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Escrito por Cassio GussonRedatorRevisado por Lucas CaramEditor

Fraudes com criptomoedas estão em queda no Brasil, aponta Sumsub

Últimas NotíciasPublicado12 de ago. de 2026

Deepfakes, identidades sintéticas e sequestros de contas estão substituindo golpes em massa, enquanto exchanges precisam abandonar modelos tradicionais de KYC

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A inteligência artificial está mudando o perfil das fraudes envolvendo criptomoedas no Brasil. Embora os indicadores apontem uma queda nas ocorrências detectadas, criminosos passaram a apostar em ataques mais sofisticados, com deepfakes, identidades sintéticas e campanhas de engenharia social.

A avaliação é de Georgia Sanches, country manager da Sumsub no Brasil, em entrevista ao Cointelegraph Brasil durante o Blockchain Rio. Segundo ela, os fraudadores estão deixando para trás estratégias de grande escala, mais fáceis de identificar, para explorar vulnerabilidades específicas no onboarding de clientes e no monitoramento de transações.

Dados do State of the Crypto Industry Report 2026, da Sumsub, mostram que a taxa de fraude no Brasil caiu 7% em relação ao ano anterior e chegou a 1,4% das verificações. Para Sanches, entretanto, a redução não significa necessariamente que o risco diminuiu. Os ataques ficaram mais precisos e difíceis de detectar.

“O que vemos hoje não é um aumento no volume bruto de fraudes, mas uma mudança para esquemas altamente sofisticados.”

Entre as ameaças em expansão, a executiva destaca redes de “laranjas”, sequestros de contas e golpes que combinam inteligência artificial com manipulação emocional. A mudança também coloca pressão sobre sistemas tradicionais de Know Your Customer (KYC), especialmente aqueles concentrados apenas na verificação de documentos.

KYC tradicional perde força contra deepfakes

Segundo Sanches, a capacidade da IA de produzir documentos, rostos e identidades convincentes torna insuficiente um processo de identificação realizado apenas no momento em que o cliente abre uma conta.

A tendência, segundo ela, passa pelo chamado KYC dinâmico, que acompanha continuamente o comportamento do usuário. O modelo combina biometria, análise comportamental, monitoramento de transações e sistemas automatizados de detecção de anomalias.

No Brasil, a Sumsub afirma que a verificação sem documentos alcançou taxa de sucesso de 95%, ante 93% do onboarding tradicional. Globalmente, 57% das empresas de criptomoedas pesquisadas priorizam ferramentas antifraude baseadas em IA e 51% investem em plataformas avançadas de monitoramento.

O uso de inteligência artificial, contudo, também cria outro problema: falsos positivos. De acordo com os dados apresentados por Sanches, 60% dos operadores de cripto apontam falsos positivos e negativos entre suas principais preocupações. Para reduzir esse risco, ela defende sistemas que adaptem o nível de verificação ao tamanho da operação, localização e comportamento do usuário.

Travel Rule ainda deixa pontos cegos

Outro desafio aparece na implementação da Travel Rule, mecanismo que exige o compartilhamento de determinadas informações entre provedores envolvidos em transferências de ativos virtuais.

Sanches afirma que a regra aumenta a rastreabilidade, mas não permite que exchanges confiem exclusivamente nas informações declaradas pelo cliente. Uma pessoa pode fornecer dados falsos sobre o destino dos recursos, especialmente quando a transferência envolve uma carteira de autocustódia.

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Para reduzir essa vulnerabilidade, instituições podem combinar dados de KYC com análise de endereços blockchain, verificação da contraparte e mecanismos destinados a comprovar o controle de uma carteira. Mesmo assim, provar que alguém controla determinado endereço não revela necessariamente quem será o beneficiário final dos recursos.

Confira a entrevista completa

Inteligência Artificial

Cointelegraph Brasil: Como a inteligência artificial mudou o perfil das fraudes no mercado cripto, especialmente no Brasil, e quais ataques mais cresceram recentemente? 

Georgia Sanches: A inteligência artificial transformou profundamente o cenário das fraudes em cripto, especialmente no Brasil. O que vemos hoje não é um aumento no volume bruto de fraudes, mas uma mudança para esquemas altamente sofisticados. Criminosos estão usando IA para gerar identidades sintéticas que parecem reais e convincentes, além de deepfakes que conseguem burlar métodos tradicionais de verificação. Esses ataques muitas vezes são combinados com campanhas organizadas de engenharia social, os tornando sistêmicos. 

