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Escrito por Cassio GussonRedatorRevisado por Lucas CaramEditor

A B3 nunca mais vai fechar? Tokenização quer transformar a TradFi em um mercado 24/7

Últimas NotíciasPublicado10 de ago. de 2026

Painel no Money Legos Rio reuniu representantes de BitGo, Pods, Zeom, Dynamic, Ondo e Etherfuse para discutir por que a tokenização só ganha relevância quando reduz barreiras e cria serviços que a infraestrutura financeira tradicional ainda não consegue oferecer

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A aproximação entre as finanças tradicionais e o mercado on-chain está deixando de ser uma discussão sobre colocar ativos conhecidos em blockchain para se tornar um debate sobre acesso, liquidez e infraestrutura. Essa foi a principal mensagem do painel The Convergence of Onchain Finance and TradFi, realizado nesta segunda-feira (10) durante o Money Legos Rio, evento paralelo da semana Blockchain.RIO.

Com representantes de BitGo, Pods, Zeom, Dynamic, Ondo e Etherfuse, a conversa percorreu os principais pontos de contato - e de tensão - entre os dois sistemas. A avaliação geral foi que a tokenização não pode se limitar a criar uma versão digital de um produto financeiro já existente. Seu valor aparece quando os novos trilhos ampliam a distribuição, permitem programar o uso dos ativos e mantêm operações disponíveis além do horário bancário.

Um dos pontos centrais do painel foi a necessidade de ampliar o significado de “acesso”. A possibilidade de comprar uma ação, um título ou outro ativo é apenas a primeira camada. Também entram nessa conta a capacidade de custodiar o ativo, utilizá-lo para gerar rendimento ou como garantia de empréstimos e permitir que desenvolvedores construam novas aplicações sobre ele sem depender de integrações fechadas.

Essa diferença se torna mais evidente fora dos grandes centros financeiros. Enquanto um investidor nos Estados Unidos pode comprar um ETF do S&P 500 com relativa facilidade, o acesso a produtos estrangeiros tende a ser mais caro ou limitado para usuários em outros mercados. Na América Latina, o interesse por stablecoins e ativos tokenizados também é impulsionado pela busca por exposição ao dólar e por alternativas ao sistema financeiro local.

Na visão apresentada no painel, a mesma infraestrutura pode resolver problemas diferentes nos Estados Unidos, no Brasil, no México ou na Venezuela. Em alguns mercados, a prioridade será reduzir custos; em outros, preservar valor, alcançar produtos globais ou movimentar recursos quando os sistemas tradicionais estão fechados.

Os participantes também argumentaram que a tecnologia só alcançará um público maior quando deixar de exigir que o usuário compreenda a complexidade por trás do produto. Para o cliente final, o que importa é a qualidade do serviço, não a blockchain, a carteira ou o contrato inteligente usado nos bastidores. A experiência precisa se aproximar da simplicidade de produtos digitais convencionais.

Liquidez ainda separa a promessa da escala

Se o acesso é a porta de entrada, a liquidez continua sendo um dos maiores obstáculos para os ativos tokenizados. O painel destacou que versões on-chain de ações existem há anos, mas muitas delas não conseguiram atender operações maiores por causa do slippage e da fragmentação do capital entre diferentes pools.

Como exemplo de uma arquitetura alternativa, foi apresentado o modelo de emissão e resgate instantâneos usado pela Ondo. Nele, o usuário recebe uma cotação e adquire o ativo tokenizado, enquanto a infraestrutura mantém recursos em uma corretora para executar a compra do ativo correspondente no mercado tradicional. Depois, é feito o rebalanceamento entre o dinheiro mantido na corretora e as stablecoins depositadas no contrato inteligente.

Segundo o relato feito durante o painel, esse desenho já permitiu processar operações de milhões de dólares com impacto reduzido no preço. Em um dos casos mencionados, um usuário teria movimentado cerca de US$ 30 milhões em USDC em aproximadamente uma hora e desfeito a posição no dia seguinte com pouca perda relacionada à execução. O usuário não foi identificado. O exemplo foi apresentado como sinal de que a demanda já existia, mas nem sempre encontrava infraestrutura capaz de absorver grandes volumes.

