
Stablecoins, tokenização e fim da altseason: COO da Bitget Wallet aponta futuro do mercado cripto
Alvin Kan afirma que institucionalização do Bitcoin mudou a rotação de capital, vê stablecoins como principal infraestrutura para pagamentos e diz que mercado de ativos tokenizados ainda precisa amadurecer

O mercado de criptomoedas entrou em uma nova fase na qual a tradicional “altseason” perdeu espaço para rotações mais curtas e seletivas, enquanto stablecoins, tokenização de ativos tradicionais e carteiras autocustodiais ganham protagonismo na evolução da infraestrutura financeira baseada em blockchain.
Essa é a avaliação de Alvin Kan, diretor de operações (COO) da Bitget Wallet, em entrevista ao Cointelegraph Brasil, durante o primeiro dia do Blockchain Rio. Segundo o executivo, a institucionalização do Bitcoin (BTC), a proliferação de novos tokens e a fragmentação da liquidez mudaram uma dinâmica que marcou os ciclos anteriores do mercado cripto.
“Eu abandonaria a antiga definição de ‘altseason’, mas não a ideia de que as altcoins ainda possam superar o desempenho do mercado”, afirmou Kan.
Para o executivo, o modelo no qual o Bitcoin subia primeiro, seguido pelo Ether (ETH) e posteriormente por praticamente todo o mercado de altcoins tornou-se mais difícil de reproduzir. Entre os fatores estão a concentração do capital institucional em produtos ligados ao BTC e o aumento significativo da quantidade de tokens disputando liquidez.
“O padrão que está substituindo a antiga altseason é a rotação, não uma temporada”, declarou.
Kan avalia que o apetite especulativo não desapareceu, mas se tornou mais direcionado. Em vez de uma valorização generalizada das altcoins, o mercado tende a registrar movimentos concentrados em determinados ativos e narrativas, como tokenização, inteligência artificial, DePIN, stablecoins e memecoins.
Stablecoins devem ocupar o centro dos pagamentos
Outra transformação destacada pelo COO da Bitget Wallet ocorre no mercado de pagamentos. Para Kan, apesar de Bitcoin e outros criptoativos continuarem desempenhando algumas funções nesse segmento, as stablecoins caminham para assumir a posição de principal infraestrutura de pagamentos baseada em blockchain.
“Em casos de uso práticos de pagamentos, as stablecoins estão se tornando cada vez mais o principal destaque”, disse.
A estabilidade relativa de preço e a rapidez na liquidação tornam esses ativos especialmente adequados, segundo o executivo, para pagamentos internacionais entre empresas, remessas, folha de pagamento, comércio eletrônico e liquidação para comerciantes.
O Bitcoin ainda pode ocupar determinados nichos, especialmente por meio da Lightning Network e em economias com inflação elevada ou mercados fortemente ligados ao ecossistema cripto. Para a maioria dos pagamentos comerciais, porém, Kan acredita que stablecoins oferecem uma experiência mais adequada por reduzirem o risco de volatilidade para consumidores e empresas.
A tendência, segundo ele, é que essa infraestrutura se torne progressivamente invisível.
“Os preços podem continuar sendo exibidos em moedas fiduciárias locais. Os consumidores podem continuar pensando em reais, dólares ou euros. Os comerciantes podem continuar recebendo na moeda doméstica de sua preferência. Ainda assim, stablecoins poderiam cuidar, nos bastidores, da liquidação, conversão cambial, movimentação de tesouraria ou transferências internacionais.”
Essa mudança também redefine o papel das próprias carteiras cripto. Kan afirma que ferramentas originalmente desenvolvidas para armazenar ativos estão evoluindo para contas financeiras autocustodiais capazes de integrar negociação, investimentos, rendimentos, derivativos, ativos tokenizados e pagamentos.
A próxima etapa, em sua avaliação, será marcada pela abstração da infraestrutura: usuários não precisarão necessariamente saber qual blockchain, bridge ou fonte de liquidez executa determinada operação.
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Tokenização já provou demanda, mas infraestrutura ainda está sendo construída
Kan também vê a migração de ativos tradicionais para blockchains como uma das principais tendências do mercado, principalmente pela possibilidade de negociação e liquidação praticamente contínuas.