É um dos motivos pelos quais o State of the Crypto Industry Report 2026, da Sumsub, mostra que as taxas de fraude no Brasil caíram 7% em relação ao ano anterior, chegando a apenas 1,4% de todas as verificações, uma das mais baixas globalmente. Essa queda revela uma mudança de tática: os atacantes estão abandonando golpes em massa, facilmente detectáveis, e focando em ataques de precisão que exploram pontos fracos no onboarding e no monitoramento de transações. Entre as ameaças que mais crescem estão as redes de “laranjas”, em que indivíduos movimentam fundos ilícitos sem saber, e os sequestros de contas impulsionados por IA, muitas vezes alimentados por manipulação emocional. 

Essa evolução mostra que fraude já não se resume a identificar documentos falsos. Ela exige defesas integradas que conectem verificação de identidade, análise comportamental e monitoramento de transações. Em resumo, a IA tornou a fraude mais difícil de detectar, mais adaptável e persistente, enquanto as instituições precisam responder com estratégias igualmente avançadas e interconectadas.

KYC tradicional está morrendo

Cointelegraph Brasil: Com criminosos usando IA para criar deepfakes e identidades sintéticas, o modelo tradicional de KYC ainda consegue proteger exchanges e instituições financeiras? 

Georgia Sanches: O modelo tradicional de KYC, que depende bastante da checagem de documentos, está se tornando cada vez mais insuficiente diante das fraudes impulsionadas por IA. Deepfakes e identidades sintéticas podem imitar de forma convincente usuários legítimos, burlando métodos de verificação estáticos. O que vemos no Brasil e globalmente é uma mudança para o KYC dinâmico, no qual a verificação de identidade não é um processo único, mas uma avaliação contínua ao longo do ciclo de vida do usuário.

Por exemplo, o Brasil tornou‑se líder regional em verificação sem documentos, alcançando uma taxa de sucesso de 95% em comparação com 93% no onboarding tradicional. Essa abordagem reduz a fricção para usuários legítimos ao mesmo tempo em que dificulta que identidades sintéticas passem 

despercebidas. Globalmente, 57% das empresas de cripto priorizam ferramentas de detecção de fraude baseadas em IA, enquanto 51% investem em plataformas avançadas de monitoramento. Isso reflete o reconhecimento da indústria de que checagens estáticas de documentos sozinhas não conseguem enfrentar ameaças em evolução. 

Assim, exchanges e instituições financeiras estão combinando verificação sem documentos, análise biométrica e monitoramento comportamental para fortalecer as defesas. O futuro do KYC está na defesa em camadas, integrando a detecção de anomalias impulsionada por IA, o monitoramento de transações e frameworks de compliance para garantir resiliência contra fraudes sem sacrificar a experiência do usuário. 

Brasil x América Latina

Cointelegraph Brasil: qual dado do State of the Crypto Industry Report mais preocupa quando comparamos o Brasil com a América Latina e o restante do mundo? 

Georgia Sanches: A fraude na América Latina caiu 7% em relação ao ano anterior, com o Brasil registrando apenas 1,4% de todas as verificações sinalizadas como fraudulentas, um nível comparável ao da Europa. Esses números são menores do que os da região Ásia-Pacífico (aumento de 65% nas tentativas de fraude, chegando a 3,3% das verificações), enquanto a América do Norte teve uma queda de 38%, mas ainda enfrenta riscos persistentes de sequestro de contas. À primeira vista, parece positivo, mas o relatório mostra que os atacantes estão mudando de tática em vez de desaparecer. 

Um dado particularmente preocupante do relatório é a incerteza entre os operadores sobre se foram ou não alvo de fraude. Globalmente, 15% dos provedores admitiram não ter certeza se seus sistemas haviam sido atacados em 2025. Essa falta de visibilidade é alarmante porque sugere que as tentativas de fraude estão se tornando tão sofisticadas que as empresas podem deixar de reconhecê-las completamente. 

