A antecipação de recebíveis de cartão alcançou um patamar histórico no Brasil em 2025, consolidando-se como um dos principais instrumentos de gestão de fluxo de caixa e acesso a capital para empresas.
Levantamento da Núclea mostra que o volume financeiro liquidado por meio da antecipação somou R$ 614,9 bilhões no ano passado, um crescimento de 43% em relação a 2024 (R$ 428,6 bilhões).
O avanço da modalidade ocorre em um ambiente de expansão das vendas com cartão de crédito no País, que atingiu R$ 2,7 trilhões em 2025 (+17% em relação a 2024) – os dados da Núclea, empresa de infraestrutura de mercado financeiro responsável pelo Sistema de Liquidação Centralizada (SLC), mostra o volume financeiro liquidado em operações nas modalidades de crédito.
Além do expressivo crescimento do volume financeiro, o mesmo levantamento aponta que houve um aumento de 33,4% na quantidade de estabelecimentos comerciais que adotaram a antecipação para transformar crédito futuro em recursos imediatos.
De acordo com a Núclea, a antecipação de recebíveis se destaca por representar uma fonte imediata de liquidez, especialmente relevante para PMEs, que dependem do fluxo de vendas com cartão para financiar suas operações.
Com a expansão do uso de cartões e o amadurecimento das estruturas de registro, controle e liquidação de recebíveis, a tendência é que a antecipação continue ganhando escala como instrumento estratégico na sustentação do fluxo de caixa das empresas e na ampliação das fontes de oferta de crédito no País”, destaca a Núclea.
Tokenização de recebíveis
No Brasil o mercado de recebíveis de cartão também aproveitam da tokenização, com empresas como Liqi e Mercado Bitcoin, criando tokens de renda fixa atrelados a este tipo de investimento.
Para Fábio Plein, Diretor Regional da Coinbase para as Américas, a tokenização de ativos está consolidando sua posição no centro de uma mudança estrutural nos mercados financeiros.
Segundo ele, ao trazer ativos como títulos e crédito para o blockchain, resolve ineficiências relacionadas à liquidez, liquidação e acesso. Transações quase instantâneas melhoram a gestão de liquidez ao reduzir o risco de contraparte e permitir que o capital circule de forma mais eficiente, em vez de ficar preso em processos que levam vários dias.
A adoção já está em andamento. Instituições como o JPMorgan estão expandindo sua infraestrutura em blockchain, enquanto o mercado de ativos do mundo real tokenizados já ultrapassou US$ 26 bilhões, um sinal claro de que essa tendência está indo além de projetos piloto e começando a ganhar escala. Embora a adoção ainda esteja no início, a tokenização tende a redefinir a forma como os ativos são emitidos, negociados e distribuídos, tornando o sistema financeiro mais eficiente e acessível.
Como funciona a tokenização de recebíveis do cartão
Daniel Coquieri, fundador da Liqi, que oferece este tipo de investimento, destaca que os recebíveis de cartão de crédito são um conceito que só existe aqui no Brasil. Esta mecânica surgiu há anos e está relacionada à inflação e à maneira como os cartões de crédito funcionavam antigamente.
Para entender melhor: imagine que você realiza uma compra com o seu cartão de crédito. A loja responsável pela venda do produto ou serviço só recebe o valor após 30 dias ou de acordo com o parcelamento (se a compra foi parcelada em 4 vezes, ela receberá o valor ao longo desses 4 meses).
De acordo com ele, esses valores são os recebíveis de cartão de crédito. Basicamente, é uma forma de avisar a loja que a compra foi feita e que ela terá o direito de receber o valor integral ou parcelado, mas não na hora que a transação foi realizada.
Coquieri explica que antes da mudança feita pelo Banco Central, em 2019, os detentores dos recebíveis de cartão de crédito eram as maquininhas e só elas poderiam antecipar os valores. Era um instrumento bastante utilizado pelos bancos, com cada um possuindo a sua, algo que travava o mercado e atrapalhava o acesso às vendas e aos recebíveis.
Com isso, o Banco Central criou a figura das Registradoras, que seriam empresas responsáveis por receberem todas as transações realizadas via cartão de crédito. Ou seja, todas as vendas que você realiza geram um registro para a Registradora, tirando das mãos dos bancos ou da adquirente e levando tudo para uma central única.
Assim, é possível abrir mais o mercado de recebíveis de cartão de crédito, dando mais poder ao varejista, pois a venda agora seria dele, não mais da maquininha ou de qualquer outra pessoa.
Essa movimentação do Banco Central faz com que existam uma série de soluções para os recebíveis, como, por exemplo, pagar fornecedores com eles, ter novas formas de antecipação de vendas ou de crédito usando os recebíveis como lastro para essas operações.

