O avanço da tokenização de ativos no Brasil já coloca o país à frente de mercados mais tradicionais, como Estados Unidos e parte da Europa, na avaliação de Diego Consimo, head de Business Development para América Latina da XDC Network.
Em entrevista ao Cointelegraph Brasil, o executivo afirmou que o mercado brasileiro construiu um ambiente regulatório e tecnológico que acelerou a adoção de ativos digitais lastreados em instrumentos do mundo real, os chamados RWAs (Real World Assets), especialmente em áreas ligadas ao crédito, recebíveis e trade finance.
Segundo Consimo, o Brasil já vive uma fase prática da tokenização, enquanto outros países ainda concentram esforços em testes ou discussões regulatórias iniciais. O executivo citou iniciativas recentes envolvendo a ANBIMA, a Comissão de Valores Mobiliários e projetos ligados à infraestrutura financeira nacional como exemplos de um ecossistema que vem consolidando aplicações reais da tecnologia blockchain.
Para ele, o mercado brasileiro já demonstra capacidade operacional superior à observada em parte do mercado americano.
Tokenização avança
Na visão do executivo, um dos movimentos mais relevantes para os próximos anos será a integração da tokenização ao mercado de duplicatas escriturais eletrônicas. Consimo afirmou que o novo modelo centralizado de registro desses ativos tende a aumentar a transparência, melhorar processos de análise de risco e facilitar a geração de liquidez para operações de crédito.
Ele destacou que empresas como B3, Núclea e CERC já trabalham com estruturas ligadas a blockchain, criando uma base para que esses recebíveis evoluam rapidamente para ativos tokenizados negociáveis.
“O ativo nasce praticamente on-chain. Você faz o registro necessário e toda a sequência de liquidação, conciliação e execução passa a acontecer dentro dessa estrutura”, afirmou.
Para Consimo, isso abre espaço para novos modelos de distribuição de crédito e circulação de recebíveis entre diferentes plataformas financeiras, reduzindo barreiras operacionais e ampliando o acesso à liquidez.
O executivo também acredita que o Brasil poderá exportar ativos tokenizados para mercados internacionais nos próximos anos.
Segundo ele, produtos estruturados com recebíveis brasileiros oferecem rentabilidades muito superiores às encontradas em mercados desenvolvidos, o que poderia despertar interesse de investidores estrangeiros. Consimo citou operações ligadas a recebíveis de cartão de crédito e grandes empresas nacionais, que atualmente oferecem retornos anuais entre 18% e 22%, como potenciais candidatos para estruturas internacionais.
Para o executivo, o diferencial brasileiro surgiu da combinação entre regulação financeira, modernização bancária e iniciativas lideradas pelo Banco Central do Brasil nos últimos anos. Ele atribuiu parte dessa aceleração ao avanço do Pix e aos programas de inovação que aproximaram startups e grandes instituições financeiras.
XDC
Na avaliação de Consimo, a digitalização impulsionada pelo sistema de pagamentos instantâneos criou uma base tecnológica e comportamental que facilitou a adoção de soluções ligadas à tokenização e blockchain.
“A gente criou um ecossistema de adoção tecnológica muito forte. O Pix teve um papel importante porque inseriu milhões de pessoas dentro do sistema financeiro digital”, afirmou. Segundo ele, isso gerou um ambiente mais receptivo para novos serviços financeiros digitais quando comparado a mercados onde o uso de dinheiro físico ainda permanece elevado.
Durante a entrevista, Consimo também detalhou os planos da XDC Network no Brasil. Segundo ele, a companhia pretende consolidar sua posição como principal infraestrutura blockchain utilizada em emissões de ativos tokenizados no país.
Além da tokenização de recebíveis, a companhia também mira o mercado de trade finance, com foco em operações de importação e exportação tokenizadas.
RWA no Brasil
O mercado brasileiro de tokenização de ativos reais (RWA) iniciou 2026 em ritmo acelerado e atingiu um novo recorde histórico. Dados do RWA Monitor apontam que o setor encerrou o primeiro trimestre de 2026 com R$ 3,76 bilhões em emissões totais, contra R$ 1,70 bilhão no mesmo período de 2025. O avanço representa crescimento de 121% em apenas um ano e reforça a consolidação do Brasil como uma das maiores praças globais de tokenização.
O crescimento ocorreu de forma transversal em praticamente todos os segmentos do mercado. As emissões institucionais sob a regulação da CVM 160 cresceram 62%, saltando de R$ 1,35 bilhão para R$ 2,19 bilhões. Já o varejo e as pequenas empresas, via CVM 88, movimentaram R$ 374,5 milhões em emissões, enquanto as captações avançaram 440%, passando de R$ 66,4 milhões para R$ 358,57 milhões.
O movimento mais agressivo veio das emissões privadas tokenizadas, como da AmFi que sozinha emitiu cerca de R$ 1,07B no primeiro trimestre deste ano. Assim, o volume disparou de R$ 74,4 milhões para R$ 1,14 bilhão no período, crescimento de 1.427% em relação ao mesmo período do ano anterior. O número de projetos privados também saltou de 12 para 175 operações no período analisado.
“O avanço do mercado indica que a tokenização começou a migrar para operações financeiras de escala, especialmente em estruturas de crédito privado, antecipação de recebíveis, trade finance e produtos voltados ao mercado institucional, aproximando blockchain da infraestrutura tradicional do sistema financeiro.”, aponta Rodrigo Caggiano, fundador e CEO do RWA Monitor.