Isso é especialmente problemático no Brasil, onde uma regulamentação clara também pode levar a sanções para os operadores caso as regras não sejam seguidas. Apesar das normas fortes e das altas taxas de sucesso na verificação sem documentos, criminosos estão usando cada vez mais deepfakes gerados por IA e identidades sintéticas para burlar o onboarding. Isso significa que o país vive um paradoxo, com baixa incidência de fraude, mas alta exposição a técnicas avançadas, criando um desafio único. No fim, a regulação está ajudando a reduzir as taxas de fraude, mas também coloca o Brasil na linha de frente do combate a golpes de nova geração. 

Combater fraudes em tempos de IA

Cointelegraph Brasil: IA também pode bloquear usuários legítimos. Como as instituições podem combater fraudes sem ampliar falsos positivos, exclusão financeira ou problemas relacionados à LGPD? 

Georgia Sanches: Às vezes, os sistemas de IA podem classificar usuários legítimos equivocadamente, o que gera riscos de exclusão e desafios regulatórios. 60% dos operadores no setor de cripto citam falsos positivos e negativos como uma das principais preocupações, junto com atrasos na verificação de clientes (58%). Para lidar com isso, as plataformas líderes do mercado estão integrando análises comportamentais, monitoramento de transações e verificação sem documentos em seus processos de KYC. 

Outra abordagem importante é a pontuação de risco adaptativa: em vez de tratar todos os usuários da mesma forma, os sistemas ajustam a profundidade da verificação com base no tamanho da transação, risco geográfico ou anomalias comportamentais. Isso minimiza a fricção desnecessária ao mesmo tempo em que sinaliza atividades suspeitas. Por fim, a transparência e visibilidade nos modelos de IA são críticas e as instituições devem permanecer alinhadas com leis de proteção de dados como a LGPD, sabendo justificar decisões tanto para reguladores quanto para usuários. 

Em resumo, prevenir fraudes sem prejudicar usuários legítimos requer defesas mais inteligentes e em camadas, que combinem compliance, tecnologia e design centrado no usuário. Essa abordagem reduz fricção desnecessária para usuários comuns, sem deixar de sinalizar as atividades suspeitas.

Travel Rule

Cointelegraph Brasil: A Travel Rule consegue acompanhar transferências entre exchanges, plataformas estrangeiras e carteiras de autocustódia ou ainda existem pontos cegos relevantes? Na Travel Rule é o usuário que informa o destino e a especificação daquela transferência, como garantir que el não mentiu? 

Georgia Sanches: A Travel Rule melhora a rastreabilidade ao facilitar a troca de dados entre operadoras, mas não foi criada para ser uma camada completa de identificação em transações blockchain. Isso significa que as instituições não podem depender apenas do que um usuário declara sobre o destino dos fundos. Verificações adicionais são essenciais e é nesse ponto que plataformas de due diligence como a Sumsub entram, oferecendo uma camada extra de mitigação de risco. 

Na prática, quando ocorre uma transferência, cada VASP já possui informações de KYC verificadas sobre seus próprios clientes. A operadora remetente compartilha os dados exigidos, enquanto a destinatária verifica de forma independente o beneficiário. Essa troca de informações, combinada com triagem de endereços e verificação da contraparte, ajuda a reduzir o risco de declarações falsas. Para carteiras de autocustódia, métodos mais robustos de verificação de controle vêm sendo utilizados, como provas criptográficas ou transações de testes escritas previamente, dependendo da jurisdição e do nível de risco. 

A Travel Rule é uma fundação, não o ponto final. Ela reduz a opacidade, mas sem mecanismos de verificação mais fortes, pontos cegos podem permanecer. Usuários podem tentar mentir, enquanto provar o controle de uma carteira não revela necessariamente quem é o beneficiário final dos fundos, em uma brecha que pode ser explorada por atacantes. Por isso, a abordagem mais eficaz é em camadas: combinar conformidade com a Travel Rule, análises comportamentais, monitoramento de transações e plataformas de due diligence. Assim, as instituições conseguem mitigar o risco de informações falsas dos usuários, mantendo alinhamento regulatório e confiança do cliente ao mesmo tempo. 

Empresas brasileiras

Cointelegraph Brasil: Quais dificuldades práticas as empresas brasileiras enfrentarão para cumprir a Travel Rule e compartilhar informações sem comprometer a privacidade e a segurança dos clientes? 

