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Cassio Gusson
Escrito por Cassio Gusson,Redator
Lucas Caram
Revisado por Lucas Caram,Editor da Equipe

Blockchain pode virar arma do Judiciário brasileiro para impedir manipulação de provas digitais

Pesquisa acadêmica aponta que tecnologia criada para sustentar o Bitcoin pode ajudar a preservar autenticidade e rastreabilidade de evidências eletrônicas em investigações criminais

Blockchain pode virar arma do Judiciário brasileiro para impedir manipulação de provas digitais
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A expansão dos crimes digitais, o avanço da inteligência artificial generativa e o aumento da circulação de documentos manipulados eletronicamente começaram a pressionar o sistema de Justiça brasileiro em uma frente pouco debatida fora do meio jurídico: como garantir que uma prova digital permaneça íntegra do início ao fim de uma investigação criminal.

Nesse cenário, pesquisadores do Direito passaram a defender o uso da blockchain, tecnologia que sustenta o Bitcoin, como ferramenta para preservar a chamada cadeia de custódia de evidências digitais.

A discussão ganhou força em uma dissertação de mestrado apresentada na Faculdade de Direito Milton Campos pelo pesquisador Vinícius Papa Soares, que analisou a utilização da blockchain como mecanismo de proteção da autenticidade, integridade e rastreabilidade de provas no processo penal brasileiro.

Segundo o estudo, o crescimento das provas digitais transformou profundamente a dinâmica das investigações criminais. Conversas em aplicativos, registros em nuvem, logs de acesso, imagens digitais, e-mails, arquivos extraídos de celulares e até conteúdos produzidos por inteligência artificial passaram a integrar processos judiciais com frequência crescente.

O problema, segundo a pesquisa, é que esse tipo de evidência possui alta volatilidade e pode ser alterado com relativa facilidade, criando desafios para autoridades policiais, peritos e magistrados.

“A quebra dessa cadeia de custódia pode resultar na inadmissibilidade da prova e na proibição de sua avaliação, comprometendo a justiça do processo”, afirma a dissertação ao tratar dos riscos associados à manipulação de evidências digitais.

Blockchain no judiciário

O conceito de cadeia de custódia ganhou relevância no Brasil nos últimos anos após alterações no Código de Processo Penal. Na prática, trata-se do conjunto de procedimentos utilizados para documentar todo o percurso de uma prova, desde sua coleta até eventual apresentação em juízo. A lógica busca impedir adulterações, substituições ou contaminações do material analisado.

É justamente nesse ponto que a blockchain aparece como possível solução tecnológica. A pesquisa sustenta que o registro descentralizado e imutável da tecnologia poderia funcionar como uma espécie de trilha cronológica auditável das evidências digitais, registrando todas as etapas relacionadas ao armazenamento, acesso e movimentação dos arquivos coletados durante uma investigação.

“Blockchain constitui-se como um banco de dados descentralizado e distribuído, no qual todas as transações são registradas de forma imutável e permanente”, descreve o autor ao explicar o funcionamento da tecnologia.

A dissertação também argumenta que a adoção desse modelo poderia reduzir disputas sobre autenticidade de arquivos digitais, principalmente em um ambiente cada vez mais impactado por ferramentas capazes de alterar imagens, áudios e vídeos com baixo custo operacional.

O avanço dos chamados deepfakes, por exemplo, elevou a preocupação de especialistas com a validação de conteúdos digitais utilizados como prova em investigações criminais e processos judiciais.

Regulamentação

Segundo o pesquisador, o Brasil ainda possui regulamentação considerada incipiente para lidar especificamente com a preservação de provas digitais. O estudo afirma que a ausência de protocolos mais robustos pode gerar insegurança jurídica e abrir espaço para questionamentos processuais sobre a validade das evidências apresentadas em juízo.

“Diante das características singulares da prova digital, surgem questionamentos sobre como garantir sua fidedignidade e prevenir manipulações por terceiros”, destaca a pesquisa.

Embora a dissertação reconheça limitações técnicas e desafios regulatórios para adoção da blockchain pelo sistema de Justiça, o trabalho aponta que diferentes países já começaram a estudar aplicações semelhantes em áreas ligadas à preservação documental, certificação de registros e rastreamento de dados sensíveis.

A pesquisa cita ainda que o debate não se restringe ao universo financeiro ou aos criptoativos, mas começa a avançar para setores ligados à administração pública, identidade digital e registros oficiais.

O trabalho também resgata a origem histórica da blockchain associada ao surgimento do Bitcoin em meio à crise financeira de 2008. Segundo a dissertação, a tecnologia nasceu justamente da tentativa de criar mecanismos digitais capazes de operar sem depender integralmente da confiança em intermediários centralizados.

“O problema raiz da moeda convencional estaria relacionado com a confiança”, escreve o autor ao citar o whitepaper publicado por Satoshi Nakamoto.
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