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Cassio Gusson
Escrito por Cassio Gusson,Redator
Lucas Caram
Revisado por Lucas Caram,Editor da Equipe

Bitcoin perde espaço: stablecoins são a parte mais madura e economicamente funcional do universo cripto, diz 21Shares

Executiva afirma que ativos estáveis dominam a liquidez global e avançam como ponte entre cripto e sistema financeiro tradicional

Bitcoin perde espaço: stablecoins são a parte mais madura e economicamente funcional do universo cripto, diz 21Shares
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Enquanto o Bitcoin segue como principal referência do setor de criptomoedas quando o assunto é investimento, as stablecoins vêm assumindo, de forma consistente, o protagonismo econômico e funcional dentro do ecossistema digital.

Em uma entrevista concedida ao Cointelegraph Brasil, Bruna Cabús, associada sênior da 21Shares para a Península Ibérica e América Latina, destacou que esses ativos já representam o estágio mais avançado de uso prático dentro da indústria cripto e o aspecto mais nítido da integração entre o mundo financeiro tradicional e o mundo cripto.

Segundo ela, esse movimento não acontece por acaso. As stablecoins reúnem características que resolvem problemas reais enfrentados por usuários e empresas, especialmente em mercados com instabilidade cambial ou custos elevados no sistema bancário tradicional.

“As stablecoins são hoje a parte mais madura e economicamente funcional do universo cripto”, afirma. Ao mesmo tempo, elas cumprem múltiplas funções, desde reserva de valor em dólar até ferramenta eficiente para pagamentos internacionais.

Além disso, o avanço das stablecoins tem implicações diretas fora do universo cripto. Como grande parte desses ativos é lastreada em títulos públicos, o crescimento desse mercado também impacta a dinâmica financeira global.

“Podemos dizer que tanto fortalecem o sistema tradicional quanto criam uma alternativa a ele”, explica Cabús. Esse duplo efeito, segundo ela, coloca governos e reguladores em uma posição delicada, já que o fenômeno mistura inovação com dependência estrutural.

Ao mesmo tempo em que as stablecoins avançam, o Bitcoin passa por um processo de integração cada vez mais intenso com o sistema financeiro tradicional. Esse movimento ocorre principalmente por meio de produtos como ETFs e ETPs, que facilitam o acesso ao ativo e ampliam a base de investidores, sobretudo institucionais. Segundo Cabús, essa transformação muda a forma como o mercado enxerga o Bitcoin.

“Os ETFs oferecem vantagens significativas em relação à exposição direta aos ativos”, afirma. Na prática, eles permitem que investidores tradicionais entrem no mercado sem lidar com questões técnicas como custódia ou segurança digital. Esse fator, combinado com a entrada de grandes instituições, tem sustentado o crescimento do setor mesmo em momentos de queda de preço.

De acordo com dados citados pela executiva, a resiliência desse capital institucional chama atenção. “Os ETFs de Bitcoin perderam apenas 5% do montante aplicado, provando que esses investidores são realmente fiéis”, destaca. Além disso, ela aponta que empresas e entidades ligadas a governos vêm acumulando Bitcoin em um ritmo muito superior à emissão de novas moedas, reforçando a pressão estrutural de demanda.

Apesar disso, o comportamento do ativo mudou. Hoje, o Bitcoin responde cada vez mais a fatores macroeconômicos globais, como liquidez e política monetária. “Faz sentido que ele reaja à liquidez global, dado o nível de integração com o sistema financeiro tradicional”, explica.

Em cenários de crise, como conflitos geopolíticos recentes, o ativo tende a sofrer no curto prazo, mas mantém sua trajetória de recuperação ao longo do tempo.

Confira a entrevista completa

Mercado cripto

Cointelegraph Brasil (CTBR): O mercado institucional entrou definitivamente no Bitcoin ou ainda estamos nos primeiros capítulos dessa adoção via ETFs e ETPs?

Bruna Cabús (BC): Os ETFs e ETPs oferecem vantagens significativas em relação à exposição direta aos ativos. Além disso, o mercado vem se adaptando ao desenvolvimento de produtos mais diversificados, como os ETFs e ETPs que combinam bitcoin e altcoins com ouro e stablecoins.

Notamos certo apelo do varejo, mas certamente é o capital institucional que vem impulsionando o crescimento desse tipo de investimento. Segundo análises da 21shares, apesar da recente queda de preço, os ETFs de Bitcoin perderam apenas 5% do montante aplicado em BTC, provando que esses investidores são realmente fiéis. Além disso, empresas, ETFs e entidades relacionadas a soberanos absorveram Bitcoin em um ritmo mais de cinco vezes superior ao de novas emissões ao longo do último ano.

CTBR: Muitos analistas dizem que o Bitcoin hoje reage mais à liquidez global e à política monetária do que a fatores internos do mercado cripto. Você concorda com essa leitura?

Faz sentido, especialmente levando em conta a aproximação crescente que o bitcoin e o mercado cripto em geral apresentam hoje em relação ao sistema financeiro tradicional. A guerra em curso no Oriente Médio gera um estresse enorme na economia global, causando efeitos mesmo longe das zonas de conflito, a partir da elevação de preços que geram inflação e afetam o bolso do consumidor.

