Cointelegraph
DOGE$0.07173 2.62%
TRX$0.3353 1.38%
LINK$8.69 4.86%
ZEC$477.49 4.25%
ADA$0.1860 3.86%
XRP$1.01 0.27%
ETH$1,880.88 0.08%
BTC$63,691.65 0.67%
XMR$385.02 2.14%
BNB$612.45 1.87%
XLM$0.1618 0.43%
SOL$76.00 0.49%
HYPE$54.60 1.60%
Escrito por Cassio GussonRedatorRevisado por Lucas CaramEditor

'Precisamos parar de falar de que cripto é futuro', diz presidente da CNAD de El Salvador

Últimas NotíciasPublicado11 de ago. de 2026

Enquanto El Salvador criou uma autoridade exclusiva para ativos digitais, o Uruguai integrou exchanges, emissores e ativos tokenizados à estrutura de supervisão do Banco Central.

Nesta terça, 11, durante o Financial Infrastructure Fórum, evento que abre o Blockchain Rio, El Salvador e Uruguai adotaram arquiteturas diferentes para regular o mercado de criptomoedas, mas chegaram a uma conclusão semelhante: empresas de ativos digitais devem passar por autorização prévia, avaliações rigorosas e supervisão contínua, em vez de apenas realizar um cadastro junto ao regulador.

O painel reuniu Juan Carlos Reyes, presidente da Comissão Nacional de Ativos Digitais de El Salvador (CNAD), e Patricia Tudisco, intendente de Supervisão Financeira do Banco Central do Uruguai (BCU), além de representantes de outras instituições financeiras latino-americanas.

Reyes afirmou que o debate sobre ativos digitais precisa deixar de ser tratado como uma discussão sobre o futuro.

“Precisamos parar de falar do futuro e entender que isso já é o presente”, declarou. Para o presidente da CNAD, países que ainda estão começando a estruturar seus marcos regulatórios já tentam recuperar o atraso acumulado nos últimos anos.

Segundo Reyes, o principal aprendizado obtido por El Salvador desde a adoção do Bitcoin (BTC), em 2021, foi compreender que ativos digitais não são apenas versões eletrônicas de instrumentos financeiros tradicionais.

Ele comparou a diferença à existente entre um automóvel convencional e um carro elétrico. Embora a experiência para o motorista possa ser semelhante, a arquitetura interna dos veículos é completamente diferente — e exige profissionais com outros conhecimentos.

Na visão de Reyes, ativos digitais são programas de computador desenvolvidos para se comportar como instrumentos financeiros. Por isso, esperar que bancos centrais e supervisores tradicionais regulem o setor sem equipes especializadas seria equivalente a pedir que um mecânico de motores a combustão conserte um veículo elétrico.

Essa percepção levou El Salvador a criar uma estrutura regulatória separada do Banco Central e da Superintendência do Sistema Financeiro. A Lei de Emissão de Ativos Digitais começou a ser elaborada em 2022 e entrou em vigor em 2023, estabelecendo as bases para a CNAD e para a tokenização de ativos no país.

El Salvador rejeita oito em cada dez pedidos

Reyes afirmou que aproximadamente 80% das empresas que procuram autorização para operar sob a supervisão da CNAD são rejeitadas. Isso significa que apenas duas em cada dez candidatas conseguem avançar no processo.

Segundo ele, os critérios adotados pela comissão seguem recomendações do Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI/FATF) e da Organização Internacional das Comissões de Valores (IOSCO).

O objetivo seria garantir que as empresas licenciadas em El Salvador tenham condições de operar internacionalmente e continuar atendendo aos padrões regulatórios nos próximos anos.

“Se você não quer cumprir procedimentos de KYC e não quer seguir as regras, então não é bem-vindo ao ecossistema de El Salvador”, afirmou Reyes.

O presidente da CNAD também declarou que a comissão supervisiona mais de US$ 200 bilhões em tokens e ativos tokenizados. Segundo ele, quando são incluídas transações e atividades de exchanges globais submetidas à supervisão salvadorenha, o valor ultrapassa US$ 350 bilhões.

Reyes não detalhou durante o painel a metodologia usada para calcular esses valores.

Embora El Salvador tenha adotado o Bitcoin como moeda de curso legal em 2021, o país reformou a legislação em 2025, retirando a obrigatoriedade de aceitação do BTC e tornando seu uso voluntário no setor privado. A regulação de outros ativos digitais permanece sob a responsabilidade da CNAD.

