
Como o ‘fracasso’ do WhatsApp Pay contribuiu para o tarifaço de Trump ao Brasil
Após perder a batalha que 'matou' seu projeto de stablecoin Mark Zuckerberg sofreu outra derrota para o Pix. Disputa iniciada em 2020 virou exemplo do argumento de Washington de que o Banco Central favoreceu o Pix e prejudicou empresas norte-americanas.

O governo de Donald Trump anunciou nesta semana uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros a partir de 22 de julho. A medida atingirá setores como móveis, etanol, máquinas, calçados e açúcar, embora preserve uma ampla lista de exceções.
Por trás do novo tarifaço aparece uma disputa que começou seis anos antes, quando o Banco Central interrompeu o lançamento do WhatsApp Pay no Brasil. O regulador manteve o serviço da Meta suspenso enquanto preparava a estreia do Pix, que rapidamente dominou o mercado brasileiro de pagamentos.
O documento final do governo norte-americano não menciona o WhatsApp Pay no capítulo sobre pagamentos. Entretanto, o histórico da plataforma ajuda a explicar a acusação de que o BC teria usado seu poder regulatório para favorecer o Pix diante de concorrentes norte-americanos.
O “fracasso” exige aspas porque o WhatsApp Pay não desapareceu completamente. A Meta conseguiu as autorizações necessárias e manteve funcionalidades financeiras, mas abandonou a tentativa de transformar sua estrutura baseada em cartões na principal alternativa digital do país. Posteriormente, a própria empresa incorporou o Pix à sua estratégia.
WhatsApp Pay perdeu a corrida para o Pix
É bom lembrar que antes do caso envolvendo o WhatsApp Pay no Brasil, Mark Zuckerberg virou assunto dos Bancos Centrais em todo o mundo com sua tentativa de lançar uma stablecoin. Na época até mesmo o governo americano foi contra a proposta que acabou morrendo e gerando uma corrida dos BCs por pagamentos mais rápidos e baratos, com diversos países optando por testes envolvendo CBDCs.
Depois disso, a Meta anunciou o WhatsApp Pay no Brasil em 15 de junho de 2020 e escolheu o país para a estreia global do serviço. O projeto reunia Mastercard, Visa, Cielo, Rede, Banco do Brasil, Nubank e outras instituições em torno de pagamentos realizados dentro do aplicativo.
A empresa tinha uma vantagem considerável. O WhatsApp já concentrava uma enorme base de usuários brasileiros e poderia transformar conversas em transferências, compras e outros serviços financeiros sem construir um novo canal de distribuição.
O lançamento, porém, durou apenas alguns dias. Em 23 de junho, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica suspendeu preventivamente a parceria entre Facebook e Cielo. O órgão identificou possíveis riscos concorrenciais diante da combinação entre a participação da Cielo no mercado de adquirência e a base de usuários do WhatsApp.
O Cade retirou posteriormente a medida cautelar, mas o Banco Central manteve o bloqueio. A autoridade determinou que Visa e Mastercard interrompessem as operações e exigiu que o Facebook obtivesse autorização como iniciador de transações de pagamento.
Na época, o BC afirmou que precisava preservar um sistema “interoperável, rápido, seguro, transparente, aberto e barato”. O regulador também alegou que o início das operações sem análise prévia poderia prejudicar a concorrência, a eficiência e a privacidade dos dados.
Banco Central travou o WhatsApp Pay
Um artigo publicado na revista jurídica do próprio Banco Central registrou que o órgão demonstrou cautela com os efeitos de rede criados pela integração entre uma grande plataforma digital e serviços financeiros. O WhatsApp poderia concentrar usuários, pagamentos e distribuição de outros produtos dentro de um único ambiente privado.
A suspensão durou aproximadamente nove meses. Enquanto a Meta aguardava, o Banco Central lançou o Pix em novembro de 2020 e obrigou instituições com mais de 500 mil contas ativas a participar do novo sistema.
O BC autorizou as transferências entre usuários do WhatsApp Pay somente em março de 2021, quando o Pix já havia conquistado milhões de brasileiros. Os pagamentos para empresas receberam autorização dois anos depois, em março de 2023.
Esse atraso não explica sozinho o desempenho dos dois serviços, mas alterou profundamente as condições da disputa. O Pix chegou ao mercado com participação obrigatória dos grandes bancos, operação contínua, transferências gratuitas para pessoas físicas e integração direta aos aplicativos financeiros.
O WhatsApp Pay, por outro lado, dependia inicialmente da estrutura de cartões, das instituições parceiras e da adesão gradual dos usuários. Quando recebeu autorização, já precisava competir com um sistema de alcance nacional incorporado às contas bancárias dos brasileiros.
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Em 2025, Guilherme Horn, chefe do WhatsApp para Brasil, Índia e Indonésia, reconheceu que a empresa precisou mudar a estratégia. “Fizemos uma pivotada”, afirmou o executivo em entrevista ao Finsiders Brasil.
