O avanço das stablecoins consolidou esses ativos como uma nova camada da infraestrutura financeira global, utilizada por empresas, fintechs e investidores para pagamentos, liquidações internacionais e gestão de caixa, inclusive no Brasil.
No entanto, essa mesma estrutura que garante eficiência também impõe limites claros à autonomia dos usuários. Diferente do que muitos associam ao universo cripto, stablecoins como USDT e USDC operam sob modelos centralizados, nos quais emissores mantêm poder direto sobre os ativos, tal qual um Banco Central.
Na prática, isso significa que saldos podem ser congelados ou bloqueados a qualquer momento, especialmente em resposta a determinações judiciais, sanções internacionais ou políticas internas de compliance. Nos últimos anos, emissores como a Tether já executaram bloqueios de endereços ligados a investigações, evidenciando que, apesar da tecnologia blockchain, o controle final não está totalmente nas mãos do usuário.
O contrato inteligente do USDT (Tether) por exemplo possui funcionalidades técnicas específicas que permitem à Tether Limited bloquear e congelar ativos em endereços (carteiras) específicos.
Função "addBlackList": O contrato inteligente possui uma função que permite à Tether adicionar qualquer endereço a uma lista de bloqueio. Uma vez na lista, o endereço fica impedido de enviar ou receber USDT, congelando os fundos instantaneamente.
Função "destroyBlackFunds": A Tether tem a capacidade de "queimar" (destruir) os USDTs que estão em um endereço bloqueado. Isso reduz o total circulante e torna os fundos irrecuperáveis para o proprietário da carteira.
Controle da Administração: Essa capacidade é gerenciada através de um sistema de múltiplas assinaturas (multisig), o que significa que o bloqueio geralmente exige a confirmação de agentes autorizados da Tether.
Podem ser bloqueadas e usuários sabem disso
Esse cenário já provoca mudanças no comportamento dos usuários. Um levantamento recente identificou mais de US$ 4,2 bilhões em fluxos de stablecoins passando por protocolos de privacidade, indicando uma busca crescente por alternativas que protejam dados financeiros.
Segundo Vadim Taszycki, head de growth da StealthEX, essa movimentação não ocorre de forma homogênea. “Quando usuários escolhem ativos como DAI em ambientes não monitorados, eles priorizam resistência à censura. Já em protocolos com algum nível de compliance, o uso migra para stablecoins como USDC”, explica.
Na prática, isso cria dois ecossistemas paralelos dentro do mesmo mercado: um mais aberto e descentralizado, e outro alinhado às exigências regulatórias e institucionais. Essa divisão tende a se intensificar conforme governos ampliam a supervisão sobre o setor.
O avanço regulatório, especialmente após sanções a ferramentas como mixers de criptomoedas, não eliminou o interesse por privacidade. Pelo contrário, novos protocolos continuam surgindo para atender essa demanda, ainda que sob maior pressão de autoridades.
Casos recentes de uso desses mecanismos, inclusive em episódios de exploração de protocolos, reforçam que essas ferramentas já fazem parte da infraestrutura real do mercado, tanto para usos legítimos quanto para atividades ilícitas.
Para Taszycki, o desafio não está em escolher entre privacidade ou regulação, mas em encontrar um ponto de equilíbrio. “A discussão deixou de ser ideológica e passou a ser funcional. Empresas precisam de eficiência, mas também de segurança operacional”, afirma.
Esse dilema também aparece dentro das próprias empresas. Embora a incerteza regulatória ainda seja vista como um obstáculo relevante, muitas já utilizam stablecoins como trilhos de pagamento, convertendo rapidamente os valores para moedas fiduciárias.
Futuro aponta para soluções híbridas
Diante desse cenário, a tendência mais provável não é a predominância de um modelo único, mas a convergência entre diferentes abordagens. O mercado começa a avançar em direção a soluções híbridas, que combinam transparência com mecanismos seletivos de privacidade.
Tecnologias como provas de conhecimento zero ganham espaço justamente por permitir auditoria quando necessário, sem expor todas as informações das transações. Ao mesmo tempo, bancos e instituições financeiras devem atuar como ponte entre o sistema tradicional e o ecossistema cripto.
Para o analista, esse será o ponto central da próxima fase do mercado. “A adoção em massa dependerá da capacidade de integrar stablecoins aos fluxos financeiros existentes, sem perder eficiência nem comprometer a confidencialidade”, conclui.

