
Stablecoins movimentam US$ 35 trilhões, mas apenas 1% são pagamentos reais, menos de 0,02% de todo o mercado global
McKinsey calcula que pagamentos efetivos somaram US$ 390 bilhões, enquanto negociações e transferências internas inflaram o volume on-chain.

As stablecoins movimentam até US$ 35 trilhões por ano nas redes blockchain, mas apenas uma pequena parcela desse volume corresponde à compra de produtos, ao pagamento de fornecedores, ao envio de remessas ou a outras operações econômicas realizadas por usuários finais.
Um estudo publicado pela McKinsey em parceria com a empresa de análise blockchain Artemis Analytics estima que os pagamentos efetivos com stablecoins alcançaram aproximadamente US$ 390 bilhões em 2025. O valor representa pouco mais de 1% dos US$ 35 trilhões registrados nas blockchains e apenas 0,02% de todo o mercado global de pagamentos.
O cálculo anualizado considera a atividade registrada em dezembro de 2025 e exclui operações relacionadas principalmente a negociações de criptomoedas, arbitragem, movimentações entre carteiras da mesma instituição e interações automatizadas com contratos inteligentes.
A diferença mostra que o volume bruto registrado nas blockchains não permite medir diretamente a adoção das stablecoins como meio de pagamento. As redes públicas identificam quanto dinheiro passou de um endereço para outro, mas não informam necessariamente a finalidade econômica de cada transferência.
Negociações e transferências internas inflam os números
Exchanges, custodiantes e formadores de mercado controlam grandes reservas de stablecoins e movimentam frequentemente esses recursos entre suas próprias carteiras. Uma transferência de US$ 100 milhões entre dois endereços da mesma exchange aparece na blockchain, por exemplo, mesmo que nenhuma empresa tenha recebido por um produto ou serviço.
Contratos inteligentes também podem movimentar repetidamente o mesmo capital. Estratégias de arbitragem, fornecimento de liquidez e operações automatizadas executam diversas transações para concluir uma única ação, multiplicando o volume registrado sem gerar novos pagamentos na economia real.
Segundo a McKinsey, algumas operações realizadas por protocolos ainda dividem uma única atividade em várias etapas on-chain. Por isso, somar todas as transferências pode superestimar tanto o número de usuários quanto o capital efetivamente utilizado em pagamentos.
Isso não significa que os outros 99% do volume sejam falsos ou irrelevantes. Negociações, arbitragem, liquidez e gestão de reservas sustentam o funcionamento do mercado de criptomoedas. De acordo com a empresa de pesquisas, essas atividades, porém, não se enquadram na definição tradicional de pagamentos realizados por consumidores ou empresas.
Mercado mais que dobrou
Para separar esses fluxos, a McKinsey e a Artemis combinaram diferentes metodologias. Os pesquisadores identificaram contratos e carteiras associados a cartões financiados com stablecoins, empresas de custódia, plataformas de pagamentos, mercados peer-to-peer e conversões entre stablecoins e moedas fiduciárias.
No segmento empresarial, o estudo considerou que apenas 20% do volume movimentado por provedores de tesouraria e custódia correspondia a pagamentos B2B. A equipe classificou o restante como negociações ou transferências internas. Na análise das remessas internacionais, os pesquisadores estimaram que 10% das conversões selecionadas representavam pagamentos desse tipo.
Apesar da distância em relação aos números brutos, os pagamentos efetivos com stablecoins mais que dobraram entre 2024 e 2025. O resultado indica que existe adoção econômica crescente, embora concentrada em algumas aplicações e mercados.
Empresas lideram os pagamentos com stablecoins
Os pagamentos entre empresas formam o principal caso de uso identificado pelo estudo. As operações B2B movimentaram aproximadamente US$ 226 bilhões em 2025, o equivalente a cerca de 60% de todos os pagamentos com stablecoins.
Esse segmento cresceu 733% em relação a 2024. Ainda assim, o volume representa somente 0,01% dos aproximadamente US$ 1,6 quatrilhão movimentados anualmente pelo mercado global de pagamentos empresariais.
