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Escrito por Cassio GussonRedatorRevisado por Lucas CaramEditor

B3 vai lançar stablecoin nos próximos meses e ativos tokenizados no começo de 2027, com negociação 24/7

Últimas NotíciasPublicado23 de jul. de 2026

Bolsa também prepara o lançamento da stablecoin B3RL e aposta em produtos financeiros disponíveis 24 horas por dia

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Nesta quinta-feira, 23, durante o painel “O futuro já tem preço: o mercado trilionário de ativos digitais”, realizado na Expert XP 2026, Felipe Paiva, diretor de Relacionamento com Clientes, Educação e Pessoa Física da B3, afirmou que a bolsa pretende lançar ativos tokenizados no início de 2027.

“A B3 já tem o B3RL. No começo do ano que vem, a gente já está indo para a tokenização de ativos”, disse Paiva. Segundo o executivo, a instituição avança na construção da infraestrutura tecnológica e regulatória necessária para conectar os ativos digitais ao mercado financeiro tradicional.

Ao responder sobre a possibilidade de tokenizar ações, Paiva afirmou que a B3 já alcançou um estágio avançado no desenvolvimento da infraestrutura. O projeto deverá permitir que corretoras ofereçam esses produtos diretamente aos clientes, dentro das mesmas plataformas que já concentram ações, títulos e derivativos.

“Com esse ambiente, a gente já consegue criar a possibilidade para que as corretoras coloquem no ar a oferta desse tipo de produto”, afirmou. A iniciativa poderá abranger ações e outros instrumentos financeiros, embora a B3 ainda não tenha detalhado quais ativos entrarão na primeira etapa.

Antes dos ativos tokenizados, a B3 pretende lançar o B3RL, sua stablecoin atrelada ao real. Paiva afirmou que o ativo chegará ao mercado nos próximos meses e funcionará como uma camada de liquidação para novos produtos e serviços financeiros.

“A B3 lança, já agora nos próximos meses, o B3RL para que a gente consiga derivar essas experiências para diferentes tipos de funcionalidades e produtos do mercado financeiro”, declarou.

Segundo ele, o mercado poderá usar o B3RL para liquidar operações com ativos tokenizados, oferecer garantias em negociações e automatizar processos que hoje dependem de diferentes intermediários. A combinação também permitirá desenvolver produtos que funcionem fora do horário comercial.

“A stablecoin vai permitir que a gente desenvolva, em cima de uma infraestrutura regulada, novos tipos de produtos e, mais do que isso, novas experiências para os clientes”, afirmou.

Paiva disse que a B3 decidiu participar do movimento porque o mercado precisa de governança, infraestrutura e confiança. Esses elementos, segundo o executivo, devem assegurar que os ativos vendidos aos investidores existam e mantenham o lastro informado pelos emissores.

“A gente se viu quase que na obrigação de participar desse movimento e oferecer a infraestrutura tanto de stablecoin como de tokenização”, acrescentou.

Stablecoins vão impulsionar mercado de tokenização

Marcos Viriato, cofundador e CEO da Parfin, afirmou que a ausência de uma stablecoin em reais integrada à infraestrutura regulada ainda limita o crescimento da tokenização no Brasil. Com a chegada do B3RL e de outras moedas digitais emitidas por instituições do mercado, as plataformas poderão trocar o dinheiro tokenizado pelo ativo digital de maneira simultânea.

O processo recebe o nome de Delivery versus Payment (DvP). Nele, a transferência do ativo e o pagamento acontecem ao mesmo tempo, reduzindo o risco de uma parte cumprir a obrigação enquanto a outra não conclui a operação.

“Você joga a moeda de um lado, o ativo tokenizado do outro, e faz a troca instantânea entre os dois. Com o surgimento das stablecoins, esse mercado de ativos tokenizados vai crescer muito nos próximos anos”, disse Viriato.

