
Operação Véu de Maia: Bets no Brasil usam criptomoedas para lavar dinheiro, revela Policia Federal
Operação Véu de Maia investiga 87 empresas suspeitas de movimentar recursos de operadores clandestinos de apostas e enviar valores ao exterior por meio de criptoativos

A Polícia Federal deflagrou nesta segunda-feira (6) a Operação Véu de Maia para investigar um suposto esquema de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e organização criminosa ligado à exploração ilegal de apostas de quota fixa no Brasil, as famosas bets.
A investigação coloca o uso de criptomoedas no centro da apuração sobre o caminho do dinheiro movimentado por bets clandestinas. Segundo a PF, os agentes investigam a possível remessa irregular de valores ao exterior por meio de criptoativos.
A operação começou a partir de informações encaminhadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), órgão do Ministério da Fazenda responsável pela regulação do setor de apostas. Os relatórios apontaram a utilização de 87 empresas suspeitas de atuar como interpostas pessoas para movimentar recursos de operadores irregulares.
A PF apura se essas empresas funcionavam como uma camada formal para dar aparência de legalidade a dinheiro gerado por plataformas sem autorização para operar no país. A estrutura teria permitido a movimentação de recursos de agenciadores e operadores clandestinos antes da eventual conversão em criptoativos e envio ao exterior.
Os policiais cumprem nove mandados de busca e apreensão, além de buscas pessoais, em seis cidades de três estados. As diligências ocorrem em Aparecida de Goiânia e Goiânia, em Goiás; São Paulo e Ribeirão Preto, em São Paulo; e Porto Alegre e Canoas, no Rio Grande do Sul.
Os investigados poderão responder pelos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, organização criminosa e outros delitos que os investigadores venham a identificar durante a análise dos materiais apreendidos.
Bets clandestinas pressionam mercado regulado no Brasil
A Operação Véu de Maia ocorre em meio ao avanço da fiscalização sobre o mercado de apostas no Brasil. Desde 1º de janeiro de 2025, apenas empresas autorizadas pelo Ministério da Fazenda podem operar legalmente no país, com domínio “bet.br” e cumprimento das regras de regulação, prevenção à lavagem de dinheiro, publicidade e jogo responsável.
As bets autorizadas precisam passar pelo processo de licenciamento, pagar outorga de R$ 30 milhões e cumprir exigências regulatórias. Já os operadores clandestinos atuam fora desse ambiente, sem recolher tributos da mesma forma, sem respeitar mecanismos de proteção ao apostador e sem se submeter aos controles exigidos pela Fazenda.
Esse mercado paralelo virou uma das principais preocupações do governo e do setor regulado. As empresas legalizadas afirmam que enfrentam concorrência de plataformas que não pagam outorga, não seguem regras de publicidade e conseguem operar com custos menores justamente por ignorar obrigações legais.
Segundo informações citadas pelo setor, cálculos da H2 Gambling Capital, com base em dados de remessas ao exterior, movimentação de criptomoedas e tráfego na internet, estimaram que o mercado clandestino de apostas movimentou R$ 16,3 bilhões em 2025.
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), por sua vez, encomendou um estudo à consultoria LCA que estimou uma participação ainda maior das bets clandestinas. De acordo com esse levantamento, as operações ilegais podem representar entre 41% e 51% do mercado total, com movimentação entre R$ 26 bilhões e R$ 39 bilhões.
Durante uma das diligências em Canoas, no Rio Grande do Sul, policiais encontraram quatro armas sem registro e prenderam o morador do endereço em flagrante. A PF ainda mantém em sigilo os nomes dos alvos para preservar a coleta de provas e o andamento da investigação.
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