Segundo ele, períodos de estresse macroeconômico ou geopolítico demonstram uma das vantagens desse modelo, já que mercados on-chain podem continuar operando enquanto bolsas tradicionais permanecem fechadas.
O executivo, porém, alerta para a necessidade de diferenciar exposição financeira on-chain da propriedade jurídica efetiva de um ativo.
“Um contrato perpétuo sobre commodities, por exemplo, pode oferecer exposição contínua e descoberta de preços, mas não deve ser confundido com um direito juridicamente executável sobre a commodity subjacente.”
Kan destaca que a tokenização já avançou especialmente em títulos do Tesouro, fundos de mercado monetário, crédito privado e ações. O desafio agora está na estrutura de mercado necessária para sustentar esses produtos em escala institucional.
Liquidez limitada em mercados secundários, direitos de resgate, tratamento em processos de falência, funcionamento dos oráculos quando mercados tradicionais estão fechados e diferenças regulatórias entre jurisdições continuam entre os principais obstáculos.
“A tokenização melhora o acesso, a programabilidade e a eficiência da liquidação. Ela não cria automaticamente propriedade jurídica nem liquidez profunda”, afirmou.
Para Kan, portanto, a próxima fase do mercado cripto deverá combinar uma mudança na maneira como o capital circula entre os ativos com uma integração cada vez maior entre blockchain e sistema financeiro tradicional.
Se a antiga altseason perde força, stablecoins, ativos tokenizados e carteiras transformadas em plataformas financeiras podem ocupar parte desse espaço como motores da próxima etapa de adoção.
“A demanda por acesso on-chain já foi comprovada. A estrutura de mercado necessária para sustentar ativos tokenizados em escala institucional ainda está sendo construída”, concluiu.
Confira a entrevista completa
Bull Market do Bitcoin
Cointelegraph Brasil: O último mercado de alta levou o preço do BTC a uma nova máxima histórica, mas, ao contrário dos ciclos anteriores, esse movimento não se refletiu nas altcoins, e não houve uma “altseason” clássica. Como você enxerga esse cenário? Acredita que a institucionalização do BTC efetivamente “matou” a dinâmica que definia o mercado cripto de varejo ou os investidores simplesmente se tornaram mais seletivos em relação aos projetos que apoiam?
Alvin Kan: Os dois fatores importam, mas eu não diria que a institucionalização do Bitcoin matou o mercado cripto de varejo.
Os ETFs de Bitcoin à vista criaram um canal regulado de entrada de capital que é, em grande parte, específico para o Bitcoin. O capital institucional que entra por meio desses produtos não migra naturalmente para Ether e tokens menores da mesma forma que a liquidez liderada pelo varejo costumava fazer em ciclos anteriores.
Ao mesmo tempo, o universo de ativos disponíveis para investimento se expandiu drasticamente. Milhares de tokens agora competem por um conjunto limitado de liquidez e atenção, enquanto a emissão contínua de tokens e os desbloqueios criam oferta adicional. Por isso, os investidores precisam se tornar mais seletivos em relação a liquidez, utilidade, modelos de receita, economia dos tokens e capacidade de execução.
O que enfraqueceu não foi o apetite especulativo, mas a especulação indiscriminada. O capital ainda migra para ativos de maior risco, mas essas rotações estão se tornando mais restritas, mais curtas e mais concentradas em narrativas ou ativos específicos.
O mercado já não segue uma única sequência previsível na qual o Bitcoin sobe primeiro, o Ether vem em seguida e praticamente todas as altcoins acabam se beneficiando. A institucionalização mudou o caminho da rotação de capital, enquanto a saturação do mercado elevou o padrão que os projetos de altcoins precisam atingir.
Altseason
Cointelegraph Brasil: Partindo da pergunta anterior, você acha que ainda podemos falar em uma “altseason” no próximo mercado de alta ou esse conceito, da forma como o conhecíamos, efetivamente “morreu”?
Alvin Kan: Eu abandonaria a antiga definição de “altseason”, mas não a ideia de que as altcoins ainda possam superar o desempenho do mercado.
O modelo tradicional pressupunha que, depois de uma forte valorização do Bitcoin, a liquidez migraria gradualmente para o Ether e, depois, se espalharia por praticamente todo o mercado de altcoins. Esse modelo fazia mais sentido quando havia menos tokens, menor segmentação institucional e um conjunto mais concentrado de liquidez especulativa.
