Durante um painel no evento DeFi Technologies Insights Symposium, organizado pela DeFi Tecnologies, Andrew Forson, presidente a companhia, declarou uma das grandes questões envolvendo o mercado de tokenização é a liquidez.
Segundo ele, o entusiasmo com a tokenização levou diversas empresas a anunciar bilhões de dólares em ativos digitais. Contudo, isso não significa necessariamente que esses ativos tenham compradores ou negociação ativa.
“Você pode tokenizar qualquer coisa, até a Mona Lisa, mas isso não significa que alguém vá comprar o token”, afirmou Forson.
De acordo com o executivo, o mercado de RWAs pode alcançar escala trilionária nos próximos anos, mas isso dependerá da capacidade de resolver problemas estruturais ligados à liquidez e à integração entre diferentes sistemas financeiros.
Forson afirma que, nos últimos anos, analisou centenas de projetos ligados à tokenização. Durante esse período, diversas empresas apresentaram plataformas que afirmavam possuir bilhões de dólares em ativos tokenizados.
Em um dos casos citados por ele, uma empresa alegava ter US$ 8,5 bilhões em ativos imobiliários tokenizados em sua plataforma.
Apesar do número impressionante, Forson diz que o verdadeiro desafio não estava na tecnologia usada para tokenizar os ativos, mas sim na ausência de liquidez.
“Existe uma grande diferença entre ativos tokenizados e liquidez real”, explicou.
Segundo ele, transformar um ativo físico em um token digital é relativamente simples do ponto de vista tecnológico. O problema surge quando se tenta criar um mercado ativo para esses tokens.
Para ilustrar a situação, o executivo utiliza uma analogia.
“É como dar um barco a um homem perdido no deserto. Ele não precisa de um barco, ele precisa de água. Sem liquidez, esses ativos digitais acabam tendo pouco valor prático.”
Esse cenário explica por que muitas plataformas apresentam grandes volumes de ativos tokenizados, mas pouca ou nenhuma negociação real no mercado, como acontece no Brasil, segundo dados apresentados pelo RWA.Monitor
Interoperabilidade será decisiva para o crescimento
Além da liquidez, Forson acredita que a interoperabilidade entre mercados e plataformas será um dos fatores mais importantes para o desenvolvimento do setor.
Hoje, grande parte das iniciativas de tokenização funciona de forma isolada. Cada empresa tenta criar sua própria infraestrutura e capturar participação de mercado sem compartilhar dados ou integração com outras plataformas.
Na visão do executivo, essa abordagem limita o crescimento do mercado.
“Todos querem construir seu próprio mercado e capturar o máximo possível de participação. Mas essa estratégia não cria um ecossistema saudável”, disse.
Ele afirma que o verdadeiro potencial dos RWAs será liberado quando diferentes plataformas conseguirem operar de forma integrada, permitindo que investidores negociem ativos de maneira global.
O desafio regulatório e o acesso internacional
Outro ponto levantado por Forson envolve o ambiente regulatório e o acesso de investidores internacionais aos mercados tokenizados.
Segundo ele, a promessa da tecnologia blockchain é justamente facilitar o acesso global a investimentos. Porém, na prática, ainda existem diversas barreiras legais e operacionais.
O executivo cita como exemplo o processo atual de investimento em ativos estrangeiros.
Hoje, um investidor que vive no Canadá e deseja comprar um ativo brasileiro geralmente precisa abrir uma conta em uma corretora internacional, transferir recursos para essa conta e somente depois realizar o investimento.
Para Forson, esse processo mostra como o sistema financeiro ainda é fragmentado.
“Se um investidor encontra um ativo digital brasileiro, ele deveria conseguir comprá-lo com muito mais facilidade”, afirmou.
Ele acredita que o mercado de RWAs poderá evoluir de forma semelhante ao que ocorreu com as stablecoins, que se tornaram um instrumento global de transferência de valor.
Apesar dos desafios, Forson mantém uma visão otimista sobre o futuro do setor.
Para ele, a tokenização tem potencial para transformar a forma como ativos financeiros são negociados e distribuídos globalmente.
Se a indústria conseguir resolver questões relacionadas à liquidez, interoperabilidade e segurança jurídica, investidores poderão acessar ativos de diferentes países de forma simples e rápida.
Nesse cenário, títulos, créditos, imóveis e outros ativos poderiam ser negociados globalmente por meio de blockchain.
Ainda assim, o executivo deixa um alerta. A tecnologia pode permitir a tokenização de praticamente qualquer ativo, mas isso não garante a existência de um mercado.
“Tokenizar algo é fácil. Criar liquidez é o verdadeiro desafio”, concluiu.