Uruguai integra ativos virtuais ao Banco Central

O Uruguai escolheu uma estrutura diferente. Em vez de criar uma autoridade independente, o país colocou os prestadores de serviços de ativos virtuais dentro do perímetro regulatório do Banco Central.

Patricia Tudisco explicou que a Superintendência de Serviços Financeiros do BCU, que possui autonomia técnica e operacional, ficou responsável por regular e supervisionar essas empresas.

A Lei nº 20.345, aprovada em setembro de 2024, incorporou os prestadores de serviços de ativos virtuais ao conjunto de entidades integrantes do sistema financeiro uruguaio. A legislação também reconheceu os valores escriturais mantidos em registros descentralizados baseados em tecnologia de registro distribuído (DLT).

Em julho de 2026, o Banco Central publicou a Circular nº 2.507, com a regulamentação específica aplicável aos prestadores de serviços de ativos virtuais.

“Não se trata de um simples registro. É uma autorização”, destacou Tudisco.

A licença é exigida tanto para empresas que pretendem se instalar no Uruguai quanto para aquelas que desejam oferecer serviços ao público uruguaio em larga escala.

O processo inclui avaliações sobre o modelo de negócios, estrutura societária, governança, tecnologia, controles internos e capacidade financeira da empresa. Também são analisados requisitos prudenciais, mecanismos de proteção ao consumidor e políticas de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.

Após a autorização, as empresas permanecem submetidas à supervisão contínua do Banco Central.

Dinheiro eletrônico, valores mobiliários e cripto seguem regimes diferentes

Tudisco ressaltou que o marco regulatório define claramente quais atividades estão dentro e fora da categoria de prestador de serviços de ativos virtuais.

O dinheiro eletrônico continua submetido à legislação específica desse segmento. O mesmo vale para valores mobiliários, independentemente de serem registrados em uma infraestrutura centralizada ou em uma rede DLT.

Empresas que apenas desenvolvem softwares, sem participar diretamente da prestação de serviços financeiros relacionados a ativos virtuais, também não são classificadas automaticamente como prestadoras reguladas.

As empresas autorizadas não podem realizar intermediação financeira — atividade que envolve captar recursos do público para conceder crédito ou realizar aplicações financeiras. Também ficam impedidas de utilizar os ativos mantidos em nome dos clientes sem autorização expressa.

“O dinheiro eletrônico segue o caminho do dinheiro eletrônico; os valores mobiliários seguem o caminho dos valores mobiliários; e os ativos virtuais seguem este novo caminho. Tudo dentro do mesmo sistema financeiro”, resumiu Tudisco.

Estruturas distintas, princípios semelhantes

Os modelos apresentados refletem duas estratégias institucionais distintas.

El Salvador criou um regulador especializado, separado das autoridades responsáveis pelo sistema financeiro tradicional. O Uruguai, por sua vez, decidiu incorporar o novo setor à estrutura existente do Banco Central.

Apesar da diferença, Reyes e Tudisco convergiram em três pontos: autorização prévia em vez de simples registro, supervisão permanente e adoção de regras voltadas à proteção do consumidor e à prevenção de crimes financeiros.

Para Reyes, a CNAD funciona como uma oficina especializada em carros elétricos, construída especificamente para lidar com ativos baseados em código. No modelo uruguaio, a nova tecnologia passa a ocupar uma via regulatória própria, mas dentro da mesma estrutura financeira que supervisiona bancos, meios de pagamento e o mercado de valores.

Os dois modelos mostram que a discussão regulatória na América Latina deixou de se limitar à decisão entre permitir ou proibir criptomoedas. O debate agora se concentra em qual instituição deve supervisionar o setor, quais atividades exigem licença e como integrar ativos tokenizados ao sistema financeiro.

Peru aposta em novo trilho para aproximar pagamentos e ativos digitais

Durante o painel, o Peru está desenvolvendo uma nova infraestrutura de pagamentos instantâneos inspirada na Unified Payments Interface (UPI), sistema adotado na Índia. Batizada de Tapp — sigla para Transferências Automáticas de Pagamentos Peruanos —, a plataforma deverá entrar em fase de testes até o fim de 2026 e começar a receber participantes a partir de 2027.

O cronograma foi apresentado por Omar Ghurra, chefe do Departamento de Inovação e Promoção de Pagamentos Digitais do Banco Central de Reserva do Peru (BCRP). Segundo ele, a iniciativa busca criar novos casos de uso e permitir a convivência entre contas bancárias, carteiras digitais e serviços associados a ativos digitais.

