A Tether, uma das maiores empresas do mercado global de criptomoedas, entrou na Justiça de São Paulo para cobrar uma dívida de aproximadamente R$ 1,6 bilhão relacionada ao conglomerado do Banco Master.
De acordo com o Estado de São Paulo, a ação envolve um empréstimo de US$ 300 milhões concedido à Titan Holding, empresa ligada ao empresário Daniel Vorcaro, controlador do banco liquidado pelo Banco Central.
Segundo informações da reportagem, o contrato foi firmado em março de 2025 e previa que a Titan devolveria os recursos em até 12 meses, acrescidos de juros. No entanto, após o rebaixamento da nota de crédito do Banco Master e, posteriormente, a liquidação da instituição financeira, a Tether acionou cláusulas de vencimento antecipado da dívida e decidiu recorrer ao Judiciário para tentar recuperar os valores.
O empréstimo foi liberado em duas parcelas. A primeira ocorreu em 28 de março de 2025, mesma data em que o Banco de Brasília (BRB) anunciou a intenção de adquirir o Banco Master em uma operação que mais tarde acabou barrada pelo Banco Central. A segunda transferência aconteceu poucos dias depois.
Rebaixamento do Banco Master
O contrato firmado entre as partes previa mecanismos de proteção para a Tether em caso de deterioração financeira do Banco Master. Um deles determinava que, se a nota de crédito da instituição fosse rebaixada por agências de classificação de risco, a dívida poderia ser cobrada imediatamente.
Segundo a ação judicial, essa condição foi ativada em setembro de 2025, após a agência Fitch Ratings reduzir a classificação do banco. Naquele período, o mercado já demonstrava dúvidas sobre a viabilidade da venda do Master para o BRB e sobre a situação financeira da instituição controlada por Vorcaro.
A situação se agravou em novembro, quando o Banco Central determinou a liquidação do Banco Master. A medida acionou uma segunda cláusula de vencimento antecipado prevista no contrato, elevando ainda mais a pressão sobre a Titan Holding e demais empresas relacionadas. Com a aplicação de juros e encargos, a dívida teria alcançado aproximadamente R$ 1,6 bilhão.
Embora Daniel Vorcaro seja o principal nome associado ao conglomerado, o processo não o cita diretamente como réu. A ação aponta Luiz Antônio Bull e Ângelo Antônio Ribeiro da Silva, antigos parceiros do empresário e diretores da Titan Holding, como representantes da empresa. A Master Holding Financeira e a Master Participações também aparecem como devedoras solidárias na ação judicial.
Investigado pela Polícia Federal
Vorcaro é alvo de investigações conduzidas pela Polícia Federal por suspeitas de gestão fraudulenta do Banco Master. O empresário chegou a ser preso em novembro do ano passado, um dia antes da liquidação do banco, em meio às apurações sobre a venda de R$ 12,2 bilhões em títulos considerados problemáticos ao BRB. Em março deste ano, ele voltou a ser preso sob suspeita de planejar atos violentos contra opositores e segue detido em Brasília.
Para reduzir o risco da operação, o Banco Master ofereceu como garantia parte das receitas geradas por sua carteira de crédito consignado. Entre os ativos citados está o Credcesta, linha de empréstimos voltada a aposentados e servidores públicos.
De acordo com o processo, caso houvesse inadimplência, a Tether teria direito de acessar diretamente os recursos provenientes dessas operações de crédito. A empresa agora pede à Justiça o bloqueio de valores relacionados às carteiras de consignado e também de outros ativos financeiros das empresas envolvidas.
Em nota enviada ao Estadão e reproduzida no processo, a companhia afirmou que concedeu o financiamento “de boa-fé” e alegou que, no momento da operação, não havia sinais públicos das irregularidades posteriormente associadas ao conglomerado Master. A empresa também ressaltou que os recursos utilizados no empréstimo vieram da Tether Investments, braço de investimentos do grupo, sem ligação direta com as reservas que lastreiam o USDT.

