
Apesar da queda, Bitcoin amadureceu como ativo macro em 2026, aponta Binance
Criptomoeda recuou 32% no período sob pressão macroeconômica; investidores de longo prazo absorveram parte da oferta vendida por ETFs, mineradoras e empresas

O Bitcoin (BTC) entrou em uma nova fase no primeiro semestre de 2026, com seu desempenho cada vez mais influenciado por fatores macroeconômicos globais, como liquidez, juros reais e força do dólar, aponta relatório da Binance Research.
De acordo com a publicação “Half-Year 2026: Macro & Bitcoin”, o criptoativo encerrou junho cotado próximo de US$ 60,1 mil, após fechar 2025 em torno de US$ 88,4 mil, acumulando queda de aproximadamente 32% no ano.
O movimento representou uma ruptura em relação aos dois anos anteriores, quando o Bitcoin foi impulsionado principalmente por fatores internos do mercado de criptomoedas.
Em 2026, condições financeiras mais restritivas, mudanças nas expectativas em relação aos juros, riscos geopolíticos e o redirecionamento de capital para investimentos ligados à inteligência artificial (IA) passaram a exercer maior influência sobre o desempenho do ativo, que se torna cada vez mais mainstream e deixa de ser ativo de nicho.

Desempenho das métricas do Bitcoin ano a ano
Bitcoin passa a responder mais ao cenário macroeconômico
Durante o primeiro semestre, o Bitcoin apresentou desempenho inferior ao de todas as principais classes de ativos, enquanto os principais índices acionários dos EUA encerraram o período próximos das máximas históricas registradas em maio. O ouro, por sua vez, terminou o semestre com recuo superior a 7%.

O Bitcoin foi o ativo com pior desempenho no primeiro semestre.
A pressão sobre o BTC esteve relacionada principalmente ao aumento dos juros reais. O choque nos preços do petróleo reacendeu preocupações com a inflação, levou o mercado a precificar uma política monetária mais restritiva e fortaleceu o dólar norte-americano, que mantém correlação inversa com o Bitcoin.
Para a Binance Research, o comportamento do ativo reforça a mudança de posicionamento do Bitcoin nos portfólios. A cripto passou a ser mais bem compreendida como um ativo macro impulsionado por liquidez, e não apenas como uma proteção (hedge) ao risco ou uma extensão do mercado de ações.
Correção pressiona antigos motores de demanda do Bitcoin
A queda do Bitcoin também afetou os principais canais de demanda que sustentaram o mercado nos anos anteriores. Pela primeira vez, os ETFs de BTC à vista nos EUA registraram fluxo líquido negativo no acumulado do ano. Enquanto isso, as compras realizadas por tesourarias corporativas se tornaram mais concentradas e as mineradoras de capital aberto reduziram suas reservas em ritmo recorde.
Apesar disso, a correção não representou apenas uma saída generalizada de investidores. O movimento também marcou uma mudança relevante na composição dos detentores de Bitcoin, com a oferta liberada por ETFs, tesourarias e mineradoras sendo absorvida por investidores de longo prazo e grupos com menor sensibilidade às oscilações de preço.
“O primeiro semestre de 2026 pode ser interpretado como uma fase de redistribuição de posições em um mercado cada vez mais maduro, à medida que o papel do Bitcoin como classe de ativo continua a evoluir”, aponta a Binance Research.
ETFs registram saídas líquidas de US$ 5,4 bilhões
O primeiro semestre representou o primeiro grande teste para os instrumentos institucionais que ganharam relevância no mercado de Bitcoin nos últimos anos. No acumulado de 2026, os ETFs de BTC registraram saídas líquidas de US$ 5,4 bilhões, incluindo uma sequência de 13 dias de resgates.