Hoje, a dominância do Bitcoin continua elevada, o capital dos ETFs permanece, em grande parte, restrito a produtos específicos de Bitcoin, e novas emissões, desbloqueios de tokens e liquidez fragmentada tornam muito mais difícil sustentar uma alta ampla de todo o mercado.
O que estamos vendo, em vez disso, são rotações episódicas para setores, narrativas e um número relativamente pequeno de ativos líquidos específicos. Essas rotações podem envolver áreas como ativos tokenizados, infraestrutura de IA, DePIN, ecossistemas de stablecoins ou memecoins, mas normalmente são mais curtas e seletivas do que as grandes altas generalizadas das altcoins observadas em ciclos anteriores.
O padrão que está substituindo a antiga altseason é a rotação, não uma temporada.
Para as carteiras, isso muda o papel que desempenhamos. Já não basta simplesmente oferecer aos usuários acesso a um grande número de ativos. As carteiras precisam, cada vez mais, ajudar os usuários a descobrir oportunidades emergentes, avaliar riscos e transitar entre ativos e redes sem complexidade desnecessária.
Carteiras são exchanges?
Cointelegraph Brasil: Carteiras como a Bitget Wallet evoluíram de simples ferramentas de armazenamento de criptomoedas para verdadeiros hubs financeiros, com uma integração cada vez mais profunda com CeFi. Como você vê essa transformação e qual acredita que será a tendência daqui para frente?
Alvin Kan: Antigamente, uma carteira era avaliada principalmente com base em custódia e segurança. Hoje, os usuários esperam cada vez mais que ela seja o lugar onde negociam, obtêm rendimentos, administram um portfólio multichain, acessam ativos globais e fazem pagamentos sem precisar alternar entre vários aplicativos diferentes.
A mudança estratégica está em passar de uma carteira que armazena criptomoedas para uma conta financeira autocustodial que permite aos usuários negociar, poupar, investir e realizar pagamentos globalmente.
Essa transformação não é impulsionada apenas pela conveniência. Os usuários já não querem escolher entre autocustódia e as funcionalidades de uma plataforma financeira moderna. Eles esperam, cada vez mais, ter as duas coisas: controle sobre seus ativos e acesso a serviços financeiros sofisticados.
Vemos isso diretamente no desenvolvimento da Bitget Wallet. O que começou principalmente como uma ferramenta para administrar ativos em múltiplas blockchains evoluiu para uma interface financeira mais ampla, que integra liquidez para negociação, produtos de rendimento, derivativos, ativos tokenizados e serviços de pagamento, enquanto os usuários continuam autorizando e controlando suas próprias transações.
A próxima fase será definida pela abstração. Taxas de gas, rotas de bridges, seleção de redes e a complexidade da liquidação devem desaparecer cada vez mais da experiência do usuário. Os usuários devem poder escolher a operação financeira que desejam realizar sem antes precisar entender qual blockchain, bridge ou plataforma de liquidez está por trás dela.
As carteiras continuarão absorvendo funções que antes exigiam uma exchange, corretora, aplicativo de pagamentos ou plataforma de investimentos separada. Os produtos mais fortes serão aqueles que combinarem amplo acesso financeiro com autocustódia, segurança e uma experiência simples para o usuário.
Reguladores mirando carteiras cripto
Cointelegraph Brasil: Com essa integração e a migração de serviços para dentro das carteiras, elas se parecem cada vez mais com exchanges — chegando inclusive a oferecer derivativos. Você acha que os reguladores estão atentos a essa mudança e acabarão exigindo que as carteiras tenham as mesmas licenças exigidas das exchanges — como a MiCA na Europa ou, mais recentemente, a licença PDSAV no Brasil?
Alvin Kan: Os reguladores claramente estão atentos, mas a linha divisória relevante é mais precisa do que simplesmente “carteira versus exchange”. A regulamentação depende cada vez mais da função que está sendo desempenhada, de quem controla os ativos do usuário e de qual entidade está efetivamente prestando o serviço financeiro.
