessa transformação. Segundo a Chainalysis, esses ativos, antes periféricos em fluxos ilícitos, agora representam a maior parte do valor movimentado por endereços ligados a crimes. A preferência ocorre pela estabilidade de preço e pela utilidade em pagamentos e liquidações internacionais, características que também explicam a adoção legítima desses ativos.
Dentro desse cenário, três frentes dominam a lavagem de dinheiro com criptomoedas no mundo: redes de lavagem de dinheiro operadas em língua chinesa, evasão de sanções e tráfico de drogas. Todas elas aparecem nos dados brasileiros analisados pela Chainalysis.

20% dos fundos ilícitos conhecidos agora são enviados para CMLNs.
As redes conhecidas pela sigla CMLNs, na nomenclatura em inglês, oferecem lavagem de dinheiro como serviço para grupos ligados a fraudes, tráfico e atores estatais. Segundo o estudo, essas organizações já representam cerca de 20% do ecossistema total de lavagem ilícita on-chain. A evasão de sanções conduzida por Estados também ganhou escala e chegou a aproximadamente US$ 104 bilhões em 2025, alta de 694% em relação ao ano anterior.
Brasil vira ponto de convergência de ameaças globais
No caso brasileiro, a Chainalysis identifica uma mudança importante entre 2023 e 2025. Em 2023, os fluxos ilícitos para exchanges brasileiras tinham composição mais ampla. Em 2024 e 2025, a fotografia mudou: a lavagem ligada a cartéis passou a figurar como a maior categoria identificada de fluxos ilícitos.
O estudo relaciona esse movimento à posição geográfica do Brasil, tanto como mercado de destino quanto como corredor de trânsito de drogas na América do Sul. A Chainalysis também cita o uso de criptomoedas por grupos do crime organizado brasileiro, incluindo o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, como parte de suas operações financeiras.
Além do tráfico, a empresa afirma que fluxos ligados a redes de lavagem operadas em língua chinesa apareceram de forma consistente no Brasil. Esses fluxos conectam exchanges locais à mesma infraestrutura usada por grupos criminosos em outras partes do mundo. A presença dessas redes no país acompanha um padrão mais amplo observado na América Latina, onde corredores comerciais, economias informais e mercados cripto em expansão criam oportunidades para liquidação internacional.

Outro ponto de atenção envolve fluxos relacionados à Rússia. Segundo a Chainalysis, entidades sujeitas a sanções internacionais ganharam mais visibilidade na composição dos fluxos ilícitos que passam pelo Brasil, especialmente em 2024 e 2025. A empresa associa esse movimento ao fechamento de canais financeiros tradicionais após a invasão da Ucrânia em 2022, o que aumentou o apelo de criptomoedas e mercados emergentes como rotas alternativas.
O estudo também identificou serviços de garantia, ou escrow, associados a fraudes e ao crime organizado nos dados brasileiros de 2025. Para a Chainalysis, esse sinal sugere que o mercado local passou a se conectar a ecossistemas criminais mais amplos, nos quais diferentes serviços especializados sustentam operações de fraude, lavagem e movimentação internacional de recursos.
A empresa ressalta, porém, que os dados não representam um veredito sobre a postura de conformidade de uma exchange específica. Segundo a Chainalysis, redes criminosas operam através de fronteiras e direcionam fundos para rampas de entrada e saída que ofereçam acesso. Como o Brasil tem um mercado grande e em expansão, ele se torna naturalmente mais atraente para esse tipo de atividade.
Poucos endereços concentram grande parte do volume ilícito
Apesar da amplitude do problema, a Chainalysis aponta um dado que pode ajudar reguladores, exchanges e autoridades policiais a agir com mais precisão. O número de endereços de depósito expostos a fluxos ilícitos em exchanges brasileiras variou entre cerca de 550 e 950 por trimestre entre 2023 e o início de 2026. Essa dispersão mostra que criminosos espalham recursos por muitos pontos de entrada para tentar reduzir o risco de detecção.
Ao mesmo tempo, o estudo mostra que os cinco endereços de depósito mais expostos por trimestre concentraram consistentemente entre 75% e 90% do volume ilícito total recebido. Em março de 2026, aproximadamente 80% desses volumes ilícitos foram direcionados para apenas cinco endereços distintos.
Esse nível de concentração muda a leitura operacional do problema. Embora muitos endereços tenham alguma exposição a fluxos ilícitos, uma parcela relevante do volume passa por poucos pontos de maior risco. Para a Chainalysis, isso cria oportunidades concretas de intervenção, priorização de alertas, bloqueio, reporte e investigação.
Na prática, o dado sugere que o combate à lavagem de dinheiro com cripto no Brasil não depende apenas de regras gerais. Ele exige monitoramento transacional, identificação de clusters de risco e resposta rápida quando grandes volumes se concentram em endereços específicos.
Novo regime do Banco Central terá primeiro teste real

Um alto grau de exposição ilícita está concentrado em relativamente poucos endereços de depósito. Em março de 2026, aproximadamente 80% desses volumes ilícitos foram direcionados para cinco endereços distintos.
A chegada dessas redes ao mercado brasileiro ocorre no momento em que o país coloca em funcionamento seu novo regime regulatório para prestadores de serviços de ativos virtuais. Segundo o estudo, o Banco Central publicou em novembro de 2025 as Resoluções 519, 520 e 521, que operacionalizam a Lei de Ativos Virtuais de 2022. O regime entrou em vigor em 2 de fevereiro de 2026.
As normas criam um caminho de licenciamento para prestadores de serviços de criptoativos, incluindo corretoras, custodiantes e intermediários domésticos, além de empresas estrangeiras que atendem clientes brasileiros. O marco também introduz obrigações de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo, inclui a Regra de Viagem do GAFI e trata transferências transfronteiriças de stablecoins como atividade cambial sob a Resolução 521.
As obrigações de reporte entraram em vigor em 4 de maio de 2026, enquanto o prazo de licenciamento para empresas já em operação termina em 29 de outubro. Para a Chainalysis, os fluxos ilícitos identificados em exchanges brasileiras serão o primeiro teste real desse regime, tanto para o Banco Central como supervisor quanto para empresas que precisarão detectar e interromper transações suspeitas.
O estudo também observa que o Brasil avança em paralelo em outras frentes. A CVM mantém uma consulta pública sobre quais casos envolvendo criptoativos podem ser considerados valores mobiliários, enquanto a Receita Federal já possui regras de reporte e tributação de ganhos de capital. Em março de 2026, a Lei nº 15.358 ampliou os poderes das autoridades para bloquear, apreender e dar nova destinação a ativos digitais vinculados ao crime organizado, segundo o material da Chainalysis.
Para a empresa, a maturação regulatória pode dificultar a atuação de redes de lavagem. Um setor de exchanges mais supervisionado tende a reduzir a margem de manobra de organizações que dependem de rampas de entrada e saída para transformar ativos digitais em recursos utilizáveis no sistema financeiro.
O desafio, no entanto, será transformar obrigações regulatórias em detecção operacional. A Chainalysis afirma que as mesmas características que tornam esses fluxos rastreáveis também permitem intervenção direcionada. No Brasil, essa intervenção precisará ocorrer no intervalo entre o crescimento acelerado da adoção cripto e a adaptação das empresas ao novo regime de autorização.
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