Alguns dos maiores bancos do Brasil, como Banco do Brasil, Santander, Itaú, Safra, Caixa e Banco BV entraram oficialmente no mercado de tokenização e vão emitir tokens RWA em um projeto da Anbima.
Os bancos, assim como empresas tradicionais de tokenização no Brasil, como Mercado Bitcoin, Liqi e Capitare, foram selecionadas para o Projeto‑piloto de Tokenização da Anbima que avança para a fase de testes após receber 39 propostas do mercado, das quais 20 foram selecionadas para aplicações práticas da tecnologia em debêntures e fundos de investimento.
“Este piloto cria as condições necessárias para testar interoperabilidade, governança e eficiência operacional em um ambiente próximo ao real. Esse processo tende a evidenciar ganhos relevantes, como redução de custos, maior transparência e automação de eventos, mas também vai expor desafios críticos, especialmente em padronização, integração entre participantes e enquadramento regulatório. O fato de instituições tradicionais e players nativos digitais participarem juntos reforça que o movimento é estrutural, e não incremental”, afirma Rodrigo Caggiano, fundador da Capitare e do RWA Monitor.
As iniciativas escolhidas foram apresentadas de forma individual ou em consórcio por mais de 50 instituições, entre bancos, gestoras de recursos e empresas de tecnologia.
Os testes vão acompanhar todas as etapas do ciclo de vida dos ativos, como estruturação, emissão, transferência, eventos e liquidação. O projeto-piloto busca simular, em ambiente controlado, o funcionamento completo de ativos tokenizados.
“A expressiva participação do mercado, com 39 propostas inscritas, reforça a relevância dessa iniciativa. A fase de testes permitirá avaliar soluções na prática, mapear gargalos operacionais e apoiar a construção de referências comuns para o desenvolvimento da tokenização no mercado de capitais”, afirma Eric Altafim, diretor da Anbima.
Tokenização
De acodo com a Anbima, o objetivo é gerar aprendizados práticos, a partir da reprodução de desafios reais do mercado, contribuindo para avaliar o potencial da tecnologia para a infraestrutura do mercado de capitais. As propostas selecionadas refletem a diversidade de abordagens e de instituições envolvidas no desenvolvimento da tokenização no mercado de capitais.
Caso de uso: debêntures e fundos (10 propostas)
Testes em fundos e debêntures funcionando juntos na mesma infraestrutura DLT, com foco na integração de fluxos, regras e eventos ao longo do ciclo de vida dos ativos.
Consórcio: Galápagos Capital e Liqi Digital Assets; Itaú Unbanco
Consórcio: Braza Bank, Libertas Asset, Actual DTVM, Ripple Brasil e BBChain;
Consórcio: BBVA e VERT Capital;
Consórcio: TokenOne, Banrisul e NF Securitizadora;
Consórcio: Banco do Brasil, BB‑BI, Caixa, Inter Asset, Inter DTVM, Núclea, RealPrice, BBChain e GoLedger.
Consórcio: Banco do Nordeste, BBChain e Britech;
Consórcio: Oliveira Trust e Liqi Digital Assets;
Consórcio: AmFi, Travessia Securitizadora e Pier Gestora;
Consórcio: Banco BNP Paribas, BBChain e RTM.
Caso de uso: Debêntures (7 propostas)
Foco na emissão, gestão e liquidação de debêntures nativamente digitais.
Consórcio: Banco BV, Banco Inter e Kaleido;
Consórcio: BZLog, Finchain, Finventures e Dojo; BTG Pactual
Consórcio: Mercado Bitcoin e Capitare;
Consórcio: Banco Santander e Evertec; B3
Consórcio: Laqus e Bitshopp.
Caso de uso: Fundos de investimento (3 propostas)
Operação de fundos de investimento por meio de smart contracts, com testes de governança e processos automatizados.
Consórcio: Apex Group, MAPS S.A. e Inspire IP;
Consórcio: Banco Safra, Hamsa e IBM; Bradesco
Próximos passos do projeto
A fase de testes tem duração prevista de cerca de seis meses. Ao longo desse período, as propostas serão acompanhadas de perto, com troca estruturada entre os participantes e registro dos principais desafios e aprendizados.
O piloto acontece em ambiente controlado, sem movimentação de recursos reais e sem a participação de investidores, criando um espaço para experimentação em condições muito próximas à realidade, porém em um ambiente protegido. Os testes são realizados em uma rede DLT, pensada pelo mercado e para o mercado, com foco em troca de experiências e geração de aprendizados práticos.
Todo o conhecimento será compartilhado com o mercado, contribuindo para ampliar o conhecimento sobre essa agenda, a preparação do mercado para uso da nova tecnologia e para apoiar discussões futuras sobre o tema.
A iniciativa é liderada pela Rede ANBIMA de Inovação, grupo plural que conecta o mercado financeiro à comunidade de inovação.
Tokenização no Brasil
De acordo com Jeremy Ng, fundador e CEO da plataforma de tokenização global OpenEden, o Brasil é hoje um dos mercados mais reveladores para a tokenização, não por ser o mais avançado, mas por refletir uma demanda real.
Trata-se do maior mercado cripto da América Latina e ocupa a 5ª posição no Índice Global de Adoção de Cripto da Chainalysis em 2025. A tokenização de crédito privado, recebíveis e pagamentos judiciais ganhou escala porque resolve um problema estrutural desses mercados: custo elevado e fragmentação. A infraestrutura institucional também começa a acompanhar esse movimento, com a B3 lançando uma plataforma de tokenização e uma stablecoin em 2026, enquanto o Banco Central do Brasil estabelece um regime de licenciamento com padrão bancário para prestadores de serviços de ativos virtuais.
Segundo ele, enquanto o Brasil avança no crédito privado, o restante do mundo tende a se apoiar em mercados públicos líquidos, como fundos de mercado monetário e dívida soberana. São pontos de entrada diferentes, mas com a mesma lógica subjacente: a tokenização ganha tração onde resolve um problema concreto.
Nos próximos cinco anos, apesar das manchetes sobre uma migração total do mercado acionário para o ambiente on-chain, não espero que as ações façam essa transição de forma completa. O cenário mais provável é que ativos tokenizados conquistem espaço dentro dos sistemas financeiros existentes, sendo utilizados como colateral para instituições, instrumentos de rendimento em operações de tesouraria e ativos de liquidação entre contrapartes. A tokenização de ações em larga escala deve ocorrer apenas depois que essas bases estiverem consolidadas.
No caso específico do Brasil, Jeremy apona que o principal desafio para sustentar o crescimento é mais estrutural do que técnico. Sem a aplicabilidade legal da propriedade registrada on-chain e sem alinhamento regulatório internacional, o capital global tende a enfrentar barreiras para acessar o mercado brasileiro. Essa mesma dinâmica se repete em diversos mercados emergentes, onde ativos tokenizados são eficientes no contexto local, mas permanecem isolados no cenário global.

