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Escrito por Cassio Gussonstaff writerRevisado por Lucas Caramstaff editor

Axia (antiga Eletrobras) testa usina heliotérmica no Nordeste para atrair mineradores de Bitcoin

Últimas NotíciasPublicadoJun 16, 2026

Projeto da Axia combina energia solar concentrada, minirrede elétrica e testes com grandes consumidores em Casa Nova, na Bahia; Radius Mining firma contrato de O&M e mira uso de energia renovável desperdiçada para mineração institucional de BTC

Em Casa Nova, na Bahia, a Axia Energia testa uma minirrede elétrica capaz de simular a entrada de grandes consumidores no sistema, entre eles data centers, fábricas de hidrogênio verde e operações de mineração de Bitcoin.

A iniciativa ocorre em paralelo a uma usina heliotérmica piloto instalada pela companhia em Petrolina, em Pernambuco, onde 247 grandes espelhos refletem a radiação solar para uma torre de 40 metros.

A usina de Petrolina usa energia heliotérmica, também chamada de energia solar concentrada. No local, os espelhos se movimentam automaticamente para direcionar o máximo de radiação possível ao topo da torre, onde ficam coletores fotovoltaicos de alta capacidade, semelhantes aos usados em satélites e estações espaciais.

A tecnologia ainda é inédita no Brasil e faz parte de um projeto de pesquisa e desenvolvimento da Axia, antiga Eletrobras, com recursos obrigatórios do programa de inovação regulado pela Agência Nacional de Energia Elétrica, a Aneel.

Segundo a companhia, o objetivo é transformar o vale do rio São Francisco em um hub de inovação em energia. A região reúne forte potencial solar e eólico, mas também enfrenta um problema crescente: a energia renovável produzida em determinados horários nem sempre consegue ser absorvida pela rede.

Esse fenômeno, conhecido como curtailment, ocorre quando usinas precisam reduzir ou interromper a geração por ordem do operador do sistema, mesmo com vento ou sol disponíveis.

O gerente de Pesquisa e Desenvolvimento em Renováveis da Axia, Rodrigo Vilaça, afirmou para a Folha de São Paulo, que a busca por soluções para esses cortes se tornou um dos principais desafios do setor. Em 2025, cerca de 20% da capacidade de geração solar e eólica do país sofreu cortes involuntários determinados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico, o ONS, motivados pelo excesso de energia durante períodos de maior insolação. Segundo a consultoria Volt Robotics, o prejuízo para as geradoras chegou a R$ 6,5 bilhões.

Energia desperdiçada vira oportunidade para data centers e mineração de Bitcoin

A usina heliotérmica de Petrolina testa uma tecnologia que melhora a captação da energia solar e também produz calor. Esse calor pode ser armazenado e usado em diferentes aplicações, inclusive para gerar eletricidade durante a noite ou atender indústrias que demandam calor em seus processos produtivos, como atividades ligadas à produção de frutas no vale do São Francisco.

A unidade piloto tem capacidade informada de 1 GW de energia solar, suficiente, segundo o material do projeto, para abastecer cerca de mil residências, além de 2,2 GW de energia térmica.

O projeto usa tecnologia desenvolvida na Austrália pela startup RayGen. A solução elimina a necessidade de sal fundido para armazenar energia térmica, uma etapa comum em alguns modelos de energia solar concentrada, e pode reduzir custos.

De acordo com as informações do projeto, a planta brasileira é a segunda desse tipo em teste no mundo. Dados da Irena, a Associação Internacional de Energias Renováveis, apontam que o mundo tinha 7,5 GW instalados em usinas de concentração de calor solar ao fim de 2024, com maior presença em países da União Europeia.

Na vizinha Casa Nova, na Bahia, a Axia implantou um sistema elétrico em miniatura, com geração solar, geração eólica, baterias para armazenamento e simuladores de grandes consumidores. Entre os perfis testados estão indústrias, data centers e mineração de Bitcoin. A ideia é entender como a rede se comporta diante da entrada de cargas flexíveis e intensivas em energia, justamente o tipo de consumo que poderia ajudar a absorver excedentes de geração renovável.

