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Cassio Gusson
Escrito por Cassio Gusson,Redator
Lucas Caram
Revisado por Lucas Caram,Editor da Equipe

Bloqueados no Brasil, Polymarket e Kalshi tinham mais de 2,1 milhões de acessos no país

Plataformas como Polymarket e Kalshi já haviam conquistado presença relevante entre usuários

Bloqueados no Brasil, Polymarket e Kalshi tinham mais de 2,1 milhões de acessos no país
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Os 27 domínios ligados a sites que operavam com mercados preditivos, como Polymarket e Kalshi, recentemente bloqueados pelo Governo Federal, acumulavam 2,18 milhões de acessos no País no primeiro trimestre de 2026, segundo levantamento do Aposta Legal com base em dados de tráfego digital.

De acordo com o portal, os cinco maiores portais de mercados preditivos com que eram acessados pelos brasileiros respondem, juntos, por 92,2% do total de acessos, deixando as demais 22 plataformas disputando menos de 8% do volume.

No topo da lista está a Polymarket, com 1,46 milhão de acessos no período, o equivalente a quase dois terços de todo o tráfego mapeado.

A Kalshi, sua principal concorrente direta, registrou 250 mil acessos e ficou em segundo lugar com 11,4% do total. A plataforma até iniciou sua entrada no Brasil por meio de uma parceria com a XP Investimentos.

Na sequência aparecem duas plataformas com perfil distinto. A Robinhood, historicamente voltada ao mercado acionário americano, somou 118 mil acessos, uma presença inesperada dado que a empresa nunca aceitou formalmente usuários brasileiros em seus produtos de corretagem.

Seu ingresso na lista de bloqueados está ligado ao lançamento dos chamados "event contracts", contratos de eventos que a empresa passou a oferecer nos Estados Unidos a partir de 2025. O IBKR ForecastTrader, produto da Interactive Brokers, completou o grupo dos mais acessados com 91,7 mil acessos, seguido pela veterana PredictIt com 96,3 mil.”, aponta o site aposta legal.

Sites bloqueados

O bloqueio dos sites que oferecem mercados preditivos foi anunciado em 24 de abril, quando autoridades federais determinaram a retirada do ar de sites considerados irregulares no país. 

Segundo o entendimento oficial, parte dessas empresas oferecia contratos financeiros baseados em eventos futuros que, na prática, poderiam se enquadrar como produtos semelhantes a apostas, sem autorização dos órgãos competentes no Brasil.

Entre os exemplos citados estão mercados sobre quem vencerá uma eleição, qual time ganhará uma partida de futebol, se o Bitcoin ultrapassará determinado preço ou até se um candidato desistiu da disputa presidencial.

A Secretaria de Prêmios e Aposta (SPA) afirma que, independentemente do nome usado pelas plataformas, a estrutura econômica é semelhante à aposta de quota fixa: o usuário coloca dinheiro em risco esperando prêmio futuro definido por odds/probabilidade.

Além do Brasil outros países bloqueiam apostas em mercados de predição, como França, Portugal, Holanda, Argentina e Colômbia.

Nota técnica da ABPred

A Associação Brasileira de Mercados Preditivos reagiu diretamente ao bloqueio e à interpretação adotada pelo governo ao publicar uma nota técnica que questiona o enquadramento amplo desses mercados como apostas irregulares. No documento, a entidade sustenta que a leitura feita pela Secretaria de Prêmios e Apostas extrapola os limites legais e ignora a natureza econômica desses produtos, que, segundo a associação, não se confundem com jogos de azar tradicionais.

De acordo com a análise, os mercados preditivos operam essencialmente como mecanismos de agregação de informação, transformando expectativas individuais em probabilidades coletivas sobre eventos futuros. Esse processo, argumenta a ABPred, gera sinais úteis para empresas, investidores e instituições públicas, funcionando mais como uma infraestrutura informacional do que como um ambiente de apostas. A entidade afirma que reduzir essa dinâmica a um modelo de “aposta de quota fixa” desconsidera o funcionamento real dessas plataformas e pode levar a distorções regulatórias relevantes.

A nota também levanta questionamentos jurídicos sobre a atuação do poder público. Segundo a entidade, a Lei nº 14.790/2023 delimita de forma clara o escopo das apostas de quota fixa, concentrando-se principalmente em eventos esportivos e jogos online. Ao ampliar esse alcance para incluir contratos baseados em eventos políticos, econômicos ou sociais, a interpretação administrativa criaria, na prática, uma nova regra sem respaldo legal, o que violaria princípios como legalidade, segurança jurídica e devido processo.

Por fim, a ABPred alerta para os impactos econômicos e institucionais desse tipo de medida. A associação argumenta que o bloqueio generalizado pode atingir empresas que não oferecem produtos equivalentes a apostas esportivas e que atuam em um campo ainda em desenvolvimento tecnológico. Para a entidade, o caminho adequado seria a construção de um marco regulatório específico, capaz de diferenciar modelos de negócio e estabelecer regras proporcionais ao risco, evitando a eliminação de uma atividade que, segundo a própria nota, tem potencial de gerar valor informacional e apoiar decisões econômicas no país.

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