
Blockchain já está em bancos e até na identidade brasileira, diz Linux Foundation
Tecnologias da LF Decentralized Trust já sustentam operações bilionárias, serviços bancários e sistemas públicos, enquanto Swift e DTCC ampliam adoção institucional.

A tecnologia blockchain começa a deixar para trás a longa fase de testes e projetos-piloto para assumir funções dentro da infraestrutura de bancos, mercados financeiros e governos. A avaliação é de Daniela Barbosa, diretora executiva da LF Decentralized Trust (LFDT), organização ligada à Linux Foundation que reúne projetos de código aberto voltados a tecnologias descentralizadas.
Em entrevista ao Cointelegraph Brasil, durante o primeiro dia da Blockchain Rio, Barbosa afirmou que plataformas de DLT desenvolvidas dentro do ecossistema da LFDT já processam bilhões de dólares em operações comerciais. No Brasil, segundo a executiva, o Hyperledger Fabric também integra serviços governamentais, incluindo sistemas relacionados à emissão da Carteira de Identidade Nacional (CIN).
“Temos diversas plataformas de DLT que estão no centro de projetos comerciais de tokenização e que já processam bilhões de dólares em transações, com outras iniciativas entrando em produção nas próximas semanas e meses”, afirmou.
Citi, mercados financeiros e governos já usam blockchain
Barbosa apontou o Citi Token Services como um dos exemplos da mudança. O serviço opera desde 2024 sobre uma plataforma baseada no Hyperledger Besu e, segundo a executiva, recentemente passou a realizar pagamentos internacionais com o Siam Commercial Bank.
Ela também destacou a Japan Securities Clearing Corporation (JSCC), câmara de compensação que integra o JPX Group. A instituição implementou em 2023 uma plataforma de tokenização de commodities baseada no Besu.
Outras tecnologias mantidas dentro da LFDT também chegaram a ambientes de produção. Segundo Barbosa, Hyperledger Fabric e Hiero sustentam redes de grande escala em diferentes países.
No Brasil, ela afirmou que o Fabric serve como infraestrutura para serviços públicos e citou especificamente a Carteira de Identidade Nacional.
A adoção mostra uma mudança relevante na maneira como grandes instituições começam a tratar blockchain. Em vez de provas de conceito isoladas, a tecnologia passa a funcionar como parte da infraestrutura que sustenta serviços financeiros e governamentais.
“A tecnologia central de ledger já foi comprovada e está pronta. Agora, os modelos de negócio e as regulamentações estão rapidamente ganhando definição, o que está levando a uma onda de implementação de infraestrutura essencial”, afirmou Barbosa.
Tokenização e stablecoins levam debate além da tecnologia
A expansão da infraestrutura blockchain também coloca questões regulatórias e monetárias no centro da discussão. Na entrevista, Barbosa abordou temas como tokenização, stablecoins, depósitos bancários tokenizados, moedas digitais de bancos centrais e interoperabilidade entre redes públicas e permissionadas.
Para a LFDT, esses diferentes formatos de ativos digitais não deveriam surgir como sistemas financeiros isolados. Barbosa defende padrões abertos que permitam a circulação de dados e valores entre instituições, redes e diferentes jurisdições.
A executiva também reconheceu que questões como privacidade e segurança continuam entre os principais pontos de tensão do setor. No entanto, afirmou que a infraestrutura tecnológica deve permanecer neutra enquanto governos e reguladores definem políticas para temas como stablecoins, soberania monetária e controles sobre transferências de ativos digitais.
Confira a entrevista completa
Avanço da Blockchain
Cointelegraph Brasil: Durante anos, a indústria de blockchain empresarial afirmou que estava prestes a passar de projetos-piloto para ambientes de produção. A LFDT afirma que essa transição finalmente está acontecendo. O que mudou concretamente e quais projetos da LFDT já estão dando suporte a operações críticas em produção? Quais métricas devem ser usadas para distinguir uma implementação real em produção de mais um experimento institucional?
Daniela Barbosa: Temos diversas plataformas de DLT que estão no centro de projetos comerciais de tokenização e que já processam bilhões de dólares em transações, com outras iniciativas entrando em produção nas próximas semanas e meses. O Citi Token Services opera desde 2024 em uma plataforma baseada no Besu e, recentemente, passou a realizar pagamentos internacionais com o Siam Commercial Bank. A JSCC, câmara de compensação integrante do JPX Group, implementou em 2023 uma plataforma de tokenização de commodities baseada no Besu.
Hyperledger Fabric e Hiero também já sustentam redes de produção em larga escala ao redor do mundo. O Fabric funciona como infraestrutura central de diversos serviços governamentais na Índia e também aqui no Brasil, incluindo a emissão das carteiras de identidade CIN.
O Lineth, que é a infraestrutura tecnológica da Linea, agora também é um projeto da LFDT. Dessa forma, a gama em rápida expansão de projetos institucionais e de DeFi que operam na Linea, incluindo a SharpLink, passa a funcionar sobre uma tecnologia desenvolvida e governada de forma aberta e hospedada pela LFDT.
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E tudo isso ocorre antes mesmo de Swift e DTCC colocarem em operação suas plataformas completas de tokenização. A DTCC já demonstrou a escala de sua plataforma com as transações ao vivo realizadas em julho, que envolveram mais de 25 grandes instituições financeiras, incluindo BlackRock, JPMorgan Chase, Goldman Sachs, Vanguard e a Bolsa de Valores de Nova York.
A rede privada da DTCC baseada no Besu é um dos registros distribuídos utilizados para liquidar essas operações. Já o novo livro-razão compartilhado baseado em blockchain da Swift, também construído sobre o Besu, está ativo e pronto para oferecer suporte a pagamentos internacionais 24 horas por dia, sete dias por semana, utilizando depósitos tokenizados, inicialmente com 17 bancos de seis continentes.
