Durante um painel com representantes da B3, CVM e empresas do setor, realizado no Tokenização Day, organizado pela B3, os executivos defenderam que parte das dificuldades enfrentadas pelo Drex, projeto de moeda digital do Banco Central, surgiu justamente da tentativa de aplicar a tecnologia a diferentes desafios simultaneamente.
Para Humberto Costa, diretor de produtos de balcão e ativos digitais da B3, o mercado erra ao concluir que os obstáculos encontrados no Drex representam uma falha tecnológica.
Segundo ele, o problema central esteve no nível de ambição do projeto, que tentou resolver simultaneamente questões ligadas à privacidade, liquidação financeira, interoperabilidade e funcionamento de diferentes mercados dentro de uma única estrutura tecnológica.
O executivo afirmou que o debate atual já não gira mais em torno da viabilidade do blockchain, mas sim sobre quais aplicações realmente fazem sentido dentro de cada segmento financeiro.
“O grande debate hoje não é mais se a tecnologia funciona, mas sim como ela deve ser aplicada em cada contexto. Quando se fala, por exemplo, dos desafios encontrados no Drex, muita gente conclui rapidamente que a tecnologia não está pronta. Eu vejo de outra forma. Acho que um dos principais desafios do Drex foi justamente o nível de ambição do projeto, que tentou resolver simultaneamente problemas muito diferentes, em mercados com características distintas”, afirmou Costa.
Blockchain

Segundo ele, existem mercados em que blockchain consegue operar de forma eficiente justamente porque não há sensibilidade tão elevada em relação à visibilidade de operações ou concentração de participantes.
Em outros ambientes, porém, as exigências de confidencialidade e governança tornam a implementação muito mais complexa. Para o executivo, parte do mercado ainda mistura inovação tecnológica com a ideia de substituição completa da infraestrutura financeira tradicional, algo que ele considera distante da realidade regulatória e operacional do setor financeiro.
Costa também destacou que muitos desafios financeiros não podem ser resolvidos apenas por tecnologia. Segundo ele, mesmo em ambientes tokenizados, continuam existindo necessidades ligadas à gestão de risco, supervisão regulatória, mecanismos de controle e preservação da integridade do sistema em momentos de crise.
O executivo afirmou que o chamado “caminho feliz” normalmente funciona bem em projetos experimentais, mas que o verdadeiro teste acontece em cenários de estresse, quando o sistema precisa manter estabilidade operacional e capacidade de reação.
Tecnologia não vai substituir o regulador
Antonio Berwanger, superintendente de desenvolvimento de mercado da Comissão de Valores Mobiliários, afirmou que a desintermediação costuma aparecer como uma das principais promessas associadas ao blockchain, mas ressaltou que esse processo não ocorre de maneira trivial dentro do mercado financeiro tradicional.
Segundo ele, limitações relacionadas à distribuição, acesso ao investidor e às estruturas já consolidadas do mercado dificultam mudanças abruptas. O superintendente também destacou que, sob a ótica regulatória, a blockchain continua sendo observada como infraestrutura de suporte para atividades reguladas, o que significa que a supervisão sobre depositários, custodiantes, escrituração e pós-negociação continuará existindo mesmo em um ambiente tokenizado.
A visão foi reforçada por Marcos Viriato, CEO da Parfin, que afirmou que boa parte da tokenização atual ainda representa ativos tradicionais registrados em estruturas jurídicas centralizadas apenas espelhadas em blockchain.
De acordo com ele, o mercado ainda está relativamente distante de um sistema financeiro totalmente nativo em blockchain, embora os avanços recentes já tragam ganhos operacionais importantes, como liquidação atômica, transferências instantâneas, operações contínuas e maior eficiência no uso de ativos como garantia de crédito.
Viriato também chamou atenção para os desafios envolvendo redes públicas no mercado financeiro regulado. Segundo ele, a transparência característica dessas redes pode entrar em conflito direto com exigências de confidencialidade típicas do sistema financeiro tradicional.
O executivo afirmou que, em uma depositária tokenizada, posições de investidores, movimentações financeiras e saldos precisam permanecer protegidos, o que tende a manter parte relevante da infraestrutura financeira em ambientes privados ou permissionados.
Para ele, o futuro do setor provavelmente será marcado por um equilíbrio entre estruturas fechadas e componentes tecnológicos vindos do ecossistema cripto global, como automated market makers, lending pools e soluções de liquidação programável.