Empresas utilizam stablecoins principalmente para reduzir o tempo de liquidação, administrar liquidez e pagar fornecedores internacionais. A tecnologia pode beneficiar especialmente pequenas e médias companhias que enfrentam custos elevados, demora e dificuldades de acesso ao sistema bancário em operações transfronteiriças.
Pagamentos de salários, repasses a criadores, rendimentos de marketplaces, transferências entre consumidores e remessas internacionais somaram cerca de US$ 90 bilhões. O valor corresponde a menos de 1% de um mercado global superior a US$ 100 trilhões, dos quais aproximadamente US$ 1,2 trilhão envolve operações internacionais.
O uso de stablecoins no mercado de capitais alcançou aproximadamente US$ 8 bilhões. Gestoras e plataformas utilizam esses ativos para liquidar operações com ativos tokenizados, distribuir dividendos automaticamente ou reinvestir recursos sem passar pelos sistemas bancários tradicionais. Mesmo assim, as stablecoins ainda representam menos de 0,01% dos US$ 200 trilhões movimentados nesse segmento.
Os cartões vinculados a stablecoins também avançaram. Os usuários gastaram US$ 4,5 bilhões por meio desses produtos em 2025, crescimento de 673% em um ano. Esses cartões convertem o saldo on-chain em moeda fiduciária no momento da compra e permitem pagamentos em estabelecimentos que não aceitam criptomoedas diretamente.
A atividade também apresenta forte concentração geográfica. Pagamentos enviados a partir da Ásia somaram cerca de US$ 245 bilhões e responderam por aproximadamente 60% do mercado. Singapura, Hong Kong e Japão concentraram quase todo esse volume.
A América do Norte apareceu em seguida, com US$ 95 bilhões, enquanto a Europa registrou US$ 50 bilhões. América Latina e África movimentaram menos de US$ 1 bilhão cada em pagamentos identificados pela metodologia.
Para a McKinsey, a discrepância entre volume bruto e pagamentos efetivos não elimina o potencial das stablecoins. Ela estabelece uma base mais realista para bancos, fintechs e empresas avaliarem oportunidades, receitas e investimentos.
Infraestrutura de liquidação
Para Hector Fardin, cofundador e diretor de compliance da Avenia, emissora do BRLA, as stablecoins começam a atuar como uma infraestrutura de liquidação que permanece invisível para o usuário final.
“Entramos em uma nova fase das stablecoins. Hoje, um argentino que usa a Belo, cliente da nossa infraestrutura, consegue pagar via Pix no Brasil sem precisar ter CPF ou conta bancária local. Da mesma forma, um brasileiro pode quitar a fatura de um cartão emitido no exterior usando apenas um Pix. Nos dois casos, por trás de uma experiência simples para o usuário, existe uma infraestrutura baseada em stablecoins que realiza a liquidação internacional em segundos.”
Os exemplos mostram como as stablecoins podem viabilizar pagamentos reais mesmo quando consumidores e estabelecimentos utilizam moedas locais nas duas pontas. Nesse modelo, o ativo digital funciona como uma camada intermediária para transferir e liquidar recursos entre diferentes sistemas financeiros.
“Para o segundo semestre de 2026, a tendência é que esse tipo de aplicação deixe de ser exceção e avance principalmente em pagamentos internacionais, remessas, tesouraria corporativa e integração entre sistemas financeiros”, afirmou Fardin.
Segundo o executivo, o avanço regulatório também pode acelerar essa transição. Regras sobre reservas, auditoria, transparência e supervisão oferecem maior previsibilidade para que bancos, investidores institucionais e grandes empresas incorporem as stablecoins às suas operações.
“A discussão deixa de ser se as stablecoins terão utilidade prática, porque elas já têm, e passa a ser com que velocidade empresas e instituições financeiras vão incorporá-las. O segundo semestre deve marcar justamente essa transição: de uma tecnologia conhecida principalmente pelo mercado cripto para uma infraestrutura financeira cada vez mais integrada ao sistema tradicional.”