Ghurra defendeu a criação de espaços que aproximem o setor privado, que acompanha diretamente o desenvolvimento das inovações, e o poder público, responsável pela construção das regras.

Para o executivo, o desafio é estabelecer uma regulação inteligente, capaz de proteger usuários e preservar a estabilidade do sistema sem impedir o crescimento do ecossistema. Esses ambientes de diálogo também permitem que empresas interessadas em atuar no Peru conheçam os projetos e as condições de operação no país.

O desenvolvimento da Tapp ocorre em meio à rápida expansão dos meios digitais de pagamento no mercado peruano. Em 2020, eram realizadas, em média, aproximadamente 55 operações digitais por adulto ao ano. Em 2025, o indicador superou 650 transações — foram 665, conforme os dados oficiais do BCRP.

“Se compararmos 2025 com 2020, o número de pagamentos digitais por adulto cresceu mais de 12 vezes. Em 2020, a média era de 55 pagamentos digitais por ano. No ano passado, esse indicador passou de 650”, afirmou Ghurra, em tradução livre.

Parte dessa expansão foi impulsionada pela digitalização provocada pela pandemia. O movimento, no entanto, não se limitou à mudança de comportamento dos usuários. O mercado também passou a contar com mais participantes, novos casos de uso e soluções voltadas tanto aos consumidores quanto aos estabelecimentos comerciais.

“Primeiro, tivemos mais participantes, mais casos de uso, mais inovação e melhores soluções para as pessoas e para os comércios”, disse.

O aumento acelerado das transações também criou novos desafios. Segundo Ghurra, a qualidade dos serviços, a experiência do usuário e a infraestrutura que sustenta as operações nem sempre avançam no mesmo ritmo do volume de pagamentos.

A Tapp foi concebida como uma nova camada de infraestrutura para responder a essa expansão. Ghurra comparou o projeto ao movimento realizado pelo Brasil com o Pix, embora a solução peruana utilize como referência tecnológica e operacional a UPI indiana.

“Assim como o Brasil tem o caso de grande sucesso do Pix, estamos implementando uma nova plataforma para realizar pagamentos a partir de carteiras digitais. É um sistema baseado na infraestrutura UPI existente na Índia. É basicamente o mesmo modelo, mas adaptado às regras peruanas. Em todos os países é diferente, mas a ideia é que funcione de maneira semelhante”, afirmou.

A plataforma trabalhará com o modelo de iniciação de pagamentos. Nessa arquitetura, uma instituição ou aplicativo pode iniciar uma transação em uma conta mantida por outro participante, desde que tenha a autorização do cliente. Isso permite uma maior especialização dos papéis e reduz a necessidade de que cada carteira construa, isoladamente, toda a infraestrutura financeira.

De acordo com Ghurra, as contas poderão ser vinculadas a diferentes carteiras e interfaces. O modelo pode funcionar como uma ponte entre os meios tradicionais de pagamento e prestadores de serviços digitais, inclusive empresas que oferecem carteiras relacionadas a ativos digitais, mas não mantêm contas de depósito.

A Tapp não será uma blockchain nem uma plataforma para negociação de criptoativos. A aproximação com o mercado de ativos digitais ocorrerá na camada de iniciação e das carteiras, permitindo que diferentes serviços se conectem aos trilhos de pagamentos peruanos.

Com uma infraestrutura comum, o BCRP espera reduzir custos e tornar as transações mais rápidas, além de facilitar a criação de produtos e aplicações que hoje dependem de integrações individuais.

“Com essa plataforma, será possível massificar esses serviços, torná-los potencialmente mais baratos e avançar para outra etapa, oferecendo novos casos de uso”, disse Ghurra.

Segundo o executivo, o projeto deverá alcançar seus pilotos finais até o fim de 2026. Na sequência, o Banco Central peruano pretende abrir a infraestrutura para a entrada gradual dos participantes.

“A plataforma está projetada para chegar aos pilotos finais neste ano. À medida que esses testes forem realizados nos próximos meses, começaremos a abrir a participação para quem quiser fazer parte a partir de 2027”, afirmou.

A Cointelegraph está comprometida com um jornalismo independente e transparente. Este artigo de notícias é produzido de acordo com a Política Editorial da Cointelegraph e tem como objetivo fornecer informações precisas e oportunas. Os leitores são incentivados a verificar as informações de forma independente. Leia a nossa Política Editorial https://cointelegraph.com.br/editorial-policy

Mais sobre o assunto