
Binance estuda oferecer stablecoin em real e valores mobiliários no Brasil com aval da CVM
Maior exchange de criptomoedas do mundo quer avançar sobre produtos financeiros tradicionais, oferecer valores mobiliários e ampliar disputa com corretoras locais.

A Binance prepara uma ofensiva para ampliar sua presença no mercado financeiro brasileiro. A maior corretora de criptomoedas do mundo estuda oferecer uma stablecoin em reais com rendimento atrelado a títulos públicos brasileiros, além de avançar na oferta de valores mobiliários e outros ativos regulados no país mediante autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
A estratégia foi detalhada por Thiago Sarandy, diretor-geral da Binance no Brasil, durante um painel realizado no Tokennation. Segundo o executivo, a companhia estuda oferecer uma solução baseada em real brasileiro que permitirá aos usuários obter rendimento diário por meio da exposição a títulos públicos.
A iniciativa aproxima a exchange do modelo tradicional das corretoras de investimentos e pode aumentar a competição por clientes no segmento de renda fixa.
"Através da aquisição de investimento em títulos em real que vão pagar rendimento diário para esses usuários, vamos oferecer um produto muito conectado com o que falamos desde o início, que funciona todos os dias da semana, permitindo aplicação e saque em qualquer dia", afirmou Sarandy.

Binance quer oferecer valores mobiliário
O executivo indicou ainda que a empresa avalia mecanismos para que o produto gere rendimento inclusive durante finais de semana, uma característica inexistente na maior parte das aplicações tradicionais ligadas ao Tesouro Nacional e aos fundos de renda fixa.
Caso a iniciativa avance, a Binance passará a disputar espaço não apenas com exchanges de criptomoedas, mas também com corretoras de investimentos e plataformas digitais que oferecem produtos de renda fixa atrelados à taxa básica de juros.
"Queremos manter os usuários com acesso aos produtos e serviços com a menor fricção possível. Temos contado com reguladores e autoridades e também queremos aprofundar esse diálogo com a CVM para oferecer valores mobiliários no Brasil", declarou.
Além disso, a exchange revelou que pretende usar a corretora Sim;paul, adquirida pela empresa com aval do Banco Central do Brasil para oferecer Valores Mobiliários aos usuários, como ações. Nesta segunda, 01, inclusive a empresa anunciou que vai oferecer ações tokenizadas para os usuários globais.
"Queremos usar a Sim;paul para diversas ações, entre elas o oferececimento de produtos ligados a valores mobiliários", afirmou
Apesar de elogiar os avanços regulatórios, Sarandy acredita que o aumento das exigências impostas pelo Banco Central deverá acelerar um processo de consolidação entre as exchanges que operam no país.
Segundo ele, o fortalecimento dos requisitos de governança, compliance, capital e controles internos tende a elevar os custos operacionais das empresas menores, favorecendo plataformas com maior escala e estrutura financeira.
"Definitivamente a concentração vai acontecer. Ela é inevitável e vem da necessidade de regulação. O Banco Central naturalmente elevou a régua, como era esperado, mas essa subida de régua vai restringir alguns modelos de negócio", afirmou.
Na avaliação do executivo, o novo ambiente regulatório pode aumentar os custos de operação para participantes menores, que eventualmente precisarão repassar parte dessas despesas aos clientes por meio de tarifas mais elevadas.
Margem e transferências internacionais
Além dos planos para lançar uma stablecoin em reais com rendimento e ampliar sua oferta de produtos regulados, a Binance também demonstrou preocupação com alguns pontos da regulamentação que está sendo implementada pelo Banco Central para o mercado de criptoativos no Brasil.
Segundo Thiago Sarandy, as regras propostas para operações de margem e transferências internacionais podem limitar a competitividade das empresas do setor e reduzir a oferta de produtos para os investidores brasileiros. Na avaliação do executivo, parte das exigências não leva em consideração as características próprias do mercado de criptomoedas, que opera de forma ininterrupta, 24 horas por dia e sete dias por semana.
Sarandy destacou que o risco de uma operação alavancada em cripto difere do modelo tradicional encontrado em corretoras de valores. Enquanto os mercados convencionais fecham durante noites, finais de semana e feriados, permitindo que clientes acumulem prejuízos superiores às garantias depositadas, as plataformas de ativos digitais conseguem liquidar automaticamente posições em tempo real. Segundo ele, esse mecanismo reduz significativamente o risco de inadimplência e deveria ser considerado na definição dos limites regulatórios.
O executivo também criticou o teto de US$ 100 mil previsto para determinadas transferências internacionais realizadas por empresas do setor. Para ele, o valor pode ser suficiente para investidores de varejo, mas não atende às necessidades de clientes institucionais, que frequentemente movimentam quantias muito superiores entre diferentes jurisdições.
Na visão da Binance, as novas exigências tendem a acelerar a concentração do mercado brasileiro de criptoativos. Empresas maiores e com maior capacidade financeira conseguirão absorver os custos adicionais de compliance, governança e capital regulatório, enquanto participantes menores poderão enfrentar dificuldades para manter suas operações competitivas.
Sarandy também chamou atenção para as restrições envolvendo operações de margem. Segundo ele, apenas instituições que possuam estruturas específicas autorizadas poderão oferecer esse tipo de serviço, enquanto prestadoras de serviços de ativos virtuais (PSAVs) ficarão impedidas de disponibilizar o produto. Para a Binance, a medida cria uma assimetria regulatória justamente em um segmento no qual as exchanges acumularam anos de experiência na gestão automatizada de riscos.
Apesar das críticas, o executivo afirmou que a empresa mantém diálogo constante com o Banco Central e com a CVM e considera a regulamentação um passo importante para o amadurecimento do mercado brasileiro. Segundo ele, o desafio agora será encontrar um equilíbrio entre proteção ao investidor, inovação e competitividade para evitar que o país fique atrás de outros mercados globais na oferta de produtos financeiros baseados em blockchain.
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