O que observamos nessas implementações, assim como nos diversos testes e experimentos que as antecederam, é que a tecnologia central de ledger já foi comprovada e está pronta. Agora, os modelos de negócio e as regulamentações estão rapidamente ganhando definição, o que está levando a uma onda de implementação de infraestrutura essencial.
A escala é agora a métrica que importa. Alcançá-la exige desenvolvimento colaborativo contínuo em interoperabilidade, privacidade e desempenho, tanto no campo da tecnologia quanto no desenvolvimento de padrões.
Mercado de tokenização
Cointelegraph Brasil: A LFDT adicionou o Open Tokenized Asset Standard, ou OTAS, como um novo laboratório dedicado ao desenvolvimento de implementações open source de contratos inteligentes para instrumentos financeiros tokenizados. No entanto, os maiores desafios da tokenização também envolvem direitos legais, custódia, eventos corporativos, reversibilidade e proteção ao investidor. Até que ponto um padrão técnico pode lidar com essas questões? Como a LFDT avalia as iniciativas propostas pela Comissão de Valores Mobiliários do Brasil, a CVM, para o mercado de tokenização?
Daniela Barbosa: Os padrões alcançam maior sucesso quando são desenvolvidos de maneira colaborativa e aberta. Foi por isso que o OTAS nasceu sob o guarda-chuva da LFDT. O objetivo não é apenas construir um consenso em torno de requisitos técnicos, mas também estimular um acordo entre diferentes setores sobre requisitos comerciais e regulatórios.
Ainda estamos nos estágios iniciais, mas, se a indústria participar e fizer sua parte, o OTAS e outros padrões poderão unificar o mercado e reduzir pontos de atrito no fluxo de valor entre plataformas e redes.
Os marcos regulatórios para tokenização ao redor do mundo devem ser desenvolvidos de forma aberta, permanecer neutros em relação à tecnologia e priorizar a interoperabilidade. Nossa comunidade trabalha com reguladores, infraestruturas de mercados financeiros e instituições ao redor do mundo para ajudar a garantir que os novos marcos regulatórios apoiem a inovação, ao mesmo tempo em que permitam que diferentes tecnologias, redes e jurisdições trabalhem em conjunto.
Stablecoins e depósitos tokenizados
Cointelegraph Brasil: Stablecoins, depósitos bancários tokenizados, moedas digitais de bancos centrais e valores mobiliários tokenizados poderão, no futuro, operar em diferentes redes públicas e permissionadas. Plataformas baseadas em stablecoins prometem ampliar o acesso ao dólar americano e reduzir atritos nos pagamentos internacionais. Ao mesmo tempo, elas podem retirar recursos dos bancos locais, acelerar a dolarização digital e transferir riscos para instituições sediadas no exterior. Como os países da América Latina podem aproveitar esses benefícios sem enfraquecer a intermediação financeira ou sua soberania monetária?
Daniela Barbosa: Na LFDT, nosso papel é defender a abertura e a interoperabilidade à medida que esse mercado evolui. O ponto fundamental é garantir que stablecoins, depósitos tokenizados, CBDCs e valores mobiliários tokenizados não se desenvolvam como silos financeiros isolados.
Padrões abertos e uma infraestrutura interoperável podem permitir que valor e dados circulem com segurança entre redes públicas e permissionadas, instituições e fronteiras, oferecendo aos países e às instituições financeiras maior liberdade de escolha sobre como se conectar às finanças digitais globais, sem se tornarem dependentes de uma única moeda, plataforma ou rede.
Retenção de stablecoins
Cointelegraph Brasil: O Banco Central do Brasil determinou uma retenção preventiva de 24 horas para determinadas transferências de ativos virtuais enviadas ao exterior ou para carteiras autocustodiadas. Em uma infraestrutura criada para oferecer liquidação programável e praticamente instantânea, onde controles desse tipo deveriam ser implementados: no nível do protocolo, dentro das carteiras ou exclusivamente pelas instituições reguladas? Como conciliar a prevenção de fraudes com a privacidade, evitando ao mesmo tempo que redes descentralizadas se transformem em sistemas de vigilância?
Daniela Barbosa: Privacidade e segurança representam grandes pontos de tensão em todo o mercado. Nossa comunidade e nossos membros estão enfrentando esse desafio do ponto de vista técnico sempre que possível, tanto nos roadmaps dos projetos existentes quanto em novos projetos e laboratórios.
Podemos trabalhar em conjunto para inovar e enfrentar as preocupações centrais que estão por trás de uma determinada política, mantendo, ao mesmo tempo, uma posição neutra em relação à forma como ela será implementada.
Cointelegraph Brasil: Instituições como o FMI alertaram que as stablecoins podem retirar recursos dos bancos locais, acelerar a dolarização digital e transferir riscos para instituições estrangeiras. A infraestrutura aberta e interoperável promovida pela LFDT poderia acabar acelerando esses efeitos? Existem mecanismos técnicos ou de governança capazes de preservar a concorrência, as moedas locais e a soberania monetária, ou essas questões dependem inteiramente de decisões regulatórias?
Daniela Barbosa: A infraestrutura viabilizada pelas nossas tecnologias é, por natureza, neutra e até mesmo programável. Portanto, à medida que os debates sobre política monetária avançarem, essa infraestrutura estará disponível e preparada para dar suporte às decisões tomadas.
A governança aberta que apoiamos busca oferecer estabilidade técnica para essa infraestrutura em um mercado complexo e em constante evolução.

