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Escrito por Cassio GussonRedatorRevisado por Lucas CaramEditor

Após 'travar' stablecoins, BC quer conectar Pix com outros paises e criar sistema para pagamentos internacionais

Últimas NotíciasPublicado10 de ago. de 2026

Novo relatório do Banco Central coloca conexões bilaterais e redes compartilhadas entre países na agenda do Pix, mas ainda não define parceiros, plataforma nem cronograma; documento também detalha Pix off-line e uma série de novas funcionalidades.

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Após publicar uma regra para travar stablecoins por até 24 horas nas exchanges, em determinadas operações destinadas ao exterior ou a carteiras autocustodiadas, o Banco Central do Brasil (BC) abriu uma nova frente para a expansão da infraestrutura financeira do país. Desta vez, o foco é a internacionalização do Pix, que poderá ser conectado a sistemas de pagamentos instantâneos de outras jurisdições.

No Relatório de Gestão do Pix 2023-2025, divulgado nesta segunda-feira, 10 de agosto, a autoridade monetária afirma que avalia dois caminhos para essa expansão: interligações bilaterais, construídas país a país, e a participação em hubs multilaterais, capazes de conectar diferentes sistemas nacionais por meio de uma infraestrutura compartilhada.

O objetivo delimitado pelo BC é permitir remessas internacionais e pagamentos de compras com os recursos disponibilizados em moeda local em poucos segundos. Segundo o documento, a interligação também tem potencial para reduzir tarifas, acelerar as operações, ampliar o acesso e melhorar a transparência das transações transfronteiriças.

O movimento ganha relevância pelo tamanho alcançado pelo Pix. De acordo com o relatório, o sistema processou quase 80 bilhões de transações em 2025, alta de 25,7% sobre o ano anterior, e movimentou mais de R$ 35 trilhões, crescimento de 33,8%. Somente em dezembro foram 7,8 bilhões de operações. No mesmo mês, 148 milhões de pessoas físicas e 12 milhões de empresas fizeram ou receberam ao menos um Pix, enquanto o número de chaves registradas superava 920 milhões.

O Pix já é usado no exterior

O relatório separa as soluções privadas que já levam a experiência do Pix para outros países de uma futura conexão entre sistemas nacionais. Essa diferença é essencial para entender o que o BC está propondo.

Hoje, instituições brasileiras e estrangeiras podem formar parcerias para que um brasileiro pague com Pix no exterior ou para que um visitante estrangeiro use o aplicativo de sua instituição de origem em um estabelecimento no Brasil. O documento cita experiências implementadas em locais como Chile, Argentina, Estados Unidos, Portugal e França, entre outros.

No pagamento feito por um brasileiro fora do país, a instituição estrangeira gera um QR Code do Pix e recebe a confirmação da operação em tempo real. O Pix, no entanto, ocorre em reais entre a conta do usuário e uma conta mantida no Brasil. Depois, a instituição brasileira remete os recursos ao exterior pelos canais tradicionais, fora da infraestrutura do Pix, para que o comerciante receba em sua moeda local.

No caminho inverso, o aplicativo da instituição estrangeira lê o QR Code emitido pelo estabelecimento brasileiro. Um parceiro no Brasil realiza o Pix em reais para o comerciante, enquanto a instituição estrangeira debita a conta do visitante em sua moeda. A compensação entre os parceiros também acontece posteriormente pelos meios tradicionais.

De acordo com o BC, as soluções atuais combinam o Pix doméstico com uma camada privada de câmbio e remessa internacional. Elas já entregam uma experiência parecida com a de um Pix para o usuário, mas não transformam o Sistema de Pagamentos Instantâneos brasileiro em uma infraestrutura transfronteiriça. O próprio relatório ressalta que, no modelo atual, a infraestrutura do Pix permite apenas transações domésticas.

A interligação estudada pelo BC é diferente porque conectaria o Pix a sistemas instantâneos de outras jurisdições. Em vez de usar o Pix somente na ponta brasileira e concluir a perna internacional por uma remessa convencional, os sistemas de origem e de destino passariam a trocar instruções segundo regras comuns.

O que são hubs multilaterais

Para isso o BC pretende implementar hubs multilaterais. Um hub multilateral funciona como um ponto comum de conexão entre mais de dois sistemas nacionais de pagamentos instantâneos. No modelo conhecido como hub-and-spoke - ou "hub e raios" - cada infraestrutura doméstica se conecta ao núcleo compartilhado. O hub faz a comunicação entre os sistemas e pode concentrar funções de contabilização e compensação; a liquidação pode ocorrer em seus próprios registros ou por meio de um agente de liquidação.

A definição é usada pelo Comitê de Pagamentos e Infraestruturas de Mercado (CPMI), ligado ao Banco de Compensações Internacionais (BIS). Em um levantamento sobre pagamentos transfronteiriços, o CPMI descreve o hub-and-spoke como um arranjo multilateral capaz de ligar mais de dois sistemas, com um intermediário comum para a contabilização e a compensação entre eles.

