
B3 'vende' vaca tokenizada e já arrecada mais de R$ 100 mil
Dez vacas leiteiras avaliadas em R$ 120 mil garantiram uma operação de crédito rural registrada na infraestrutura da bolsa brasileira

Dez vacas leiteiras tokenizadas garantiram uma operação de crédito de R$ 100 mil registrada na B3. A iniciativa conecta monitoramento em tempo real, ativos do mundo real (RWA) e mercado de capitais para ampliar o acesso de produtores rurais a financiamento.
De acordo com a CNN, a operação utilizou animais da Fazenda Engenho Velho, em Imbituva, no Paraná. As vacas, avaliadas em conjunto em R$ 120 mil, serviram como garantia para uma Cédula de Produto Rural Financeira (CPR-F) de R$ 100 mil.
A BMP Sociedade de Crédito Direto originou a CPR-F e concedeu os recursos ao produtor. Depois, a Target FIDC adquiriu os direitos creditórios e registrou a operação na B3. A agtech Cowmed forneceu a tecnologia usada para monitorar e criar a identidade digital de cada animal.
Assim, a estrutura utiliza a representação digital do rebanho para vinculá-lo a um contrato de crédito e comprovar a garantia durante todo o financiamento. O RWA Monitor indica que o mercado brasileiro de ativos reais tokenizados movimentou R$ 6,87 bilhões em 684 ativos emitidos até julho de 2026, impulsionado por normas da CVM e projetos-piloto.
Coleiras transformam vacas em garantias digitais
Cada vaca utiliza uma coleira inteligente que coleta informações sobre localização, saúde, atividade, ruminação e comportamento. A plataforma associa esses dados a um identificador digital exclusivo, vinculado à CPR-F registrada na infraestrutura da B3.
O sistema permite que o financiador acompanhe a existência, a localização e as condições dos animais sem depender exclusivamente de inspeções presenciais. A tecnologia também reduz o risco de o produtor apresentar o mesmo rebanho como garantia em diferentes financiamentos.
“Nós pegamos a vaca, que é um ativo real e tangível, e a transformamos em um ativo digital”, afirmou Thiago Martins, CEO da Cowmed. Segundo o executivo, o monitoramento contínuo aproxima o rebanho das exigências de controle e rastreabilidade das instituições financeiras.
Tokenização pode elevar valor do rebanho como garantia
A falta de dados atualizados sobre localização, saúde e condições dos animais costuma levar bancos e fundos a aplicar descontos elevados na avaliação dos rebanhos. Segundo Humberto Brenner, diretor da Target FIDC, uma vaca avaliada em R$ 20 mil poderia valer apenas R$ 8 mil como garantia em uma estrutura tradicional.
O monitoramento reduz essa diferença ao fornecer informações contínuas sobre o ativo. Com isso, a instituição financeira pode aproximar a avaliação da garantia do valor de mercado do animal e ampliar o volume de crédito disponível ao produtor.
Os recursos não precisam financiar apenas a compra de insumos diretamente relacionados à produção de leite. O produtor também pode utilizar o dinheiro como capital de giro, comprar equipamentos, cobrir despesas operacionais ou financiar custos anteriores ao próximo ciclo produtivo.
A estrutura ainda prevê uma reserva de aproximadamente 20% em animais adicionais. Caso uma vaca morra ou deixe de atender aos critérios do contrato, o produtor pode substituí-la digitalmente e manter a relação entre o valor do financiamento e as garantias.
A Cowmed afirma que sua tecnologia monitora em tempo real mais de 100 mil vacas em mais de mil propriedades. A empresa estima em mais de R$ 2 bilhões o valor do rebanho acompanhado por sua plataforma.
A expectativa dos responsáveis pelo projeto é levar a modalidade a aproximadamente 20% dessa base. Caso a projeção se confirme, os financiamentos garantidos por rebanhos tokenizados poderão movimentar cerca de R$ 400 milhões.