De acordo com a MiCA, fornecedores de carteiras de hardware ou software puramente não custodiais geralmente recebem um tratamento diferente dos prestadores regulados de serviços de criptoativos. No entanto, serviços de custódia, exchange, execução de ordens, transferência e outros serviços financeiros oferecidos por meio de uma carteira ou integrados a ela podem se enquadrar no regime de CASP.
A estrutura brasileira, de forma semelhante, concentra-se na prestação de serviços de ativos virtuais, incluindo intermediação, custódia e corretagem. O termo brasileiro relevante é SPSAV, e não PDSAV. Uma interface de software puramente autocustodial apresenta um perfil regulatório diferente de uma exchange centralizada, mas serviços integrados a essa interface ainda podem acionar obrigações de licenciamento, prevenção à lavagem de dinheiro, reporte ou proteção ao consumidor.
Portanto, eu não esperaria que toda interface de carteira precisasse exatamente da mesma licença de uma exchange. No entanto, determinados serviços oferecidos por meio de uma carteira podem precisar de licenciamento direto ou ser disponibilizados por meio de parceiros devidamente regulados.
A direção regulatória mais ampla é clara: as autoridades olharão cada vez mais para além do rótulo do produto. Elas examinarão a atividade realizada, o grau de controle sobre os recursos dos usuários, a relação contratual com o usuário e a entidade responsável por prestar o serviço.
Stablecoins
Cointelegraph Brasil: As stablecoins evoluíram para além de simples “moedas estáveis” e passaram a fazer parte da política de expansão monetária dos Estados Unidos; consequentemente, diversas empresas tradicionais americanas estão buscando emitir suas próprias stablecoins. No entanto, bancos centrais alertam que a “dolarização” digital por meio de stablecoins pode prejudicar a liquidez bancária e impactar todo o mercado de crédito. Como você vê esse desenvolvimento?
Alvin Kan: A preocupação é legítima e não deve ser descartada.
O GENIUS Act estabelece principalmente uma estrutura federal para stablecoins de pagamento. Separadamente, formuladores de políticas dos Estados Unidos vêm apresentando cada vez mais as stablecoins reguladas e lastreadas em dólar como uma forma de ampliar o alcance internacional do dólar e criar demanda adicional por ativos de reserva denominados em dólar, incluindo títulos do Tesouro dos Estados Unidos de curto prazo.
Para pessoas físicas e empresas em mercados com inflação elevada, controles de capital ou restrições cambiais, as stablecoins tornam o acesso a dólares digitais mais rápido e fácil. Isso oferece uma utilidade econômica relevante, mas também pode aumentar a pressão sobre os depósitos bancários locais e reduzir a eficácia da política monetária doméstica.
O efeito sobre a liquidez bancária, no entanto, não é uniforme. Se os depósitos migrarem para stablecoins lastreadas principalmente por títulos públicos de curto prazo, o financiamento pode sair dos bancos comerciais e migrar para os mercados de capitais. Se as reservas forem mantidas em bancos regulados, depósitos tokenizados ou outras estruturas integradas ao sistema bancário, parte dessa liquidez pode permanecer dentro do sistema bancário.
As stablecoins também não inventaram a dolarização. Elas aceleraram e ampliaram o acesso a um mecanismo que já existe em muitas economias há décadas.
Portanto, a questão de política pública não é simplesmente se os governos devem resistir às stablecoins. A questão é como podem administrar os riscos associados enquanto desenvolvem infraestruturas domésticas de pagamentos competitivas, stablecoins reguladas denominadas em moeda local, depósitos tokenizados ou moedas digitais de bancos centrais.
Padrões claros para reservas, resgate, transparência, resiliência operacional e proteção ao consumidor serão essenciais. O resultado de longo prazo dependerá de as stablecoins se desenvolverem principalmente como um sistema paralelo em dólar fora dos bancos ou se forem integradas às redes reguladas de bancos e pagamentos.
Empréstimos cripto
Cointelegraph Brasil: Em relação ao crédito, o mercado cripto ainda não conseguiu desenvolver soluções realmente eficazes nesse segmento; atualmente, todos os produtos de empréstimo — e até mesmo cartões lastreados em criptomoedas — dependem de garantias. Quando você acredita que o mercado cripto ampliará sua integração com as finanças tradicionais para oferecer produtos sem garantia?
Alvin Kan: Essa transição provavelmente acontecerá mais lentamente do que o marketing do setor às vezes sugere.