O contraste com uma conexão bilateral ajuda a visualizar a diferença. Em um acordo bilateral, o Pix poderia ser ligado diretamente ao sistema instantâneo de um único país. Para acrescentar um novo corredor, seria necessário criar outra conexão e conciliar regras, mensagens e responsabilidades com o novo parceiro. Essa abordagem pode fazer sentido em rotas de grande demanda, mas a complexidade aumenta conforme cresce o número de países.

No hub multilateral, a proposta é padronizar a entrada. Uma única integração pode dar acesso aos demais sistemas conectados à rede. Isso não significa criar um "Pix mundial" nem substituir as moedas nacionais. Cada país continua operando sua infraestrutura doméstica, mas os sistemas passam a conversar por protocolos, regras operacionais e modelos de governança compartilhados.

Project Nexus mostra como o modelo pode funcionar

O exemplo internacional mais próximo do conceito é o Project Nexus, desenvolvido pelo BIS Innovation Hub para conectar sistemas domésticos de pagamentos instantâneos de forma padronizada. No desenho do projeto, cada sistema faz uma única conexão com a plataforma e, por meio dela, alcança os demais integrantes da rede.

O BIS afirma que a interligação pode permitir que um pagamento chegue ao destinatário em até 60 segundos na maioria dos casos. O projeto produziu uma prova de conceito, um protótipo e, em 2024, um modelo abrangente de governança, tecnologia e operação. Em 2025, os bancos centrais de Índia, Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura e Tailândia criaram a Nexus Global Payments para conduzir o projeto à implementação operacional.

O Nexus é útil para explicar o que seria um hub multilateral, mas o relatório do BC não menciona o projeto, não aponta a plataforma como destino do Pix e não confirma negociações para a entrada do Brasil. Portanto, seria incorreto afirmar, com base no documento, que o BC decidiu conectar o Pix ao Nexus. A informação confirmada é mais restrita: a autoridade monetária avalia interligações com sistemas estrangeiros e discute tanto modelos bilaterais quanto a participação em hubs multilaterais.

Outros modelos existentes mostram que não há uma arquitetura única. O relatório de fevereiro de 2026 do CPMI sobre interligação de sistemas rápidos cita, por exemplo, a Buna, uma plataforma multilateral e multimoeda da região árabe, e o Pan-African Payment and Settlement System (PAPSS), voltado a pagamentos em moedas locais na África. Esses exemplos demonstram que um hub pode variar em governança, moedas aceitas, provedores de câmbio, modelo de liquidação e participantes.

Pix off-line mira pagamentos sem internet do usuário

Depois da inserção internacional, uma das iniciativas de maior impacto direto para o usuário é o Pix por aproximação em ambiente off-line. O BC avalia incorporar um modelo que permita iniciar uma transação sem que o pagador esteja conectado à internet.

O foco responde a uma barreira identificada em pesquisa citada pelo relatório. Entre os entrevistados que usavam Pix, 24,2% afirmaram ter escolhido outro meio de pagamento em alguma situação por dificuldade de acesso à internet. O BC relaciona a funcionalidade à ampliação do acesso em locais com conectividade limitada e entre pessoas com menor educação digital.

A proposta amplia o Pix por aproximação, hoje baseado em jornadas do Open Finance. Segundo o documento, a iniciação off-line poderia ocorrer por qualquer dispositivo com NFC, incluindo celulares, cartões de plástico, tags e dispositivos vestíveis, como relógios e pulseiras. O BC acrescenta que, eventualmente, soluções com cartões dotados de chip também poderão ser desenvolvidas.

O alcance do termo "off-line", contudo, é delimitado pelo próprio relatório: o BC fala em dispensar a conexão do usuário pagador no momento da iniciação. O documento não afirma que toda a transação, o terminal do recebedor e a liquidação funcionarão sem conectividade. Também não explica como serão tratados saldo, autorização, limites de risco, sincronização posterior ou uso de um dispositivo perdido. Segurança e confiabilidade são citadas como condições do projeto, mas a arquitetura e a data de lançamento não foram informadas.

Cobrança híbrida e novas funções do Pix Automático

Outra frente é a cobrança híbrida, que combina boleto e Pix em um único documento físico ou eletrônico. A mesma cobrança pode ser paga pelo código de barras do boleto ou pelo QR Code do Pix. A possibilidade foi aberta pela Resolução BCB 443, de dezembro de 2024, e já aparece em soluções de mercado.

O próximo passo do BC é regulamentar a experiência dentro do Regulamento do Pix e definir requisitos técnicos, responsabilidades dos agentes e padrões de confiabilidade. Para o pagador, a cobrança oferece mais opções; para o recebedor, pode simplificar emissão e conciliação.

O Pix Automático, lançado em junho de 2025 para cobranças recorrentes, também entra em uma nova etapa. O BC estuda permitir que contas-salário iniciem essas operações e avalia pagamento parcial de cobranças, novas regras para alterar a recorrência, uso do produto em relações sem periodicidade previamente definida e portabilidade de autorizações entre instituições.

