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Cassio Gusson
Escrito por Cassio Gusson,Redator
Lucas Caram
Revisado por Lucas Caram,Editor da Equipe

ANBIMA testa mercado tokenizado com 51 instituições e mira infraestrutura para ativos nativos em blockchain

Projeto-piloto reúne fundos, debêntures e participantes do mercado financeiro para entender como ativos nativos on-chain podem funcionar no Brasil e quais mudanças regulatórias serão necessárias.

ANBIMA testa mercado tokenizado com 51 instituições e mira infraestrutura para ativos nativos em blockchain
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Durante uma participação na abertura do Blockchain.RIO em São Paulo, Marcelo Billi, Superintendente de Sustentabilidade, Educação e Inovação da ANBIMA, detalhou como a associação estruturou seu projeto-piloto que busca entender, na prática, como ativos financeiros nativos em blockchain podem funcionar dentro da infraestrutura brasileira.

A iniciativa reúne 51 instituições e aproximadamente 20 casos de uso, em uma tentativa de reproduzir, em ambiente controlado, a dinâmica do mercado de capitais tradicional.

Segundo Billi, a iniciativa nasceu de uma dificuldade recorrente observada nas discussões envolvendo blockchain, tokenização e mercado financeiro: apesar do consenso crescente sobre o potencial da tecnologia, ainda existem muitas incertezas sobre padrões, modelos operacionais e responsabilidades dentro de uma infraestrutura descentralizada.

O executivo afirmou que, durante anos, a associação discutiu o tema com participantes do mercado tentando entender não apenas os impactos da tokenização, mas também o que precisaria mudar para que esses ativos pudessem ser distribuídos e tratados da mesma forma que produtos financeiros tradicionais.

“Como todo mundo, a gente vinha discutindo isso com os nossos associados para entender os impactos não só de cripto e tokenização nos mercados, mas também o que precisava ser feito para essas coisas funcionarem como funciona qualquer ativo financeiro”, afirmou.

Principal desafio é infraestrutura

Na visão apresentada por Billi, existe uma primeira camada da discussão considerada relativamente mais simples: o enquadramento dos ativos digitais como uma nova classe de investimento. Nesse cenário, o mercado precisa entender fatores já conhecidos, como risco, adequação ao perfil do investidor, composição de carteira, responsabilidade dos intermediários e critérios de distribuição.

Segundo ele, a própria ANBIMA já trabalha em ajustes dentro de seus códigos e processos de autorregulação para acomodar essas novas estruturas financeiras.

“Essa agenda é menos complexa porque, no fim, é o roadmap para entender os riscos de uma nova classe de ativo, como ela entra na carteira e quais são as responsabilidades do sistema de distribuição”, explicou.

No entanto, o principal desafio estaria em outra dimensão: a infraestrutura. Segundo o executivo, a tecnologia blockchain não altera apenas a natureza dos ativos, mas pode transformar a própria arquitetura sobre a qual o mercado financeiro foi construído.

Billi argumentou que o sistema atual foi desenvolvido a partir de estruturas centralizadas capazes de resolver problemas relacionados à custódia, titularidade, liquidação e compartilhamento de informações. Bolsas, registradoras, administradores e bancos passaram a atuar historicamente como intermediários responsáveis por organizar fluxos e centralizar dados.

Ao abordar o tema, o superintendente destacou uma diferença estrutural entre o modelo tradicional e o funcionamento de blockchains públicas ou distribuídas. Segundo ele, enquanto a infraestrutura atual foi desenhada com pontos centrais de controle, blockchain surgiu justamente com a proposta oposta: criar registros descentralizados.

“Todo o nosso mercado foi organizado para resolver problemas centralizando as coisas. Só que blockchain não foi pensado assim; ele é justamente o contrário disso”, disse.

A consequência prática disso, segundo Billi, é que ainda não há consenso sobre questões fundamentais. Entre elas estão a escolha de redes, padrões tecnológicos, modelos de smart contracts e até definições básicas relacionadas ao ciclo de vida de determinados ativos tokenizados.

“Qual é a rede? É a minha, a sua, a dele? Qual é o padrão? Qual é o smart contract? Qual é o ciclo de vida de uma debênture tokenizada? No mercado tradicional a gente já tem esses consensos”, afirmou.

Fundos e debêntures tokenizadas

Foi nesse contexto que surgiu a decisão de abandonar temporariamente discussões exclusivamente teóricas para avançar em testes práticos. Segundo o executivo, a ANBIMA percebeu dificuldades em debater o papel de cada agente em estruturas que ainda não existem em larga escala. Em vez de continuar projetando cenários hipotéticos, a associação optou pela construção de um piloto capaz de observar o funcionamento operacional de ativos emitidos diretamente em blockchain.

Ao contrário de modelos em que um token apenas representa um ativo tradicional emitido em outra infraestrutura, Billi afirmou que o objetivo é analisar ativos nativos on-chain. O exemplo citado foi o de debêntures emitidas diretamente em blockchain, sem a existência de uma emissão tradicional equivalente servindo como lastro externo.

“Estamos falando de uma debênture nativamente on-chain, que representa a dívida de uma empresa. Não existe outra debênture emitida por trás”, explicou.

Segundo ele, a intenção é compreender como fundos de investimento e debêntures poderiam funcionar desde sua emissão até a liquidação dentro de uma rede baseada em tecnologia distribuída.

O projeto reúne participantes de diferentes áreas do mercado financeiro, incluindo gestores, distribuidores, bancos de investimento e demais agentes da cadeia. Algumas instituições apresentaram iniciativas em formato open source, algo apontado pela associação como um sinal positivo para colaboração e desenvolvimento conjunto.

“Hoje temos 20 casos inscritos e 51 instituições participando. Tem gestor de fundo, distribuidor, banco de investimento. Isso reproduz mais ou menos o ecossistema que já temos no mercado de capitais”, disse.

A expectativa, segundo Billi, é que o projeto permaneça em execução até o final do ano. Ao término desse período, a associação pretende consolidar aprendizados e construir um roadmap mais claro sobre os próximos passos. O objetivo não seria apenas identificar ajustes regulatórios, mas entender quais papéis permanecem necessários, quais funções mudam e como criar mecanismos que permitam interoperabilidade e liquidez em um ambiente tokenizado.

Segundo a visão apresentada pelo executivo, a discussão não gira em torno de criar uma única rede ou estruturar um mercado isolado de debêntures tokenizadas.

“O desafio não é criar um mercado tokenizado de debêntures. É entender como isso vira um mercado brasileiro de verdade, com liquidez, interoperabilidade, investidores participando e empresas emitindo com segurança”, concluiu.
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