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Cassio Gusson
Escrito por Cassio Gusson,Redator
Lucas Caram
Revisado por Lucas Caram,Editor da Equipe

Desempenho do mercado cripto em abril e perspectivas para maio de 2026

Bitcoin sobe 18% em abril, desafia crise global e mira US$ 80 mil com apoio de ETFs e fluxo institucional

Desempenho do mercado cripto em abril e perspectivas para maio de 2026
Análise de preço Bitcoin

Por Ana de Mattos, analista técnica e trader parceira da Ripio

Abril foi marcado por um ambiente macroeconômico complexo e desafiador: a escalada da crise geopolítica no Oriente Médio, o estrangulamento das principais rotas comerciais e a inflação global ainda pressionada compuseram um cenário caótico, no qual o comportamento esperado dos investidores seria uma migração defensiva, priorizando a proteção e reduzindo a exposição ao risco.

No entanto, o que se observou foi o oposto. Em vez de retração, os fluxos se intensificaram. Bilhões foram injetados nos mercados, ampliando a liquidez e causando um claro descolamento entre a economia real, que dita a formação de preços no consumo, e a realidade precificada pelos mercados de capitais.

Os riscos geopolíticos seguiam elevados, mas, apesar disso, o apetite por risco também se expandia.

Nesse contexto, o mercado de criptomoedas, ancorado pelo desempenho do Bitcoin, reagiu com força. A capitalização total avançou de US$ 2,28 trilhões para US$ 2,6 trilhões, enquanto o Bitcoin acumulou valorização de 18% no mês. Da mínima anual em US$ 60.000 registrada em fevereiro até o fechamento de abril na faixa de US$ 75.846, o ativo acumulou uma alta de 26,4%.

Esse descompasso entre um ambiente macro incerto e a retomada do risco nos mercados financeiros não foi aleatório. Ele pode ser explicado por uma combinação entre petróleo em queda, um dólar menos pressionado, ajustes nas expectativas de juros nos Estados Unidos e a recuperação das bolsas globais. Esse conjunto reabriu espaço para a recomposição de risco nas principais mesas institucionais do mundo.

Contexto Macroeconômico

O mês começou sob forte estresse, impulsionado pelo impasse diplomático e militar entre Estados Unidos e Irã, que praticamente paralisou o tráfego no Estreito de Ormuz. O volume de embarcações despencou de uma média de 129 navios por dia para apenas 19, enquanto o petróleo Brent rompeu a marca de US$ 110. Em um cenário como esse, o impacto sobre os ativos de risco é imediato e se propaga em cascata pelos mercados.

Nesse contexto, o Bitcoin foi negociado a US$ 65.712 no dia 2, marcando a mínima do mês, em meio à expectativa pelos dados do payroll no dia seguinte. A divulgação veio em 178 mil novas vagas, com taxa de desemprego em 4,3%, reforçando a leitura de juros elevados por mais tempo.

Como consequência, houve um reposicionamento nos ativos macro: o Treasury de 10 anos avançou para 4,35%, o dólar voltou à região dos 100 pontos no DXY e o Bitcoin reprecificou negativamente esse movimento, porque continuou operando sensível à liquidez global.

O evento que realmente mudou o humor do mês e quebrou a narrativa de busca por proteção veio no dia 7, com o anúncio de um cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã. A trégua foi interpretada como uma redução temporária do risco inflacionário, melhorando o ambiente para ativos de risco.

A reação foi imediata: o petróleo recuou, os juros cederam e o Bitcoin saiu da faixa dos US$ 68.000 para retomar a tendência de alta no curto prazo, voltando aos US$ 72.000 e abrindo caminho para o movimento que levaria o preço próximo dos US$ 80.000 ao longo do mês.

Esse movimento foi reforçado por um segundo fator: as mudanças no cenário institucional do Federal Reserve. O encerramento de uma investigação envolvendo Jerome Powell abriu espaço para a transição de liderança, com a expectativa de uma condução do Fed mais favorável à liquidez.

Com isso, o mercado passou a precificar que o Fed poderia tolerar o impacto inflacionário do petróleo mais caro, sem responder de forma agressiva com juros. Esse entendimento reduziu a aversão ao risco e incentivou a realocação de capital.

O sinal mais claro dessa dinâmica foi a perda de força do dólar, com o índice DXY recuando de níveis acima de 100 para a região de 98,5, enquanto as bolsas americanas entraram em recuperação acelerada. O S&P 500, após uma queda de cerca de 10% nas semanas anteriores, reverteu o movimento em uma recuperação em “V” em apenas 11 pregões, e o Nasdaq 100 engatou uma sequência de 13 dias consecutivos de alta, a mais longa em mais de uma década.

ETFs Spot de Bitcoin

O fluxo institucional foi um dos principais pilares do rali de abril. Após encerrar março com US$ 1,32 bilhão em entradas líquidas, os ETFs de Bitcoin aceleraram o ritmo ao longo do mês, com US$ 471 milhões em um único dia e mais de US$ 2,1 bilhões acumulados em apenas oito pregões até o dia 23. No total, abril se aproximou de US$ 2,5 bilhões em entradas, o que representa um crescimento de aproximadamente 89% em relação ao mês anterior e supera o fluxo acumulado no primeiro trimestre do ano.

O total de ativos sob gestão (AuM) dos ETFs de criptoativos nos EUA atingiu US$ 125 bilhões, mantendo o segmento próximo das máximas históricas observadas após o lançamento desses produtos em 2024. Esse movimento indica que, mesmo com oscilações ao longo do tempo, o mercado segue operando com uma base relevante de capital institucional alocado e há demanda efetiva no mercado à vista, e não apenas reposicionamento especulativo em derivativos.