Intermediários, marketplaces e mensagens abusivas

O crescimento de modelos em que um intermediário recebe o Pix em conta própria antes de repassar os recursos ao destinatário final levou o BC a preparar regras específicas. Marketplaces e agentes de coleta estão entre os exemplos citados.

Para a autoridade monetária, a intermediação pode reduzir a visibilidade do beneficiário final, dificultar o uso do Mecanismo Especial de Devolução (MED) em fraudes e criar risco de crédito quando o intermediário retém recursos. O BC trabalha em aperfeiçoamentos regulatórios e operacionais para aumentar a transparência, rastrear o dinheiro da origem ao destino e esclarecer a responsabilidade de cada participante.

O uso do campo de descrição do Pix também entrou na agenda. O espaço, criado para registrar informações sobre o pagamento, passou a ser utilizado em alguns casos para mensagens ofensivas, intimidatórias ou ameaçadoras, acompanhadas de transferências de valor irrisório.

Em 2026, o BC criou um grupo de trabalho no Fórum Pix para discutir alternativas. Depois das conclusões, poderá adotar medidas regulamentares, se considerar necessário. O relatório não antecipa se o campo será limitado, filtrado ou redesenhado.

Pix será ligado a tributos, duplicatas e crédito

O BC também pretende integrar a infraestrutura de pagamentos a outros serviços financeiros. Uma dessas iniciativas é o split tributário, mecanismo associado à reforma tributária que permitirá reter automaticamente tributos incidentes sobre transações elegíveis.

O trabalho envolve integrar informações estruturadas entre participantes da cadeia de pagamentos e agentes tributários. O BC acompanha os ajustes necessários nas regras e na infraestrutura do Pix, com a promessa de preservar uma experiência simples e transparente. O documento não define como a informação tributária aparecerá na jornada do usuário nem apresenta um cronograma próprio para o Pix.

Outra proposta é permitir o pagamento de duplicatas escriturais por QR Code do Pix. A expectativa é acelerar a liquidação de operações comerciais a prazo, automatizar a conciliação e garantir que o pagamento seja direcionado ao detentor final do crédito, inclusive quando a duplicata tiver sido negociada depois da emissão.

O relatório prevê ainda o desenvolvimento de uma solução para usar fluxos futuros de Pix como garantia em operações de crédito. A ideia é aproveitar informações e recebimentos originados no ecossistema para melhorar a qualidade das garantias e potencialmente reduzir o custo de financiamento, sobretudo para empresas que recebem grande parte de suas vendas por Pix.

Já o chamado Pix parcelado continua, no documento, como uma oferta privada de crédito. A instituição paga o valor integral ao recebedor e cobra as parcelas do cliente posteriormente. O BC afirma que monitora essas soluções e poderá atuar como consequência desse acompanhamento, mas não anuncia um produto padronizado pelo Banco Central.

Segurança terá indicador de fraude, novos bloqueios e MED ampliado

A agenda de segurança é permanente e reúne medidas em diferentes estágios. O BC pretende avaliar critérios objetivos mínimos para que as instituições classifiquem transações com suspeita ou fundada suspeita de fraude, reduzindo decisões muito diferentes para situações semelhantes.

A autoridade monetária também desenvolve um indicador centralizado de probabilidade de fraude. O modelo usaria machine learning e informações de transações e marcações de fraude para calcular, em tempo real, um sinal que poderia alimentar os sistemas antifraude das instituições. A decisão final de autorizar ou rejeitar continuaria com cada participante. O próprio relatório ressalva que o indicador só será compartilhado se o BC confiar no ajuste do modelo e concluir que há base jurídica para disponibilizá-lo.

O bloqueio cautelar deverá ganhar um fluxo automatizado de informações entre a instituição do pagador e a do recebedor. O BC também estuda medidas cautelares mais graduais contra participantes que coloquem o arranjo em risco, incluindo restrição ao cadastro de chaves, limitação de acesso ao Diretório de Identificadores de Contas Transacionais (DICT), limites de valor e restrições de horário.

Outra proposta é padronizar o alerta de golpe já exibido por alguns aplicativos e tornar a experiência obrigatória, com critérios mínimos para decidir quando e como avisar o cliente. O tema está em discussão no Fórum Pix.

Na gestão de chaves, o BC quer criar fluxos para atuar de maneira mais direta no bloqueio ou na exclusão de registros associados a fraudes, golpes, crimes ou inconsistências cadastrais. Uma nova camada de validação deverá comparar as chaves com as bases de CPF e CNPJ da Receita Federal e bloquear aquelas cujos dados não estejam em conformidade até a correção. A tipologia de fraudes registrada no DICT também será refinada.

Por fim, o BC afirma que desenvolverá uma solução para integrar ao MED as instituições iniciadoras de transação de pagamento do Open Finance. Hoje, a ausência desses agentes no mecanismo dificulta o pedido de devolução e limita o monitoramento de fraudes em pagamentos iniciados por terceiros.

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