Os empréstimos on-chain continuam predominantemente garantidos por colateral porque as blockchains conseguem verificar os ativos que um tomador já possui com muito mais facilidade do que conseguem verificar sua renda futura, estabilidade no emprego ou sua disposição e capacidade de pagar uma dívida.
Também é importante distinguir diferentes produtos. Muitos produtos de crédito em cripto são garantidos por colateral, mas um grande número de cartões cripto nem sequer constitui um produto de crédito. Eles simplesmente gastam saldos pré-financiados ou convertem criptomoedas em stablecoins ou moeda fiduciária no momento do pagamento.
Algumas plataformas institucionais de crédito já combinam KYC, análise de crédito off-chain e contratos juridicamente executáveis para oferecer crédito subcolateralizado ou sem garantia. Isso representa um avanço significativo, mas não é o mesmo que oferecer crédito ao consumidor sem garantia em larga escala.
Para que o crédito ao consumidor se desenvolva, o setor precisa de mais do que identidade on-chain e pontuações de crédito. São necessários dados confiáveis de renda e fluxo de caixa, análise de crédito que preserve a privacidade, direitos do credor juridicamente executáveis, processos de cobrança viáveis e padrões robustos de proteção ao consumidor.
Os primeiros produtos relevantes provavelmente serão formas limitadas de crédito integrado ou baseado em fluxo de caixa. Eles poderiam se basear em receitas de comerciantes, folha de pagamento, faturas, renda recorrente em carteiras ou atividade empresarial verificada.
Espero que produtos parcialmente garantidos e analisados com base em fluxo de caixa se expandam nos próximos três a cinco anos. O crédito pessoal amplamente disponível e sem garantia é possível, mas dificilmente se tornará um produto cripto convencional no curto prazo.
Tokens RWA
Cointelegraph Brasil: O mercado de tokenização de ativos tradicionais está migrando para um ambiente on-chain, permitindo negociações 24 horas por dia, sete dias por semana. Como você vê esse desenvolvimento e quais desafios acompanham essa expansão?
Alvin Kan: O valor dos mercados on-chain 24/7 já deixou de ser apenas teórico.
Durante períodos de estresse geopolítico ou macroeconômico, os mercados baseados em blockchain podem continuar funcionando enquanto as bolsas convencionais estão fechadas. Isso permite que os participantes expressem suas expectativas, façam hedge de riscos e descubram preços antes da reabertura dos mercados tradicionais.
No entanto, é importante distinguir entre a descoberta de preços on-chain 24/7 e a propriedade efetiva de um ativo do mundo real tokenizado. Um contrato perpétuo sobre commodities, por exemplo, pode oferecer exposição contínua e descoberta de preços, mas não deve ser confundido com um direito juridicamente executável sobre a commodity subjacente.
O mercado de RWAs tokenizados se expandiu significativamente, especialmente em títulos do Tesouro, fundos de mercado monetário, crédito privado e ações tokenizadas. Mas a negociação contínua só tem valor quando a liquidez, a formação de preços e os direitos legais associados ao token são igualmente robustos.
Os principais desafios agora envolvem questões de estrutura de mercado e exigibilidade jurídica. A liquidez continua concentrada, muitos mercados secundários apresentam pouca profundidade e os direitos de propriedade, resgate e falência variam substancialmente entre os produtos.
A formação de preços também pode se tornar difícil quando o mercado tradicional do ativo subjacente está fechado. Os preços dos oráculos ou os valores patrimoniais líquidos podem ser atualizados com menor frequência, enquanto os preços on-chain continuam se movimentando. Isso pode criar prêmios, descontos e risco de base.
No caso de ações tokenizadas, eventos societários, direitos dos acionistas, dividendos, feriados dos mercados e diferenças entre jurisdições acrescentam ainda mais complexidade.
A tokenização melhora o acesso, a programabilidade e a eficiência da liquidação. Ela não cria automaticamente propriedade jurídica nem liquidez profunda.
A demanda por acesso on-chain já foi comprovada. A estrutura de mercado necessária para sustentar ativos tokenizados em escala institucional ainda está sendo construída.
