
IA, guerra e tarifas: FED ja está pronto para elevar a taxa de juros nos EUA, diz Janet Yellen durante evento no Brasil
Ex-presidente do Fed afirma que tarifas, guerra no Irã e investimentos em IA aumentam a inflação e podem exigir novo aperto monetário.

Nesta quinta-feira, 23, durante um painel na Expert XP, Janet Yellen, ex-secretária do Tesouro dos Estados Unidos e ex-presidente do Federal Reserve (Fed), criticou as tarifas impostas pelo presidente Donald Trump e apontou a guerra no Irã como um dos catalisadores do avanço da inflação norte-americana.
De acordo com Yellen, o Fed não deve reduzir a taxa de juros agora, como esperam Trump e parte dos investidores do mercado de criptomoedas. Pelo contrário, o banco central já estaria preparado para elevar os juros caso as tensões no Oriente Médio voltem a se intensificar.
“Eu acho que, no momento, o Fed está em espera. Eles já estão prontos para elevar as taxas se essa última rodada de acontecimentos no Oriente Médio se intensificar ainda mais”, afirmou. “Então, eu acho que nós podemos ver até um aumento da taxa para conter a inflação.”
Yellen também incluiu o crescimento da demanda energética provocada pela inteligência artificial entre as novas fontes de pressão sobre os preços. Segundo ela, a construção de data centers aumenta o consumo de eletricidade, estimula a procura por semicondutores e encarece produtos eletrônicos vendidos à população.
Tarifas de Trump interromperam queda da inflação
Yellen lembrou que, após a crise financeira de 2008, o principal desafio do Fed consistia em estimular uma economia com inflação baixa e desemprego elevado. O banco central reduziu os juros para perto de zero e manteve esse nível durante sete anos, além de recorrer à compra de ativos e à comunicação com o mercado.
O cenário mudou durante a pandemia. Problemas nas cadeias de abastecimento, escassez de semicondutores e uma migração dos gastos de serviços para mercadorias provocaram uma alta da inflação muito superior à esperada pelo banco central.
Com a normalização das cadeias produtivas, a inflação começou a perder força. Yellen, porém, afirmou que as tarifas impostas por Trump interromperam esse processo e criaram uma nova pressão sobre os preços.
“Parecia que a inflação cairia, mas o presidente Trump veio e impôs enormes tarifas, que fizeram a inflação decolar novamente”, disse.
A ex-presidente do Fed avaliou que o impacto tarifário poderia desaparecer gradualmente, por representar um aumento pontual do nível de preços. A escalada militar no Oriente Médio, no entanto, adicionou outro choque de oferta e voltou a pressionar o petróleo.
Yellen destacou que o barril oscilou entre US$ 70 e mais de US$ 100 nos últimos meses. Como o petróleo integra os custos de transporte, produção e distribuição, uma nova alta pode se espalhar rapidamente pela economia.
Segundo ela, a ausência de uma perspectiva para o fim das hostilidades indica que a inflação pode permanecer acima da meta de 2% do Fed por pelo menos mais um ano.
A avaliação representa uma mudança em relação a abril, quando Yellen ainda considerava possível um corte de juros em 2026, apesar das pressões provocadas pela guerra no Irã. Desde então, o conflito e a alta da energia reduziram as apostas do mercado em uma flexibilização monetária, segundo a Reuters.
Para o mercado de criptomoedas, a manutenção ou elevação dos juros prolongaria um ambiente de liquidez mais restrita. Taxas elevadas aumentam a atratividade dos títulos públicos norte-americanos e reduzem o apetite por ativos de risco, grupo no qual investidores normalmente incluem Bitcoin e altcoins.
Inteligência artificial pressiona energia e semicondutores
Yellen também contestou a tese de que a inteligência artificial já permite ao Fed reduzir os juros por meio de ganhos de produtividade. Segundo ela, os dados agregados ainda não mostram uma melhora relevante capaz de conter os preços.
No curto prazo, a ex-secretária do Tesouro enxerga o efeito contrário. Empresas investem grandes volumes na construção de data centers, compram semicondutores, contratam trabalhadores e ampliam o consumo de energia.
Além do investimento empresarial, Yellen identificou um estímulo indireto ao consumo. A expectativa de lucros futuros das empresas de tecnologia impulsiona o mercado de capitais, aumenta o patrimônio dos investidores e favorece novos gastos na economia.
Ela comparou o momento atual com a segunda metade dos anos 1990, quando Alan Greenspan presidia o Fed. Naquela época, o desemprego caiu para níveis que normalmente provocariam inflação, mas o aumento da produtividade associado à internet permitiu que a economia crescesse sem uma elevação equivalente dos preços.
Yellen contou que, em uma reunião de setembro de 1996, ela e a maioria dos integrantes do Comitê Federal de Mercado Aberto defendiam uma elevação dos juros. Greenspan resistiu porque acreditava que os indicadores oficiais ainda não capturavam os ganhos de produtividade. Revisões posteriores dos dados confirmaram a avaliação dele.
A ex-presidente do Fed admitiu que a inteligência artificial pode repetir esse processo no médio prazo. No entanto, ela afirmou que os investimentos em tecnologia ainda geram pressões inflacionárias e que eventuais ganhos de produtividade somente deverão aparecer nos próximos anos.
Yellen apoia revisão da comunicação do Fed
Durante o painel, Yellen também comentou as cinco forças-tarefa criadas pelo atual presidente do Fed, Kevin Warsh, para revisar a condução da política monetária. Os grupos analisam comunicação, balanço patrimonial, qualidade dos dados, produtividade e emprego, além das estruturas usadas para interpretar a inflação.
Yellen considerou natural que Warsh revise instrumentos que criticava antes de assumir o comando do banco central. Ela também avaliou que a participação de especialistas externos pode dar credibilidade às eventuais mudanças perante o mercado e os integrantes do Fed.
O ex-presidente do Banco Central do Brasil Armínio Fraga integra o grupo responsável pela comunicação. Ele trabalha ao lado do ex-presidente do Banco da Inglaterra Mervyn King e do economista Peter Fisher, conforme a composição divulgada pelo Fed.
Entre os instrumentos em análise está o chamado “dot plot”, gráfico que reúne as projeções individuais dos dirigentes para a trajetória dos juros. Yellen defendeu a utilidade do mecanismo, criado durante sua passagem pelo Fed, mas reconheceu que os pontos não mostram quais premissas econômicas sustentam cada previsão.
Para a economista, o banco central poderia divulgar cenários mais completos e explicar como a política monetária reagiria a diferentes trajetórias para inflação, emprego, crescimento e petróleo. Segundo ela, essa mudança ajudaria o público a compreender o grau de incerteza enfrentado pelos responsáveis pelas decisões de juros.