Tokenização pode levar ações e títulos ao mercado 24/7

Viriato explicou que os tokens poderão representar ações, debêntures, Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI), Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e Letras de Crédito do Agronegócio (LCA).

Além de digitalizar os registros, a tecnologia permite fracionar investimentos que atualmente exigem aportes elevados. Um ativo com aplicação mínima de R$ 50 mil ou R$ 100 mil, por exemplo, poderia ganhar unidades menores e alcançar uma base mais ampla de investidores.

No exterior, segundo Viriato, os fundos de mercado monetário tokenizados lideram esse movimento. Gestoras como BlackRock e Franklin Templeton já oferecem produtos desse tipo, que acumulam aproximadamente US$ 10 bilhões e podem funcionar como garantia em empréstimos ou operações financeiras.

O executivo também citou a tokenização de ações oferecida pela Robinhood. Nesse modelo, o investidor pode negociar representações digitais dos papéis e utilizar os tokens como garantia para obter alavancagem dentro da plataforma.

“Começou pelos fundos e está migrando para o mercado de ações, mas a gente acredita que isso vai chegar a tudo: títulos públicos, títulos privados, outros fundos de investimento e ETFs. A gente está só no começo dessa transformação”, afirmou Viriato.

No Brasil, Viriato avaliou que a tecnologia já passou pela etapa de validação. Ele citou projetos desenvolvidos durante o piloto do Drex, incluindo a tokenização de Cédulas de Produto Rural (CPR) e de contratos de câmbio em trabalhos conduzidos pela Parfin com a XP.

“A tecnologia já existe, já está validada e já tem escala para ser usada”, declarou. Para o executivo, o avanço da regulamentação e a entrada de instituições tradicionais poderão levar os casos testados nos últimos anos ao ambiente de produção.

A próxima etapa dependerá também da criação de depositárias tokenizadas. Viriato explicou que uma debênture tokenizada ainda pode funcionar como uma representação digital de um título registrado na infraestrutura tradicional. No futuro, porém, o mercado poderá emitir o próprio título diretamente em blockchain.

“Você poderá emitir em blockchain, nativamente, uma debênture, sem precisar daquele arcabouço todo por trás. Aí você destrava o mercado de uma vez por todas”, disse.

Para o investidor, essa mudança poderá permitir liquidação instantânea, fracionamento, transferências entre instituições e uso mais simples dos ativos como garantia. A emissão nativa em blockchain também poderá reduzir custos e aumentar a eficiência operacional.

Paiva relacionou esse movimento à demanda crescente por investimentos disponíveis continuamente. O executivo citou o Tesouro Reserva, desenvolvido pela B3 em parceria com o Tesouro Nacional, como exemplo da procura por produtos com operação 24 horas por dia.

Segundo Paiva, o título se aproximou de R$ 5 bilhões em captação nos primeiros meses, com aproximadamente 30% das operações realizadas fora do horário comercial. A tokenização poderá estender essa experiência a outros produtos distribuídos por bancos e corretoras.

“As pessoas querem operar fora do horário normal de negociação. A tokenização abre a possibilidade para que grandes bancos e corretoras consigam oferecer mais produtos e mais funcionalidades”, afirmou.

Tokenização 'não vai existir' em 5 anos

Marcos Horie, head de Produtos Digitais da XP, avaliou que a adoção alcançará seu ponto de maturidade quando a tecnologia funcionar sem exigir conhecimento técnico do investidor. Ele comparou esse processo à internet, cujos protocolos permanecem invisíveis durante o uso cotidiano.

Paiva apresentou uma avaliação semelhante. Para o executivo, dentro de cinco anos, o mercado poderá deixar de tratar a tokenização como uma categoria separada porque a tecnologia passará a integrar naturalmente a relação das pessoas com investimentos e ativos digitais.

“Daqui a cinco anos, talvez a gente nem esteja mais falando de infraestrutura, porque ela já será um dado dessa nova forma com que as pessoas vão interagir com ativos e valores financeiros”, afirmou.
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