O Banco Central Europeu (BCE) traçou um caminho cauteloso para a tokenização dos mercados de capitais da Europa, afirmando que a tecnologia pode gerar ganhos de eficiência apenas se permanecer ancorada em dinheiro de banco central, as infraestruturas permanecerem interoperáveis e a regulamentação for “robusta e favorável.”
Em seu mais recente Boletim Macroprudencial publicado na segunda-feira, o BCE afirmou que a tecnologia de registro distribuído (DLT) pode ajudar a aprofundar a união de poupança e investimentos da União Europeia, mas alertou que os benefícios dependerão de uma infraestrutura interoperável e de formuladores de políticas acompanhando os novos riscos.
A posição do banco central destaca um esforço para modernizar a infraestrutura de mercado no bloco sem afrouxar o controle sobre a liquidação ou a estabilidade financeira.
O BCE afirmou que a tokenização e a DLT estão “passando do conceito para a implementação inicial em escala”, mas que os benefícios “só serão realizados com segurança se as políticas europeias acompanharem o ritmo”.
BCE mapeia condições para mercados de capitais tokenizados
Um dos artigos do Boletim detalha como ativos tokenizados podem reconfigurar a cadeia de emissão à liquidação, reduzindo fricções operacionais e potencialmente melhorando a liquidez do mercado secundário. Ao transferir títulos e dinheiro para registros compatíveis e automatizar ações corporativas, os autores argumentam que a tokenização pode simplificar processos que hoje dependem de múltiplos intermediários e sistemas legados.

A análise ressalta, no entanto, que os ganhos de eficiência dependem de evitar uma fragmentação de plataformas incompatíveis e de garantir que o dinheiro de banco central, e não apenas o dinheiro de bancos comerciais ou tokens emitidos de forma privada, possa ser usado para liquidação em mercados tokenizados.
Outro trecho aprofunda o mercado emergente de títulos tokenizados, identificando evidências iniciais de que eles já podem reduzir custos de captação e estreitar spreads de compra e venda em comparação com formatos tradicionais.
Os autores atribuem isso, em parte, a ganhos operacionais e, em parte, a maior transparência e programabilidade na liquidação e na gestão de colateral. Ainda assim, tratam esses benefícios como preliminares e condicionais, alertando que riscos tecnológicos, legais e de liquidez permanecem e que formuladores de políticas precisarão monitorar se as vantagens se mantêm à medida que a tokenização se expande além de operações emblemáticas e emissores selecionados.
MMFs tokenizados e stablecoins em euro sob análise
O Boletim também analisa de forma crítica fundos de mercado monetário tokenizados e stablecoins denominadas em euro, tratando-os como experimentos paralelos em instrumentos de caixa on-chain.
Um dos artigos destaca que fundos de mercado monetário tokenizados (MMFs) replicam amplamente riscos de liquidez e de corrida já conhecidos, mas adicionam novas vulnerabilidades operacionais, levantando dúvidas sobre como se comportariam em cenários de estresse ao lado das stablecoins.

Outro artigo argumenta que stablecoins em euro em conformidade com o Regulamento de Mercados em Criptoativos (MiCA) podem remodelar a demanda por títulos soberanos e atuar tanto como um amortecedor de liquidez em mercados turbulentos quanto como um novo canal de contágio bancário, dependendo de como os emissores atendam aos requisitos de depósitos e reservas.
Ao longo dos cinco textos do Boletim, a posição do BCE é clara: a tokenização pode apoiar sua visão de um mercado de capitais integrado, mas apenas se políticas, regras prudenciais e infraestrutura de banco central evoluírem de forma sincronizada.
O Cointelegraph entrou em contato com o BCE para comentários, mas não havia recebido resposta até a publicação.

