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Escrito por Cassio GussonRedatorRevisado por Lucas CaramEditor

Como o ‘fracasso’ do WhatsApp Pay contribuiu para o tarifaço de Trump ao Brasil

Últimas NotíciasPublicado17 de jul. de 2026

Após perder a batalha que 'matou' seu projeto de stablecoin Mark Zuckerberg sofreu outra derrota para o Pix. Disputa iniciada em 2020 virou exemplo do argumento de Washington de que o Banco Central favoreceu o Pix e prejudicou empresas norte-americanas.

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O governo de Donald Trump anunciou nesta semana uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros a partir de 22 de julho. A medida atingirá setores como móveis, etanol, máquinas, calçados e açúcar, embora preserve uma ampla lista de exceções.

Por trás do novo tarifaço aparece uma disputa que começou seis anos antes, quando o Banco Central interrompeu o lançamento do WhatsApp Pay no Brasil. O regulador manteve o serviço da Meta suspenso enquanto preparava a estreia do Pix, que rapidamente dominou o mercado brasileiro de pagamentos.

O documento final do governo norte-americano não menciona o WhatsApp Pay no capítulo sobre pagamentos. Entretanto, o histórico da plataforma ajuda a explicar a acusação de que o BC teria usado seu poder regulatório para favorecer o Pix diante de concorrentes norte-americanos.

O “fracasso” exige aspas porque o WhatsApp Pay não desapareceu completamente. A Meta conseguiu as autorizações necessárias e manteve funcionalidades financeiras, mas abandonou a tentativa de transformar sua estrutura baseada em cartões na principal alternativa digital do país. Posteriormente, a própria empresa incorporou o Pix à sua estratégia.

WhatsApp Pay perdeu a corrida para o Pix

É bom lembrar que antes do caso envolvendo o WhatsApp Pay no Brasil, Mark Zuckerberg virou assunto dos Bancos Centrais em todo o mundo com sua tentativa de lançar uma stablecoin. Na época até mesmo o governo americano foi contra a proposta que acabou morrendo e gerando uma corrida dos BCs por pagamentos mais rápidos e baratos, com diversos países optando por testes envolvendo CBDCs.

Depois disso, a Meta anunciou o WhatsApp Pay no Brasil em 15 de junho de 2020 e escolheu o país para a estreia global do serviço. O projeto reunia Mastercard, Visa, Cielo, Rede, Banco do Brasil, Nubank e outras instituições em torno de pagamentos realizados dentro do aplicativo.

A empresa tinha uma vantagem considerável. O WhatsApp já concentrava uma enorme base de usuários brasileiros e poderia transformar conversas em transferências, compras e outros serviços financeiros sem construir um novo canal de distribuição.

O lançamento, porém, durou apenas alguns dias. Em 23 de junho, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica suspendeu preventivamente a parceria entre Facebook e Cielo. O órgão identificou possíveis riscos concorrenciais diante da combinação entre a participação da Cielo no mercado de adquirência e a base de usuários do WhatsApp.

O Cade retirou posteriormente a medida cautelar, mas o Banco Central manteve o bloqueio. A autoridade determinou que Visa e Mastercard interrompessem as operações e exigiu que o Facebook obtivesse autorização como iniciador de transações de pagamento.

Na época, o BC afirmou que precisava preservar um sistema “interoperável, rápido, seguro, transparente, aberto e barato”. O regulador também alegou que o início das operações sem análise prévia poderia prejudicar a concorrência, a eficiência e a privacidade dos dados.

Banco Central travou o WhatsApp Pay

Um artigo publicado na revista jurídica do próprio Banco Central registrou que o órgão demonstrou cautela com os efeitos de rede criados pela integração entre uma grande plataforma digital e serviços financeiros. O WhatsApp poderia concentrar usuários, pagamentos e distribuição de outros produtos dentro de um único ambiente privado.

A suspensão durou aproximadamente nove meses. Enquanto a Meta aguardava, o Banco Central lançou o Pix em novembro de 2020 e obrigou instituições com mais de 500 mil contas ativas a participar do novo sistema.

O BC autorizou as transferências entre usuários do WhatsApp Pay somente em março de 2021, quando o Pix já havia conquistado milhões de brasileiros. Os pagamentos para empresas receberam autorização dois anos depois, em março de 2023.

Esse atraso não explica sozinho o desempenho dos dois serviços, mas alterou profundamente as condições da disputa. O Pix chegou ao mercado com participação obrigatória dos grandes bancos, operação contínua, transferências gratuitas para pessoas físicas e integração direta aos aplicativos financeiros.

O WhatsApp Pay, por outro lado, dependia inicialmente da estrutura de cartões, das instituições parceiras e da adesão gradual dos usuários. Quando recebeu autorização, já precisava competir com um sistema de alcance nacional incorporado às contas bancárias dos brasileiros.

Em 2025, Guilherme Horn, chefe do WhatsApp para Brasil, Índia e Indonésia, reconheceu que a empresa precisou mudar a estratégia. “Fizemos uma pivotada”, afirmou o executivo em entrevista ao Finsiders Brasil.