Nesse cenário, ganham importância as alternativas que não estão vinculadas a um estado em si, como o Bitcoin. Várias análises recentes questionaram o Bitcoin como reserva de valor, mas historicamente ele cai durante choques de liquidez e depois se recupera - foi assim, por exemplo, quando a Rússia iniciou a invasão na Ucrânia (2022) e no começo da guerra entre Israel e Hamas (2023). Ou seja, é importante não perder de vista que, apesar desses solavancos econômicos e geopolíticos, as perspectivas de longo prazo sobre o bitcoin seguem intactas.

Tokenização e stablecoins

CTBR: A tokenização de ativos tradicionais, como ações e crédito privado, está ganhando força. Isso pode se tornar um mercado maior que o próprio mercado de criptomoedas? E em que medida isso pode afetar o desempenho físico das empresas, já que o mercado passa a ser 24/7?

BC: No estágio atual do mercado, a tokenização atende muito mais quem já conhece bem o universo cripto, abrindo uma frente mais nativa do ecossistema digital. Enquanto isso, outros elementos - como os ETFs - atendem outros públicos. É verdade que se a adoção cripto continuar avançando, a tokenização e o DeFi podem ganhar protagonismo maior, mas ainda estamos distantes desse estágio e o mercado como um todo ainda tem muito o que crescer.

CTBR: Stablecoins já representam a maior parte da liquidez do mercado cripto. Elas estão fortalecendo o sistema financeiro tradicional ou criando uma alternativa a ele já que o dinheiro que entra em stablecoins ajuda a financiar a dívida pública do Estado, pois todas são lastreadas em títulos do Tesouro?

BC: Podemos dizer que ambos os movimentos estão ocorrendo ao mesmo tempo, o que mexe tanto com o mercado quanto com os governos mundo afora. As stablecoins funcionam como proteção cambial, reserva de valor em dólar e ferramenta de eficiência operacional onde há fricções bancárias, inflação ou custo elevado em pagamentos internacionais (o Brasil é um bom caso prático, como mostram os dados recentes da Receita Federal).

De fato, stablecoins são hoje a parte mais madura e economicamente funcional do universo cripto, talvez até mais avançadas em adoção prática do que muitos ativos voláteis do setor. No entanto, para que esse amadurecimento ocorra e persista, ele precisa de regulação clara, reservas auditáveis e integração com grandes empresas de pagamentos. Felizmente podemos ver que, ainda sob pontos a serem melhor azeitados, o Brasil é novamente um bom laboratório.

Bitcoin daqui 5 anos

CTBR: O mercado cripto hoje depende fortemente de derivativos e alavancagem. Isso é um sinal de maturidade financeira ou de fragilidade estrutural?

BC: Do nosso ponto de vista, o movimento recente reflete um ajuste de posicionamento e alavancagem, e não uma quebra da tese estrutural do Bitcoin. Os criptoativos estão amadurecendo como classe de ativos. Narrativas fáceis, como memes ou NFTs, estão cada vez mais ficando para trás e dando lugar a elementos como tokenização, infraestrutura e regulamentação.

À medida que empresas reais adotam blockchain em pagamentos, custódia, liquidação e tokenização, as expectativas aumentam. Assim, a tecnologia passa a ser cada vez mais avaliada pelos padrões dos serviços financeiros tradicionais: confiabilidade, conformidade regulatória, segurança e eficiência econômica. Em cripto, investir de forma seletiva e baseada em fundamentos tende a ser a única vantagem duradoura.

CTBR: O que podemos esperar do Bitcoin, tanto em termos de preço como de desenvolvimento, para os próximos 5 anos e pq?

BC: O Bitcoin cada vez mais se insere no sistema financeiro tradicional como algo que provoca e impulsiona inovação, mantendo independência em relação a governos e ao mesmo tempo gerando novos produtos e serviços, fazendo com que a legislação vigente em cada localidade encontre meios de regulamentar essa relação. Creio que nos próximos cinco anos veremos um aprofundamento desse cenário. E o preço do ativo vai acompanhar esse movimento, independentemente do patamar.

Risco para o mercado

CTBR: Se você tivesse que apontar o maior risco para o mercado cripto nos próximos dois anos, regulação, macroeconomia ou estrutura de mercado, computação quântica, qual seria?

BC: Todos esses fatores representam variáveis com potencial para impactar o mercado cripto, tanto de forma positiva quanto negativa, inclusive de forma simultânea. Eu não usaria a palavra “risco”, mas a qualidade da regulamentação, por exemplo, afeta diretamente o presente e o futuro do mercado cripto de um certo local - o Brasil é um bom exemplo, onde o diálogo saudável entre governo, players do mercado e outros atores interessados ajudou a criar um marco legal bem interessante e com margem para ser aperfeiçoado.

Uma regulamentação bem calibrada pode até mesmo ajudar a atenuar impactos gerados por questões macro. A computação quântica, por sua vez, é certamente um problema a ser resolvido, mas que ainda deve levar um pouco mais de tempo. E nunca podemos perder de vista a capacidade de aperfeiçoamento que o universo cripto deve desenvolver nos próximos anos para lidar com essa questão. Já vemos, inclusive, grandes players do mercado criando mecanismos de preparação e prevenção contra essa ameaça representada pela computação quântica.


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