Os fluxos de ETFs de BTC à vista nos EUA sofreram uma forte reversão após abril, com fluxos líquidos acumulados no ano de -US$ 5,4 bilhões
As reservas de BTC mantidas por esses ETFs encerraram junho em aproximadamente 1,21 milhão, cerca de 11% abaixo do pico de outubro de 2025, de aproximadamente 1,36 milhão de BTC. Ainda assim, os fluxos líquidos acumulados desde o lançamento permaneceram acima de US$ 51 bilhões.
“O comportamento dos ETFs de BTC à vista ao longo de um ciclo completo de mercado ainda não foi testado, e a correção de 2026 representa a primeira evidência relevante nesse sentido. Como uma parcela substancial dos fluxos é guiada por estratégias ou posicionamentos de mercado, esses movimentos podem amplificar tendências, mas também podem perder força. Assim, uma retomada sustentada de entradas líquidas seria um sinal importante de uma possível reversão do mercado”, destaca a Binance Research.
Strategy segue acumulando BTC
No segmento corporativo, as reservas de BTC mantidas por empresas listadas cresceram de 1,13 milhão de BTC no fim de 2025 para 1,28 milhão em junho. No entanto, esse crescimento ficou altamente concentrado: a Strategy elevou sua posição de 672,5 mil para cerca de 847 mil BTC, enquanto as demais empresas, juntas, reduziram suas reservas em 17,7 mil BTC.
Com isso, a Strategy respondeu por mais de 100% do crescimento líquido do setor no primeiro semestre e passou a representar cerca de 66% das reservas corporativas de BTC de companhias listadas.
Ao final do semestre, aproximadamente 10,83 milhões de BTC estavam mantidos com perdas não realizadas, contra cerca de 9,22 milhões de BTC ainda em posição de lucro. Esse foi o primeiro momento do ciclo atual em que a quantidade de Bitcoin em prejuízo superou a quantidade em lucro.
Historicamente, essa reversão ocorreu durante fases mais amplas de formação de fundo do mercado, mas não identificou de forma confiável o momento exato nem a profundidade final de uma mínima de mercado.

A rentabilidade da oferta de BTC retornou aos níveis de estresse do ciclo anterior.
Em que ponto estamos no ciclo do Bitcoin?
O Bitcoin encerrou o primeiro semestre de 2026 com uma queda superior a 50% em relação à máxima histórica de outubro de 2025, mas a retração permaneceu significativamente menor do que as quedas completas registradas nos dois ciclos anteriores, de aproximadamente 84,2% e 77,6%.
Segundo a Binance Research, o ciclo atual ainda está em andamento e, portanto, deve ser interpretado como a correção mais branda registrada até agora, e não como o menor ciclo de queda já concluído.

A atual queda do Bitcoin permanece menos acentuada do que em ciclos anteriores.
A análise histórica mostra que os três ciclos anteriores atingiram suas mínimas entre 363 e 410 dias após seus respectivos topos históricos (12 a 13 meses depois). No início de julho, o ciclo atual estava cerca de 275 dias após o pico de outubro de 2025.
Caso esse padrão histórico se mantenha, a janela potencial para formação de fundo ocorreria no quarto trimestre de 2026. A Binance Research ressalta, porém, que esse cenário deve ser interpretado apenas como uma referência, e não como uma previsão, já que as condições monetárias, regulatórias e institucionais atuais são diferentes dos ciclos anteriores.

O BTC está agora a 275 dias de suas máximas históricas.
Próximos movimentos do Bitcoin
Para a Binance Research, a trajetória do Bitcoin no segundo semestre dependerá principalmente de três fatores:
- Liquidez e juros: a principal restrição macroeconômica permanece sendo a combinação de juros reais elevados e dólar forte. Uma recuperação sustentável exigiria uma mudança mais ampla na expectativa sobre a política monetária e nas condições financeiras globais, e não apenas um movimento pontual relacionado à inflação.
- Demanda institucional: uma retomada consistente dos fluxos para os ETFs de BTC à vista, com entradas líquidas por várias semanas consecutivas e participação distribuída entre diferentes emissores, seria um sinal mais relevante do que movimentos isolados de alta. Além disso, essa recuperação também precisaria ser acompanhada por maior volume no mercado à vista.
- Exaustão dos vendedores: a continuidade da acumulação por detentores de longo prazo, a melhora dos indicadores de rentabilidade e a redução das vendas por mineradoras e empresas com tesouraria em Bitcoin seriam sinais de que a transferência de oferta está próxima de sua conclusão.
“Nossa interpretação principal é que o Bitcoin entrou em uma fase mais avançada de um ciclo corretivo. Embora o primeiro semestre não tenha apresentado evidências suficientes para confirmar uma mínima sustentável, um fundo no quarto trimestre de 2026 continua sendo um cenário histórico plausível”, afirma a Binance Research.
A confirmação mais forte, segundo o braço de análises, viria de uma combinação de redução da pressão dos juros reais, entradas sustentadas nos ETFs de BTC à vista e continuidade da absorção de oferta no mercado on-chain, sem uma retomada das vendas por parte de mineradoras, tesourarias corporativas ou detentores de longo prazo.