Há, porém, uma limitação que a blockchain sozinha ainda não resolve: o token pode circular a qualquer hora, mas o mercado no qual o ativo de referência é negociado continua operando em horários definidos. Ordens grandes feitas durante a madrugada ou no fim de semana ainda podem depender de liquidez secundária e intermediários, o que eleva os custos. A proposta de valor tende a aumentar à medida que mais partes do mercado subjacente também se aproximarem de uma operação contínua.

Para empresas, a disponibilidade 24/7 pode ter impacto operacional imediato. O painel citou o caso de companhias que precisam garantir um pagamento a fornecedores na Ásia antes da reabertura dos mercados em seu país de origem. Nessa situação, converter recursos e transferi-los por blockchain deixa de ser apenas uma conveniência e passa a funcionar como ferramenta de tesouraria.

Custódia e direito sobre os ativos

A convergência com as finanças tradicionais também aumenta a cobrança por mecanismos de proteção. Custodiar recursos próprios é diferente de manter ativos pertencentes a clientes, e o crescimento do mercado institucional torna mais importante responder a uma pergunta básica: se um emissor, uma plataforma ou um custodiante deixar de operar, como o investidor recupera o que é seu?

A discussão apontou para uma combinação de segregação patrimonial, estruturas jurídicas específicas para cada produto e custodiantes adequados às regras de cada jurisdição. O registro do ativo, a identidade de seu titular e os direitos do investidor em um cenário de insolvência não podem depender apenas do funcionamento técnico de um token.

Em alguns casos, estruturas mais próximas da autocustódia podem reduzir a dependência de um intermediário único. Em outros, investidores institucionais precisam de custodiantes regulados e processos formais de conformidade. Não há um desenho universal: a solução depende do ativo, do cliente, da legislação local e da forma de uso.

O painel também diferenciou regulação de confiança. Regras determinam quais entidades podem prestar custódia e como os ativos devem ser mantidos, mas a adoção depende da percepção de que resgates e obrigações serão honrados em momentos de estresse. O USDT foi citado como exemplo de um produto centralizado cuja permanência no mercado está ligada à confiança de que continuará sendo aceito e convertido, sobretudo em países onde as alternativas locais podem ser mais frágeis.

Educação, regulação e falta de talentos

Na etapa final, os participantes apontaram três barreiras para a expansão da infraestrutura on-chain: educação, profissionais qualificados e fragmentação regulatória.

A educação é necessária porque muitos usuários ainda não sabem que determinados produtos existem ou como acessá-los. Ao mesmo tempo, a experiência das stablecoins mostra que uma demanda concreta pode impulsionar a adoção antes que toda a regulamentação esteja definida. Isso não elimina a necessidade de regras, mas sugere que a utilidade pode chegar antes de um consenso regulatório completo.

A falta de engenheiros especializados também foi tratada como um gargalo. Empresas do setor competem por profissionais com áreas como inteligência artificial, ao mesmo tempo que precisam formar equipes capazes de construir uma infraestrutura financeira ainda recente e com exigências próprias de segurança.

No campo regulatório, normas de identificação, Travel Rule, distribuição internacional e restrições locais mantêm o mercado fragmentado. O desafio para as empresas é operar dentro das estruturas existentes sem perder os benefícios de programabilidade, liquidação contínua e integração que justificam o uso da blockchain.

O painel terminou com a percepção de que o setor ainda está em uma fase de transição. Como ocorre com outras tecnologias, os primeiros produtos tendem a reproduzir o que já existe antes de explorar modelos completamente novos.

A próxima etapa pode incluir mercados mais contínuos, ativos usados de forma programável como garantia e até agentes de inteligência artificial operando sobre esses trilhos. A direção apontada é clara, embora os formatos finais ainda não sejam: a blockchain começa a ser tratada menos como um produto à parte e mais como uma camada de infraestrutura para o próprio sistema financeiro.

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