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  • A retomada do capital institucional também se refletiu na atuação de grandes players tradicionais. O Morgan Stanley lançou seu primeiro ETF spot de Bitcoin no dia 8, enquanto o Goldman Sachs protocolou seu produto no dia 14. Esses movimentos reforçam a leitura de que a demanda institucional por Bitcoin voltou a ganhar tração.

Derivativos

No mercado de derivativos, abril foi um mês de amplificação de movimento. No início do período, com o petróleo pressionando e o sentimento mais defensivo, as funding rates ficaram negativas e o mercado acumulou posições vendidas. Depois, com a melhora do cenário geopolítico e a recuperação dos preços, essas posições passaram a ser encerradas à força, acelerando a alta do Bitcoin além do que o fluxo à vista sustentaria sozinho.

O episódio mais relevante aconteceu no dia 22, quando o mercado passou por um short squeeze que liquidou cerca de US$ 394 milhões, com 97,7% das liquidações concentradas em posições vendidas. O movimento impulsionou o preço rapidamente acima dos US$ 79.000. Parte relevante dessa aceleração veio de recompras forçadas, com vendedores sendo retirados do mercado, e não apenas da entrada de novos compradores no spot.

Esse ponto é importante para a leitura do mês: a direção foi dada pelo retorno do fluxo nos ETFs, enquanto a intensidade veio dos derivativos, já que o mercado estava mal posicionado para a alta e precisou corrigir essa assimetria rapidamente. Sem esse componente, o movimento de abril provavelmente teria sido mais lento.

Dinâmica Interna do Ecossistema

No mercado cripto nativo, abril expôs fragilidades relevantes, com falhas de segurança e ataques em diferentes camadas do ecossistema. O principal evento foi o exploit no Kelp DAO, um dos projetos mais relevantes no segmento de restaking, que resultou em perdas de cerca de US$ 292 milhões e comprometeu a liquidez do rsETH. O episódio desencadeou saídas estimadas entre US$ 10 bilhões e US$ 13 bilhões do ecossistema DeFi. No total, as perdas com ataques no mês superaram US$ 606 milhões.

Redes ligadas a Ethereum, Solana, protocolos DeFi e altcoins foram as mais afetadas em termos de confiança. Parte do capital migrou para ativos considerados mais seguros dentro do próprio ecossistema, com destaque para o Bitcoin. A dominância do BTC saiu de 57,9% em março e voltou à região de 60,66% em abril, enfraquecendo a narrativa de altseason no curto prazo.

Esse movimento explica por que o Bitcoin teve desempenho superior ao restante do mercado. Enquanto o fluxo institucional se concentrou em Bitcoin, as altcoins continuaram sensíveis às falhas de segurança e a menor previsibilidade de fluxo. O capital se concentrou no topo da estrutura de mercado, reforçando o papel do Bitcoin como principal porta de entrada para o investidor institucional.

Avanços Regulatórios

No campo regulatório, abril trouxe dois sinais importantes e com efeitos diferentes. De um lado, as agências americanas avançaram na definição de regras para o mercado. O GENIUS Act introduziu diretrizes para emissores de stablecoins, com exigências de compliance, capital e normas mais rígidas de prevenção à lavagem de dinheiro. Em paralelo, a SEC e CFTC publicaram uma taxonomia conjunta para ativos digitais, formalizando o entendimento de que a maioria dos criptoativos não se enquadra como valor mobiliário.

Por outro lado, o CLARITY Act voltou a travar no Senado, indicando que o avanço regulatório ainda é parcial. O mercado cripto recebeu mais clareza das agências, mas ainda não recebeu a segurança política mais ampla que uma lei definitiva traria.

Também houve progresso na frente de derivativos regulados. A CFTC sinalizou que pretende aprovar contratos perpétuos (perpetual futures) nos Estados Unidos. Esse movimento é relevante porque os perps são uma fonte central de liquidez e alavancagem no mercado cripto. A migração desse segmento para um ambiente regulado tende a aumentar a profundidade de mercado, mas também pode acelerar a transmissão dos choques macroeconômicos diretamente para os preços.

Perspectivas para o próximo mês

O rali de abril terminou com sinais de perda de fôlego. Apesar do preço ter se aproximado dos US$ 80.000, houve dificuldade em sustentar o movimento, em um contexto de petróleo novamente acima de US$ 108, ambiente macro ainda pressionado e parte da alta explicada por recompras forçadas, e não apenas por demanda orgânica.

Para avançar acima da resistência dos US$ 80.000, será necessário um novo fluxo comprador, aliado a algum alívio no cenário macroeconômico. As próximas resistências estão em US$ 83.200 e US$ 85.900 no médio prazo.

Para o próximo mês, o investidor cripto deve observar quatro pontos. O primeiro é o petróleo, porque ele segue como principal canal de transmissão entre o cenário geopolítico e a inflação. O segundo é o comportamento do dólar e dos Treasuries, que continuam determinando o apetite global por risco.

O terceiro é a continuidade dos fluxos nos ETFs, já que a consistência dessas entradas tem se mostrado um dos principais vetores de sustentação do preço. O quarto é a dinâmica interna do mercado, especialmente em DeFi e em derivativos, porque falhas de segurança e excesso de alavancagem continuam capazes de aumentar a volatilidade e redistribuir o capital dentro do ecossistema.

Nesse contexto, aportes fracionados em regiões de suporte relevantes tendem a oferecer melhor relação risco-retorno. Os próximos suportes para o preço do Bitcoin estão em US$ 73.500 e US$ 69.150 no médio prazo.