Mercados preditivos
Cointelegraph Brasil: Os mercados de previsão se tornaram um grande tema — especialmente em torno da Copa do Mundo —, mas também expuseram um lado duro envolvendo manipulação, falta de oráculos confiáveis e endividamento das famílias. Como você vê esse cenário e o que podemos esperar nos próximos anos?
Alvin Kan: Os mercados de previsão demonstraram valor significativo como ferramentas de descoberta de informações, mas também criam riscos relevantes de integridade e proteção ao consumidor.
A Copa do Mundo mostrou os dois lados desse mercado. A Força-Tarefa de Integridade da FIFA informou que não encontrou atividades suspeitas de apostas nem evidências de manipulação de partidas depois de monitorar todos os 104 jogos. Ao mesmo tempo, o Grupo de Copenhague colocou 15 partidas sob monitoramento reforçado e emitiu sete notificações relacionadas a padrões incomuns de apostas.
Essas notificações não constituíram prova de manipulação. No entanto, a diferença nos padrões de divulgação pública e nos limites utilizados para gerar alertas mostra por que o setor precisa de maior transparência sobre como atividades incomuns são identificadas, investigadas e divulgadas.
O desenho dos oráculos é apenas uma parte do desafio. Resultados binários claros podem ser relativamente fáceis de resolver, mas decisões disciplinares, eventos contestados, acontecimentos políticos e formulações ambíguas dos mercados ainda podem exigir interpretação humana. A governança da resolução, os mecanismos de recurso e a credibilidade das fontes de dados são, portanto, tão importantes quanto o próprio oráculo.
A preocupação com o endividamento das famílias é principalmente uma questão de design de produto e proteção ao consumidor. Quando mercados de previsão são apresentados como entretenimento sem fricção e combinados com alavancagem, crédito, notificações agressivas ou interfaces gamificadas, eles podem reproduzir muitos dos danos associados às apostas online.
Também devemos evitar tratar todos os mercados de previsão como se fossem o mesmo produto. Um mercado sobre a divulgação de um indicador de inflação, o resultado de uma eleição ou um evento corporativo não cria exatamente os mesmos riscos que um mercado de apostas esportivas durante uma partida ou um evento que os próprios participantes possam influenciar diretamente.
Os mercados de previsão continuarão crescendo, mas a próxima fase exigirá formulações mais claras para os mercados, padrões de resolução mais robustos, monitoramento de integridade, limites de posições, restrições à participação financiada por crédito e divulgações de risco mais eficazes.
A legitimidade do setor no longo prazo dependerá de sua capacidade de preservar seu valor informacional sem permitir que a manipulação ou comportamentos especulativos prejudiciais se tornem seu principal caso de uso.
Pagamentos com criptomoedas
Cointelegraph Brasil: Quando falamos em pagamentos com criptomoedas, estamos nos referindo principalmente às stablecoins ou BTC e altcoins também desempenham um papel significativo nesse cenário?
Alvin Kan: Em casos de uso práticos de pagamentos, as stablecoins estão se tornando cada vez mais o principal destaque.
Sua unidade de conta relativamente previsível e sua liquidação rápida as tornam particularmente adequadas para pagamentos B2B internacionais, remessas, folha de pagamento, liquidação para comerciantes e comércio digital.
O Bitcoin ainda possui casos de uso em pagamentos diretos, particularmente por meio da Lightning Network e em determinados mercados internacionais, de alta inflação ou nativos de criptomoedas. No entanto, as stablecoins são mais adequadas para a maioria dos pagamentos comerciais porque reduzem a volatilidade tanto para consumidores quanto para comerciantes.
Outros criptoativos geralmente desempenham um papel mais limitado na liquidação direta de pagamentos. Eles são mantidos com maior frequência como ativos de investimento e convertidos em stablecoins ou moeda fiduciária quando os usuários realizam uma compra.
Com o tempo, os usuários não deveriam precisar pensar em qual token ou blockchain está por trás de um pagamento. Um usuário pode optar por pagar com um saldo em Bitcoin, um saldo em stablecoins ou outro criptoativo, enquanto a carteira realiza, nos bastidores, a conversão, seleção de rede, roteamento e liquidação.
As stablecoins estão se tornando a principal infraestrutura de pagamentos. O Bitcoin e outros criptoativos podem se conectar a essa infraestrutura por meio de uma camada de conversão cada vez mais invisível.
