
Stablecoins fortalecem o dólar em meio à desdolarização, diz Janet Yellen em evento da XP
Ex-presidente do Fed defende lastro integral e supervisão para stablecoins, mas reconhece potencial em pagamentos internacionais.

Nesta quinta-feira, 23, durante a Expert XP, em São Paulo, Janet Yellen, ex-secretária do Tesouro dos Estados Unidos e ex-presidente do Federal Reserve (Fed), afirmou que o crescimento das stablecoins fortalece o dólar, mesmo em um cenário no qual governos e bancos centrais procuram reduzir a dependência da moeda norte-americana.
Segundo Yellen, as sanções aplicadas pelos Estados Unidos e o congelamento dos ativos russos após a invasão da Ucrânia aceleraram a busca por alternativas ao dólar. No entanto, a expansão das stablecoins produz um movimento contrário, pois a maior parte desses ativos mantém paridade com a moeda dos Estados Unidos.
“A maior parte das stablecoins está baseada em dólares, e isso fortalece o dólar”, afirmou.
Yellen também reconheceu que stablecoins e depósitos tokenizados podem tornar os pagamentos internacionais mais rápidos e baratos. Ao mesmo tempo, ela defendeu lastro integral, supervisão regulatória e mecanismos de proteção aos clientes para evitar que esses ativos provoquem crises no sistema financeiro.
Stablecoins ampliam alcance internacional do dólar
Yellen afirmou que o dólar ainda ocupa pouco mais de 50% das reservas mantidas mundialmente, abaixo dos cerca de 70% registrados anteriormente. Ao mesmo tempo, bancos centrais aumentaram suas posições em ouro como forma de diversificar as reservas.
Para a ex-secretária do Tesouro, parte desse movimento começou após a decisão do G7 e de outros países de congelar, em 2022, ativos da Rússia em resposta à invasão da Ucrânia.
Yellen reconheceu que a medida enviou uma mensagem para governos que temem enfrentar sanções norte-americanas no futuro. Esses países passaram a procurar alternativas que reduzam sua exposição ao dólar e ao sistema financeiro dos Estados Unidos.
China, Rússia, Irã e outras economias sujeitas a sanções desenvolvem sistemas de pagamento e acordos comerciais que evitam a moeda norte-americana. Yellen, contudo, avaliou que nenhuma outra moeda reúne atualmente condições para substituir o dólar.
Segundo ela, os Estados Unidos oferecem mercados profundos e líquidos, segurança jurídica e apoio institucional. A zona do euro, por exemplo, não possui um único mercado de títulos com as mesmas características do mercado norte-americano. O yuan, por sua vez, ainda enfrenta limitações provocadas pelos controles de capital adotados pela China.
Yellen também afirmou que mais de 80% das transações internacionais ainda passam pelo dólar. Em uma operação entre Brasil e França, por exemplo, o comprador pode converter reais em dólares antes de transformar os recursos em euros.
Nesse contexto, as stablecoins ampliam a presença da moeda norte-americana fora da infraestrutura bancária tradicional. Pessoas e empresas podem movimentar tokens atrelados ao dólar em redes blockchain, inclusive em países nos quais o acesso direto a contas bancárias em dólares permanece limitado.
Yellen defende lastro integral e supervisão
Apesar de enxergar potencial nas stablecoins, Yellen defendeu regras semelhantes às aplicadas a depósitos bancários e fundos do mercado monetário. Segundo ela, os emissores prometem converter os tokens em dólares na proporção de um para um e, por isso, precisam manter reservas capazes de garantir os resgates.
“A regulação necessária para stablecoins deveria ser comparável à que usamos para fundos do mercado monetário ou depósitos bancários”, afirmou.
Yellen defendeu que os emissores mantenham lastro integral composto por ativos seguros, como títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Ela também mencionou a necessidade de supervisão e proteção aos clientes.
A economista reconheceu que o setor privado pode usar stablecoins para desenvolver pagamentos internacionais mais rápidos e baratos. Ela também incluiu os depósitos tokenizados entre as tecnologias que podem melhorar a movimentação de recursos entre países.
“Até o ponto em que essas inovações possam ser usadas para pagamentos internacionais de forma mais rápida e barata, isso seria bem-vindo”, disse.
Para Yellen, a inovação privada pode produzir vantagens para consumidores e empresas, mas precisa avançar acompanhada de regras. A ausência de fiscalização se tornaria mais perigosa à medida que as stablecoins conquistassem espaço no sistema de pagamentos.
Caso um emissor não consiga honrar resgates ou manter o valor de seus tokens, uma corrida para retirada dos recursos poderia atingir clientes, instituições financeiras e outros participantes do mercado. Yellen alertou que uma participação relevante sem regulação poderia provocar instabilidade financeira e crises reais.
Stablecoins e criptomoedas são diferentes
Ao responder a uma pergunta de Caio Megale, economista-chefe da XP, sobre a regulamentação do mercado cripto, Yellen separou as stablecoins das demais criptomoedas. Para a ex-presidente do Fed, os dois grupos possuem características diferentes e não devem receber automaticamente o mesmo tratamento regulatório.
“Stablecoins e criptomoedas, para mim, são coisas muito diferentes”, declarou.
Yellen concentrou sua análise nos tokens que prometem manter paridade com moedas fiduciárias. Essa promessa de conversão aproxima as stablecoins de depósitos bancários e fundos do mercado monetário, além de criar a necessidade de reservas, supervisão e regras para resgates.
Criptomoedas como Bitcoin e Ether não prometem manter paridade com o dólar nem dependem de um emissor responsável por garantir a conversão dos ativos. Os preços desses criptoativos variam de acordo com a oferta e a demanda no mercado.
Durante essa parte do painel, Yellen não detalhou qual modelo regulatório considera adequado para Bitcoin, Ether ou outras criptomoedas sem lastro em moedas nacionais. Sua defesa de reservas integrais, ativos seguros e proteção aos clientes ficou concentrada nas stablecoins.