Georgia Sanches: As empresas brasileiras enfrentarão desafios práticos na implementação da Travel Rule. O primeiro é a interoperabilidade de dados: câmbios e instituições financeiras precisam compartilhar informações entre diferentes plataformas, muitas vezes com contrapartes estrangeiras que podem seguir padrões ou prazos distintos. Isso gera fricção e aumenta o risco de relatórios inconsistentes. 

Há também a questão da sobrecarga operacional. Empresas menores, em particular, podem enfrentar dificuldades com o custo e a complexidade de integrar a conformidade à Travel Rule em suas infraestruturas atuais. No Brasil, onde a regulação avança rapidamente, se espera que os operadores não apenas cumpram as normas, mas façam isso de maneira a preservar a confiança. Isso significa adotar verificação sem documentos, análises em blockchain e ferramentas automatizadas de relatórios para reduzir a fricção ao mesmo tempo em que atendem às exigências regulatórias. 

Outra dificuldade é a gestão da privacidade. As regulamentações exigem informações detalhadas sobre transferências, mas os clientes esperam que seus dados pessoais sejam protegidos. Equilibrar essas demandas significa construir sistemas que incorporem a privacidade por design, garantindo que informações sensíveis sejam criptografadas, armazenadas com segurança e compartilhadas apenas quando estritamente necessário.

Regulamentação cripto no Brasil

Cointelegraph Brasil: Com o avanço da regulamentação cripto no Brasil, quais exigências deveriam receber prioridade e quais erros cometidos por outros mercados o país precisa evitar?

Georgia Sanches: O marco regulatório do Brasil está avançando rapidamente, e a prioridade agora deve ser clareza e consistência. Os operadores devem priorizar a conformidade interoperável, integração da privacidade e aplicação clara, implementando a Travel Rule de forma consistente e com confiança, sem sufocar a inovação. Isso deve ser feito evitando estruturas fragmentadas ou inconsistentes que prejudicaram o progresso em outros territórios. 

Observando os demais mercados, um erro que o Brasil deve evitar é a fragmentação excessiva dos padrões. Em regiões onde cada regulador impôs requisitos ligeiramente diferentes, as empresas enfrentaram custos excessivos e confusão, desacelerando a adoção. Isso aconteceu, por exemplo, na União Europeia e nos Estados Unidos, onde a ausência de uma lei unificada entre países ou estados, respectivamente, levou à duplicação de processos e interpretações locais, criando insegurança para os operadores. 

A aplicação tardia também é uma armadilha: quando regras são anunciadas mas não aplicadas de forma consistente, o resultado é incerteza e o enfraquecimento da defesa, abrindo brechas para fraudadores. Por outro lado, os reguladores devem evitar mudanças rápidas ou abruptas nas regras, já que alterações constantes minam a confiança e dificultam o planejamento de longo prazo para os operadores. Por fim, é importante levar em conta a LGPD, com a regulação de cripto se integrando de forma fluida à proteção de dados para evitar conflitos entre prevenção de fraudes e direitos de privacidade. 

Em conclusão, o Brasil deve também focar em construir uma forte colaboração entre reguladores e atores da indústria, garantindo que os frameworks de conformidade evoluam em sintonia com a inovação tecnológica. Essa abordagem cooperativa pode evitar atrasos regulatórios e posicionar o país como referência mundial em governança equilibrada de cripto.

Cripto x dinheiro físico

Cointelegraph Brasil: Cripto deixou de ser um 'dinheiro focado em privacidade' e se tornou agora mais fácil de rastrear que o dinheiro físico? 

Georgia Sanches: Cripto não deixou de ser focado em privacidade, mas tornou-se muito mais rastreável do que o dinheiro físico. Cada transação em blockchain deixa um registro permanente e, com o avanço das análises, reguladores e instituições podem acompanhar fluxos de dinheiro entre carteiras e câmbios de uma forma que não é possível com dinheiro em espécie. 

O principal ponto cego continua sendo as carteiras de autocustódia e as plataformas descentralizadas, onde as informações fornecidas pelos usuários podem ser incompletas ou falsas. Ainda assim, uma vez que os fundos chegam a uma exchange regulada, normalmente podem ser rastreados por meio das transações em camadas. Na prática, significa que cripto hoje é mais fácil de monitorar do que o dinheiro físico, mas as preocupações com privacidade persistem porque a mesma transparência que permite a supervisão também levanta questões sobre proteção de dados e direitos dos usuários.


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