Regulamentação e pagamentos em cripto
Cointelegraph Brasil: Diante das regulamentações que estão sendo implementadas atualmente em diversos países — e que muitas vezes impõem impostos sobre transações com criptoativos —, você acredita que há espaço para os pagamentos com criptomoedas crescerem?
Alvin Kan: Existe uma tensão real entre o tratamento tributário e a adoção de pagamentos, mas ela não é fatal para o crescimento do setor.
Em jurisdições nas quais gastar um ativo digital é tratado como um evento de alienação, até mesmo um pequeno pagamento cotidiano pode gerar um ganho ou uma perda de capital que precisa ser declarado. Exigir que os usuários calculem as consequências tributárias de cada café ou compra no varejo cria uma fricção desproporcional.
As stablecoins reduzem a volatilidade dos preços, mas não eliminam automaticamente a complexidade tributária. Em algumas jurisdições, trocar ou gastar uma stablecoin lastreada em dólar ainda pode constituir uma alienação ou operação cambial que precisa ser declarada, particularmente quando a moeda doméstica do usuário não é o dólar americano.
Ao mesmo tempo, regulamentações mais claras podem dar a bancos, redes de pagamentos, fintechs e comerciantes maior confiança para integrar infraestruturas de pagamento com criptomoedas.
Regulamentação e tributação, portanto, devem ser tratadas como questões separadas. Uma jurisdição pode criar uma estrutura clara de licenciamento e conformidade e, ao mesmo tempo, manter regras tributárias que tornam os gastos cotidianos inviáveis.
O crescimento provavelmente se concentrará primeiro nos casos de uso em que os benefícios econômicos superam claramente o ônus de conformidade. Entre eles estão pagamentos B2B internacionais, remessas, liquidação de tesouraria, folha de pagamento e comércio eletrônico internacional.
A adoção nos pontos de venda pelos consumidores provavelmente avançará mais lentamente até que o reporte tributário e o tratamento contábil se tornem mais simples, particularmente para transações de pequeno valor com stablecoins.
Até onde os pagamentos em cripto podem ir
Cointelegraph Brasil: Os pagamentos com criptomoedas continuam bastante desafiadores para o público em geral, que ainda prefere a segurança das moedas fiduciárias — em parte porque os preços dos produtos são denominados em moeda fiduciária. Você acha que as criptomoedas podem superar essa barreira e, um dia, representar algo próximo de 30% ou 40% dos pagamentos cotidianos?
Alvin Kan: Eu faria uma distinção entre aquilo que os consumidores enxergam e a infraestrutura que opera por trás de um pagamento.
É improvável que 30% ou 40% dos pagamentos cotidianos globais dos consumidores sejam visivelmente denominados e liquidados manualmente em criptomoedas em um futuro previsível.
Uma parcela significativa do atual volume de transações com stablecoins ainda reflete negociações, transferências entre exchanges, gerenciamento de liquidez e outras atividades financeiras, em vez de compras de bens e serviços cotidianos.
No entanto, stablecoins e infraestruturas baseadas em blockchain poderiam, no futuro, sustentar uma parcela muito maior dos pagamentos sem que os consumidores utilizem conscientemente “criptomoedas”.
Os preços podem continuar sendo exibidos em moedas fiduciárias locais. Os consumidores podem continuar pensando em reais, dólares ou euros. Os comerciantes podem continuar recebendo na moeda doméstica de sua preferência. Ainda assim, stablecoins poderiam cuidar, nos bastidores, da liquidação, conversão cambial, movimentação de tesouraria ou transferências internacionais.
Chegar a 30% ou 40% dos pagamentos globais dos consumidores em pontos de venda seria uma meta extremamente ambiciosa. Alcançar uma participação semelhante em determinados corredores de liquidação internacional, mercados de remessas ou segmentos de comércio digital é muito mais plausível.
A oportunidade mais realista é que a infraestrutura blockchain conquiste um papel duradouro no comércio internacional, liquidações B2B, remessas e comércio eletrônico, particularmente em mercados com sistemas de pagamento caros ou moedas instáveis.
A medida definitiva de sucesso não é se os consumidores começarão a pensar em criptomoedas. É se as infraestruturas blockchain se tornarão suficientemente confiáveis e invisíveis para que os consumidores não precisem mais pensar nelas.

