A disputa entre blockchains, exchanges e protocolos DeFi entrou em um novo patamar, mas o fator decisivo para o sucesso deixou de ser apenas tecnologia. Para Dr. Nisheta Sachdev, Marketing Lead da Ryder, a capacidade de construir e manter uma comunidade engajada se tornou o principal diferencial competitivo no setor.
Segundo a executiva, durante uma entrevista para o Cointelegraph Brasil, o mercado vive uma transformação impulsionada pela chamada economia da atenção.
“Estamos vivendo em uma economia da atenção e está cada vez mais difícil reter essa atenção”, afirma. Ela destaca que o tempo médio de foco caiu para cerca de 6,5 segundos em 2026, o que aumenta a pressão sobre projetos cripto.
Nesse cenário, apenas inovação técnica já não garante relevância. “Ter boa tecnologia ou uma narrativa forte já não é suficiente”, diz. Para ela, o verdadeiro valor está na conexão com os usuários. De acordo com Sachdev, a comunidade ocupa um papel estrutural no ecossistema. “A comunidade sempre foi, e continuará sendo, o núcleo do marketing Web3”, afirma.
Ela explica que tecnologia e narrativas mudam rapidamente, enquanto uma base fiel sustenta projetos ao longo do tempo. “Uma comunidade engajada é o que separa um projeto que sobrevive a um bear market de outro que constrói algo duradouro”, diz.
Além disso, a executiva aponta que a transparência se tornou uma vantagem competitiva. Projetos que desenvolvem suas soluções de forma aberta conseguem fortalecer vínculos com usuários e gerar mais confiança.
“Há algo único em acompanhar o crescimento de um projeto em tempo real e ver seu feedback influenciar sua direção”, afirma. Para ela, esse modelo cria um diferencial sustentável no longo prazo.
A análise da executiva também revisita ciclos anteriores do mercado cripto. Segundo ela, os projetos que resistiram às quedas adotaram uma postura estratégica mais dinâmica.
“Sobreviver no mercado cripto se resume a ser proativo, e não reativo”, afirma. Ela destaca que projetos bem-sucedidos ajustam rapidamente suas estratégias e continuam desenvolvendo produtos mesmo durante períodos de baixa.
Sachdev cita a Solana como exemplo. Após fortes quedas entre 2022 e 2023, a rede reposicionou sua estratégia, priorizando desenvolvedores e aplicações voltadas ao usuário final.
O resultado foi a reconstrução da relevância no mercado. “Os projetos que sobrevivem não são os mais promovidos, mas os que permanecem próximos da comunidade e continuam evoluindo”, diz.
Confira a entrevista completa.
O que diferencia os projetos cripto
Cointelegraph Brasil (CTBR): A competição entre blockchains, exchanges e protocolos DeFi nunca foi tão intensa. O que realmente diferencia um projeto hoje: tecnologia, liquidez, comunidade ou narrativa?
Dr. Nisheta Sachdev (NS): Estamos vivendo em uma economia da atenção e está cada vez mais difícil reter essa atenção. Em 2024, o tempo médio de atenção era de 8 a 12 segundos; pesquisas em 2026 mostram que caiu para 6,5 segundos. Em um ambiente tão ruidoso, apenas ter boa tecnologia ou uma narrativa convincente já não é suficiente.
A comunidade sempre foi, e continuará sendo, o núcleo do marketing Web3. A tecnologia fica obsoleta. Narrativas vêm e vão. Mas uma comunidade fiel e engajada é o que separa um projeto que sobrevive a um bear market de um que constrói algo duradouro. A liquidez também importa, claro, mas é simplesmente inegociável.
Os projetos que mais admiro vão além: eles constroem em público. Como membro da comunidade, há algo único em acompanhar o crescimento de um projeto em tempo real e ver seu feedback influenciar sua direção. Essa transparência não é apenas boa cultura; é uma vantagem competitiva de longo prazo. Para mim, é isso que realmente diferencia os projetos.
Como sobreviver ao mercado
CTBR: O mercado de criptomoedas passou por vários ciclos de euforia e correção. Na sua opinião, o que os projetos que sobreviveram fizeram de diferente em termos de estratégia e posicionamento?
NS: Sobreviver no mercado cripto se resume a uma coisa: ser proativo, e não reativo. Os projetos que sobrevivem aos bear markets não são os que têm as melhores narrativas no bull run. São os que reavaliam rapidamente, adaptam sua estratégia e continuam construindo quando todos os outros ficam em silêncio.