Esses consumidores são vistos como parte da solução para reduzir os cortes de energia. Projetos de hidrogênio verde, por exemplo, podem demandar cargas próximas de 1,5 GW médios, quase o equivalente à capacidade da usina nuclear Angra 2.

O problema é que estudos dinâmicos feitos pelo ONS indicam que, nas condições atuais, esses projetos podem criar riscos para a rede de transmissão. Por isso, o operador tem dificultado autorizações de conexão para determinados grandes consumidores.

O minissistema elétrico da Axia já contribuiu para a formação de 15 mestres e 5 doutores, além do desenvolvimento de softwares específicos. Ele também está conectado a parques eólicos da própria Axia que sofrem cortes involuntários de geração. Vilaça descreve o impacto do curtailment ao observar torres eólicas paradas por determinação do ONS nos horários de maior geração solar.

“Sempre que eu venho aqui, dá uma tristeza”, afirmou. “Quando chego pela manhã, elas estão funcionando. Na hora do almoço, já estão paradas.”

Radius Mining firma contrato com Axia e mira mineração institucional com energia renovável

De olho no potencial energetico do Brasil, recentemente a Radius Mining, fechou um contrato de O&M, operação e manutenção, com a Axia.

A Radius nasce de olho no desperdício estimado em R$ 2,4 bilhões por ano em energia não aproveitada por limitações do sistema elétrico e no potencial brasileiro de gerar R$ 9,7 bilhões por ano em receita com mineração de criptoativos. A companhia já conta com investimento próprio e uma rodada seed que somam R$ 28 milhões, além de uma prova de conceito de 6 MW médios. O objetivo é usar data centers modulares para consumir energia renovável que, sem demanda local ou capacidade de transmissão, acabaria cortada do sistema.

A proposta da emrpesa é transformar a mineração institucional de Bitcoin em uma carga flexível para o setor elétrico. Diferentemente de indústrias tradicionais, os equipamentos de mineração podem ser conectados próximos às fontes de geração e ajustados conforme a disponibilidade de energia. Isso permite que geradoras monetizem parte da produção que hoje seria desperdiçada, sem depender imediatamente de grandes obras de transmissão.

A primeira operação proprietária da Radius deve consumir cerca de 6 MW médios, com 1.064 ASICs, equipamentos específicos para mineração de Bitcoin. A estimativa é que a operação consuma aproximadamente 315,4 GWh em seis anos, com custo total de energia de R$ 65 milhões no período. Inicialmente, a companhia pretende operar com energia que seria desperdiçada. Em termos comparativos, os 6 MW médios equivalem a um mês de energia para atender uma cidade com cerca de 24 mil habitantes.

A tese da companhia também se apoia na matriz elétrica brasileira. Segundo estudo conduzido pela Radius, 87% da matriz elétrica do país vem de fontes renováveis, enquanto mais de 40 companhias do setor elétrico enfrentam perdas recorrentes. A empresa avalia que a mineração pode funcionar como uma solução institucional para absorver energia limpa que hoje não chega ao consumidor final por gargalos de infraestrutura e restrições regulatórias.

Para lávio Hernandez, fundador da empresa, o Brasil reúne condições raras para transformar esse problema em oportunidade.

“O Brasil tem uma combinação rara de fatores: uma das matrizes mais limpas do mundo, custo competitivo de energia e, agora, a intenção de formar um cenário regulatório que incentiva o uso inteligente dessa abundância. A mineração institucional já se provou nos EUA como peça-chave para a infraestrutura de energia elétrica, agora chegou a hora do Brasil”, afirmou.

Ele também defende que a mineração de Bitcoin pode competir com outras alternativas de consumo flexível por exigir menor investimento inicial. “A mineração de bitcoin é hoje a forma mais eficiente e com capex mais competitivo para se obter carga flexível que aproveite energia elétrica desperdiçada”, disse.

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