A plataforma incorporou o Pix como opção para compartilhar dados de pagamento e adicionou chaves Pix aos perfis. A transação, porém, não acontece necessariamente dentro do WhatsApp. A Meta não divulga números detalhados de adoção do WhatsApp Pay no Brasil.
Por isso, não existe base pública para classificar o serviço como um fracasso comercial absoluto. O resultado estratégico, contudo, mostra uma derrota clara: em vez de substituir ou enfrentar o Pix, o WhatsApp passou a funcionar como um canal de acesso ao sistema criado pelo BC.
Estados Unidos acusam Banco Central de favorecer o Pix
A disputa ganhou dimensão internacional em julho de 2025, quando o Representante Comercial dos Estados Unidos, conhecido como USTR, abriu uma investigação contra o Brasil sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.
O processo examinou seis áreas: comércio digital e pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.
Em junho de 2026, o USTR concluiu que determinadas políticas brasileiras prejudicaram ou restringiram o comércio norte-americano. O capítulo sobre pagamentos concentrou as críticas no Banco Central e no Pix.
Segundo o órgão, o BC acumula duas funções potencialmente conflitantes: regula o mercado e, ao mesmo tempo, administra a infraestrutura do Pix. Para Washington, essa posição permitiu que o regulador concedesse vantagens ao sistema brasileiro diante de serviços privados norte-americanos, mesmo sabendo que o pix é gratuito e que as empresas americanas cobram taxas pelos serviços de pagamento.
O governo dos Estados Unidos questionou a participação obrigatória de instituições com mais de 500 mil contas. Também criticou a exigência de colocar o Pix em posição de destaque nos aplicativos, a gratuidade para pessoas físicas e os limites aplicados às tarifas cobradas de empresas.
Na avaliação do USTR, essas regras obrigam instituições privadas a oferecer, divulgar e subsidiar um sistema administrado pelo próprio regulador. O documento classificou o Pix como um “campeão nacional” favorecido pelo Estado brasileiro.
O Banco Central rejeita essa interpretação. Em 2025, o diretor de Organização do Sistema Financeiro, Renato Gomes, afirmou que o BC não compete com instituições privadas e atua como provedor neutro de uma infraestrutura pública, segundo a Reuters.
A estrutura também permite que bancos, fintechs e iniciadores privados criem serviços sobre o Pix, inclusive Meta, Google, Visa, Master e outras empresas americanas já estão conectadas com o Pix. O BC cobra das instituições participantes apenas os custos relacionados à operação da infraestrutura, sem buscar lucro com o sistema.
Disputa sobre pagamentos virou justificativa para tarifas
A investigação sobre o Pix ofereceu ao governo Trump uma nova base jurídica para pressionar o Brasil. A Suprema Corte dos Estados Unidos havia derrubado, em fevereiro, as tarifas globais anteriores, incluindo cobranças que chegavam a 50% sobre produtos brasileiros.
O governo norte-americano recorreu então à Seção 301, instrumento que permite impor sanções comerciais contra práticas consideradas discriminatórias ou prejudiciais às empresas do país. O Brasil tornou-se o primeiro alvo da nova estratégia.
O USTR confirmou a tarifa adicional de 25% depois de consultas públicas e negociações sem acordo com o governo brasileiro. As novas taxas entrarão em vigor em 22 de julho, com exceções para produtos como carne bovina, café, energia, terras raras, aeronaves e determinadas peças.
Cerca de 18% das exportações brasileiras aos Estados Unidos, avaliadas em aproximadamente US$ 7 bilhões, devem enfrentar a nova cobrança, segundo autoridades brasileiras ouvidas pela Reuters.
O governo Lula classificou a decisão como injustificada e politicamente motivada. O Brasil pretende acionar a Lei da Reciprocidade Econômica e retomar a discussão no sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio.
O impacto direto do tarifaço deve alcançar 18% das exportações brasileiras aos Estados Unidos, segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa. O percentual corresponde a US$ 7,4 bilhões, considerando os embarques registrados em 2024.
Com base nos dados de 2025, a parcela afetada recua para 15%, ou US$ 5,8 bilhões. Madeira, máquinas, equipamentos elétricos, móveis, produtos cerâmicos, calçados e açúcar aparecem entre os setores mais expostos à tarifa adicional de 25%.
O governo federal também prepara um programa de apoio às empresas prejudicadas pela tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos, segundo o vice-presidente Geraldo Alckmin. A estratégia deverá reforçar o programa Brasil Soberano, com linhas de crédito e outras medidas direcionadas aos exportadores que sofrerem impacto direto das novas taxas.
O governo, no entanto, ainda não divulgou o volume de recursos, as condições dos financiamentos ou os critérios para acesso ao benefício. Além de preservar empresas e empregos, o plano deverá ser combinado à busca por novos mercados para reduzir a dependência comercial dos setores mais expostos aos Estados Unidos.