A Solana é o exemplo mais claro disso. Durante o colapso da FTX e da Terra (LUNA) em 2022–2023, o SOL caiu para cerca de US$ 8 e a rede foi amplamente descartada. Em vez de insistir na narrativa de “chain de VC”, a Solana se reposicionou, focando em desenvolvedores, aplicativos para consumidores e, no fim, cultivando uma das comunidades mais vibrantes de varejo e memecoins do mercado.
Este ciclo não é diferente. Os mercados são instáveis, o sentimento muda rápido e os projetos sem relevância real terão dificuldade até para manter atenção, quanto mais crescer. Os que sobreviverão não serão apenas os mais capitalizados ou os mais promovidos. Serão aqueles que permanecem próximos da comunidade, iteram sobre o que funciona e constroem operações robustas para enfrentar a próxima correção antes que ela chegue.
Indicadores relevantes
CTBR: Olhando para o ambiente atual, quais indicadores você considera mais relevantes para saber se estamos entrando em um novo ciclo de expansão ou apenas em um rali temporário?
NS: Responder isso de forma isolada é quase impossível agora, porque os indicadores que normalmente sinalizam um novo ciclo estão sendo sobrepostos diariamente por um único fator macro: a guerra entre EUA e Israel contra o Irã.
Desde o início do conflito, em 28 de fevereiro, a economia global enfrenta o que a IEA classificou como a maior disrupção de oferta da história do mercado global de petróleo. O barril subiu para perto de US$ 120, o Estreito de Ormuz permanece fechado e os mercados globais precificam riscos de estagflação. Esse é o pano de fundo macro.
No mercado cripto, o padrão tem sido claro e extremamente volátil, seguindo manchetes. Após oito dias seguidos de alta, uma única notícia provocou mais de US$ 1 bilhão em liquidações em 24 horas no dia 21 de março. Já em 23 de março, rumores de uma pausa de cinco dias fizeram o Bitcoin subir 6%, enquanto o petróleo caiu 14%.
Este ciclo atual não segue o padrão tradicional de bull ou bear market pós-halving. Trata-se de um mercado guiado por eventos geopolíticos e reagindo em tempo real às notícias. Só será possível confirmar um novo ciclo de expansão quando o cenário geopolítico se estabilizar.
Regulamentação
CTBR: Reguladores em vários países estão avançando com novas regras para ativos digitais, stablecoins e exchanges. Você acredita que essa regulação fortalecerá o setor ou ainda representa um risco para a inovação?
NS: A regulação é necessária para a adoção em massa de criptomoedas e ativos digitais. Sem isso, instituições não alocam capital, usuários não confiam e governos continuam tratando o setor como ameaça. Regras claras criam a base que construtores sérios precisam.
Mas isso vai matar a inovação? Eu não acredito. O ethos do cripto sempre foi “poder para as pessoas”, e isso não é apenas um slogan. É um movimento profundo que busca liberdade dos sistemas tradicionais. Essa força não desaparece com novas regras. Pelo contrário, a história mostra que a comunidade cripto constrói mais rápido e com mais criatividade sob pressão.
O verdadeiro risco não é a regulação em si, mas a má regulação. Regras genéricas criadas por quem não entende a tecnologia, ou estruturas feitas para proteger incumbentes, são o que realmente ameaça a inovação. A diferença entre uma regulação que fortalece o setor e uma que o trava depende de quanto os reguladores dialogam com quem constrói, antes — e não depois — de criar as regras.
Futuro do mercado cripto
CTBR: Olhando para os próximos cinco anos, quais áreas do ecossistema cripto terão maior impacto real na economia: tokenização de ativos, pagamentos com stablecoins, infraestrutura DeFi ou novas aplicações ainda em desenvolvimento?
NS: Vejo quatro áreas principais com maior potencial de impacto.
Pagamentos com stablecoins e transferências internacionais são a oportunidade mais imediata. O sistema bancário tradicional ainda é lento, caro e excludente para grande parte da população. Stablecoins resolvem um problema real, e com regulações avançando nos EUA, Europa e Ásia, a adoção em massa está mais próxima do que muitos imaginam.
A infraestrutura DeFi é um jogo de longo prazo. A primeira onda foi especulativa e caótica, mas o que está sendo construído agora é mais auditável, mais componível e mais amigável ao usuário. Isso cria a base para serviços financeiros sem intermediários.
A tokenização de ativos do mundo real é talvez a mais subestimada. Levar ativos como imóveis, crédito privado e commodities para a blockchain não cria apenas novos produtos, mas muda quem pode acessá-los. Isso representa uma transformação estrutural trilionária.
E, por fim, a privacidade. É a área que recebe menos atenção, mas pode ser a mais importante. À medida que nossas vidas financeiras migram para a blockchain, a necessidade de infraestrutura de privacidade confiável se torna inevitável. Os projetos que resolverem isso serão fundamentais.