A plataforma incorporou o Pix como opção para compartilhar dados de pagamento e adicionou chaves Pix aos perfis. A transação, porém, não acontece necessariamente dentro do WhatsApp. A Meta não divulga números detalhados de adoção do WhatsApp Pay no Brasil.

Por isso, não existe base pública para classificar o serviço como um fracasso comercial absoluto. O resultado estratégico, contudo, mostra uma derrota clara: em vez de substituir ou enfrentar o Pix, o WhatsApp passou a funcionar como um canal de acesso ao sistema criado pelo BC.

Estados Unidos acusam Banco Central de favorecer o Pix

A disputa ganhou dimensão internacional em julho de 2025, quando o Representante Comercial dos Estados Unidos, conhecido como USTR, abriu uma investigação contra o Brasil sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.

O processo examinou seis áreas: comércio digital e pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.

Em junho de 2026, o USTR concluiu que determinadas políticas brasileiras prejudicaram ou restringiram o comércio norte-americano. O capítulo sobre pagamentos concentrou as críticas no Banco Central e no Pix.

Segundo o órgão, o BC acumula duas funções potencialmente conflitantes: regula o mercado e, ao mesmo tempo, administra a infraestrutura do Pix. Para Washington, essa posição permitiu que o regulador concedesse vantagens ao sistema brasileiro diante de serviços privados norte-americanos, mesmo sabendo que o pix é gratuito e que as empresas americanas cobram taxas pelos serviços de pagamento.

O governo dos Estados Unidos questionou a participação obrigatória de instituições com mais de 500 mil contas. Também criticou a exigência de colocar o Pix em posição de destaque nos aplicativos, a gratuidade para pessoas físicas e os limites aplicados às tarifas cobradas de empresas.

Na avaliação do USTR, essas regras obrigam instituições privadas a oferecer, divulgar e subsidiar um sistema administrado pelo próprio regulador. O documento classificou o Pix como um “campeão nacional” favorecido pelo Estado brasileiro.

O Banco Central rejeita essa interpretação. Em 2025, o diretor de Organização do Sistema Financeiro, Renato Gomes, afirmou que o BC não compete com instituições privadas e atua como provedor neutro de uma infraestrutura pública, segundo a Reuters.

A estrutura também permite que bancos, fintechs e iniciadores privados criem serviços sobre o Pix, inclusive Meta, Google, Visa, Master e outras empresas americanas já estão conectadas com o Pix. O BC cobra das instituições participantes apenas os custos relacionados à operação da infraestrutura, sem buscar lucro com o sistema.

Disputa sobre pagamentos virou justificativa para tarifas

A investigação sobre o Pix ofereceu ao governo Trump uma nova base jurídica para pressionar o Brasil. A Suprema Corte dos Estados Unidos havia derrubado, em fevereiro, as tarifas globais anteriores, incluindo cobranças que chegavam a 50% sobre produtos brasileiros.

O governo norte-americano recorreu então à Seção 301, instrumento que permite impor sanções comerciais contra práticas consideradas discriminatórias ou prejudiciais às empresas do país. O Brasil tornou-se o primeiro alvo da nova estratégia.

O USTR confirmou a tarifa adicional de 25% depois de consultas públicas e negociações sem acordo com o governo brasileiro. As novas taxas entrarão em vigor em 22 de julho, com exceções para produtos como carne bovina, café, energia, terras raras, aeronaves e determinadas peças.

Cerca de 18% das exportações brasileiras aos Estados Unidos, avaliadas em aproximadamente US$ 7 bilhões, devem enfrentar a nova cobrança, segundo autoridades brasileiras ouvidas pela Reuters.

O governo Lula classificou a decisão como injustificada e politicamente motivada. O Brasil pretende acionar a Lei da Reciprocidade Econômica e retomar a discussão no sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio.

O impacto direto do tarifaço deve alcançar 18% das exportações brasileiras aos Estados Unidos, segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa. O percentual corresponde a US$ 7,4 bilhões, considerando os embarques registrados em 2024.

Com base nos dados de 2025, a parcela afetada recua para 15%, ou US$ 5,8 bilhões. Madeira, máquinas, equipamentos elétricos, móveis, produtos cerâmicos, calçados e açúcar aparecem entre os setores mais expostos à tarifa adicional de 25%.

O governo federal também prepara um programa de apoio às empresas prejudicadas pela tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos, segundo o vice-presidente Geraldo Alckmin. A estratégia deverá reforçar o programa Brasil Soberano, com linhas de crédito e outras medidas direcionadas aos exportadores que sofrerem impacto direto das novas taxas.

O governo, no entanto, ainda não divulgou o volume de recursos, as condições dos financiamentos ou os critérios para acesso ao benefício. Além de preservar empresas e empregos, o plano deverá ser combinado à busca por novos mercados para reduzir a dependência comercial dos setores mais expostos aos Estados Unidos.

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