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Cassio Gusson
Escrito por Cassio Gusson,Redator
Lucas Caram
Revisado por Lucas Caram,Editor da Equipe

Mineradores que só focaram em Bitcoin podem morrer em breve

Mineradores que só focaram em Bitcoin podem morrer em breve, revela analista

Mineradores que só focaram em Bitcoin podem morrer em breve
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A mineração de Bitcoin passou por uma transformação estrutural nos últimos anos e deixou de operar apenas como atividade de extração. O setor agora se posiciona como uma infraestrutura global, com integração crescente a serviços financeiros e computação avançada.

A avaliação é de Michael Jerlis, CEO da EMCD. O executivo afirma que o modelo tradicional, baseado na compra de equipamentos, uso de energia e venda de Bitcoin, perdeu relevância diante das mudanças recentes do mercado.

Segundo ele, operadores passaram a monetizar a infraestrutura de formas mais diversificadas. Entre as estratégias adotadas estão a tokenização de hashrate, o uso de soluções em finanças descentralizadas e a assinatura de contratos ligados à computação de alto desempenho.

A mudança também alterou a dinâmica de concentração do setor. Apesar da expansão geográfica após restrições na China, a distribuição do poder de processamento continua concentrada. Dados apontam que grandes pools como Foundry USA, AntPool e ViaBTC controlam mais de 56% da rede.

Além disso, a China ainda responde por cerca de 14% do hashrate global, mesmo após restrições anteriores. Esse cenário indica que a descentralização geográfica não necessariamente resultou em descentralização operacional.

Um episódio ocorrido no final de 2025 reforçou essa fragilidade. A retirada de aproximadamente 400 mil dispositivos na China provocou uma queda de cerca de 8% no hashrate global em poucos dias.

Outro ponto de inflexão foi o halving de 2024, que reduziu as recompensas da rede e pressionou a rentabilidade dos mineradores. O preço do hash caiu para aproximadamente US$ 40 por PH/s, enquanto o hashrate total superou 1 ZH/s.

Negócios

Confira a entrevista completa

Cointelegraph Brasil (CTBR): Ao comparar a mineração em 2017 com a atual, qual foi a transformação mais profunda: a mudança geográfica da indústria, o perfil dos operadores ou o próprio modelo de negócio?

Michael Jerlis (MJ): O modelo de negócio foi o que mais mudou. Em 2017, o setor seguia uma fórmula simples: adquirir hardware, garantir energia, minerar Bitcoin e vender. Esse modelo já não é suficiente.

Os operadores, responsáveis por gerenciar a infraestrutura de mineração, passaram a monetizar essa estrutura de formas totalmente novas. Alguns tokenizam hashrate, outros liberam liquidez antecipadamente por meio de estruturas DeFi, alguns firmam grandes contratos ligados à inteligência artificial e muitos agora administram megawatts como ativos estratégicos, e não apenas como insumos.

A geografia e o perfil dos operadores também mudaram, mas isso foi consequência. Quando o negócio deixou de ser apenas extração e passou a ser infraestrutura, todo o restante acompanhou essa transformação.

CTBR: A mudança das regiões montanhosas da China para novos países realmente descentralizou o setor ou apenas substituiu uma concentração por outra, agora mais corporativa e institucional?

MJ: O que ocorreu não foi uma descentralização completa, mas sim uma mudança na forma de concentração.

No final de 2025, a China havia recuperado silenciosamente cerca de 14% do hashrate global por meio de operações redirecionadas e uso de energia excedente em regiões como Xinjiang. Ao mesmo tempo, Foundry USA, AntPool e ViaBTC controlavam juntos mais de 56% da rede. O mapa geográfico parecia mais distribuído, mas o controle continuava concentrado — apenas mudou de regional para corporativo e institucional.

Mineração de Bitcoin transformação

CTBR: Houve um momento em que isso se tornou impossível de ignorar?

MJ: Sim. No final de 2025, ações regulatórias direcionadas a cerca de 400 mil dispositivos na China reduziram o hashrate global em aproximadamente 8% em poucos dias. Foi uma das quedas mais acentuadas de curto prazo dos últimos anos. Isso demonstrou que mesmo uma rede distribuída geograficamente pode permanecer vulnerável a intervenções concentradas.

CTBR: Então, o que é descentralização real na mineração?

MJ: Descentralização não é definida apenas pela distribuição geográfica do hashrate. Trata-se de quantos operadores realmente independentes controlam capacidade relevante e de quão resilientes eles são diante de pressões regulatórias, políticas ou econômicas. A indústria celebrou o fim de um único centro geográfico, mas a questão mais importante sempre foi quem continuava no controle depois dessa mudança.

Halving

CTBR: Em que momento a mineração deixou de ser apenas uma corrida por hashrate e passou a depender de uptime, suporte, transparência e execução profissional?

MJ: O halving de 2024 foi o ponto de virada. Quando as recompensas foram reduzidas e o preço do hash caiu abaixo do que muitos operadores suportavam, ficou claro que preços altos do Bitcoin não seriam suficientes para sustentar negócios frágeis. No final de 2025, o hashprice caiu para cerca de US$ 40 por PH/s, enquanto o hashrate da rede ultrapassou 1 ZH/s. Nesse cenário, a execução passou a ser mais importante que o discurso.

CTBR: Após o banimento na China e o halving, o que passou a definir sucesso com mais clareza?

MJ: Energia barata, sozinha, deixou de ser vantagem sustentável. Em ambientes regulatórios instáveis, esse benefício pode se tornar um risco. Escala ajuda, mas sem disciplina não resolve problemas estruturais. O que realmente importa é a combinação entre acesso estável à energia, execução eficiente e capacidade de sobreviver aos ciclos de mercado.

CTBR: A mineração está cada vez mais próxima de padrões de infraestrutura crítica. Isso muda a forma de enxergar o minerador moderno?

MJ: Sim. O minerador moderno deixou de ser apenas um galpão com máquinas. Ele está se tornando um operador de infraestrutura crítica. Quando empresas do setor fecham acordos bilionários com nomes como Microsoft, parceiros apoiados pelo Google ou plataformas ligadas à AWS, fica claro que não se trata mais de um setor informal.

À medida que a infraestrutura computacional se torna mais valiosa para IA e HPC, a mineração tende a se tornar um estágio de transição para plataformas mais amplas. Um modelo híbrido já está surgindo. Segundo a CoinShares, a receita puramente de mineração pode cair de cerca de 85% para menos de 20% até 2026 para operadores com contratos de IA.

A expansão global mostrou que não é possível replicar um modelo único em todos os países. Fatores como regulação local, comportamento do usuário, latência e qualidade da infraestrutura são tão importantes quanto o custo da energia.

Países como Etiópia e Cazaquistão demonstram que vantagens iniciais podem desaparecer rapidamente com mudanças regulatórias. Na América Latina, o crescimento é constante, mas acompanhado de desafios semelhantes aos enfrentados por outras regiões no passado.

Nos últimos ciclos, o mercado premiou crescimento rápido, mas também penalizou operadores sem base sólida. A indústria passou a valorizar disciplina, consistência operacional e geração de receita real.

Os vencedores até 2030 serão plataformas completas de infraestrutura. Empresas limitadas ao modelo tradicional, comprar ASICs, minerar e vender, devem enfrentar maior volatilidade e margens menores..

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