Nesta quarta-feira, 18, durante um painel sobre tokenização realizado no Merge São Paulo, representantes do BTG Pactual, Bradesco, Itaú e Santander afirmaram que a Rede Open Capital Markets, liderada pela Anbima, tende a se consolidar como a base da tokenização regulamentada no Brasil.
A rede foi lançada no início do ano e reúne bancos, corretoras e instituições financeiras em um ecossistema baseado em blockchain. O primeiro caso de uso já está em fase de testes e envolve debêntures tokenizadas, emitidas e geridas dentro da própria infraestrutura DLT.
Esses ativos passam a existir como tokens nativos, o que permite testar automação, rastreabilidade e identificação desde a origem. Ao mesmo tempo, o modelo busca validar todo o ciclo operacional dentro de um ambiente digital integrado.
A proposta, no entanto, vai além da digitalização. A iniciativa pretende criar uma infraestrutura comum para o mercado de capitais, conectando participantes e reduzindo fricções históricas do sistema financeiro.
Para André Portilho, Partner e Head de Digital Assets do BTG Pactual, o setor deixa para trás um período experimental e entra em uma etapa mais pragmática. Segundo ele, os últimos anos, especialmente com o Drex, serviram como base de aprendizado. Agora, o desafio é transformar esse conhecimento em infraestrutura funcional.
“O mundo inteiro está avançando nessa direção, e o Brasil precisa desenvolver sua própria infraestrutura para não depender de soluções externas”, afirmou.
Portilho também destacou que o país já construiu sistemas relevantes, como o SPB e o Pix, e que a nova rede nasce com vocação semelhante de integração. Além disso, ele ressaltou que a escolha das debêntures não foi aleatória. O instrumento combina volume relevante e estrutura simples, o que facilita a validação do modelo.
“Precisamos manter o foco em entregar algo funcional. Colocar no ar, testar, aprender e evoluir. O que muda não são as funções, mas a forma como executamos. A tecnologia permite operações 24/7, redução de custos e simplificação de processos”, explicou.
Bradesco vê rede como base para padrão global
Na visão de Courtnay Nery Guimarães, Head de Digital Assets do Bradesco, o mercado já começa a sair do campo teórico. Segundo ele, o aprendizado com o Drex abriu espaço para aplicações reais, incluindo operações com garantias colateralizadas e ativos com lastro.
“Saímos do conceito e começamos a entrar na prática”, afirmou.
Guimarães destacou ainda que a rede tem ambição maior. A proposta é consolidar a primeira grande infraestrutura de tokenização da América Latina, com potencial de expansão global. Ele também ressaltou ganhos de padronização e interoperabilidade. “Uma infraestrutura comum reduz complexidade e aumenta a eficiência operacional”, explicou.
Além disso, destacou a importância da governança. “Esse tipo de iniciativa exige coordenação entre players, e isso já representa um avanço relevante”, completou.
Itaú aponta desafio de governança e consenso
Guto Antunes, Head de Digital Assets do Itaú Unibanco, reforçou que o projeto depende diretamente do engajamento da indústria. Segundo ele, a Anbima tem desempenhado papel central ao abrir o projeto para participação ampla e estruturar grupos de trabalho.
“O modelo permite aprender com as dúvidas do mercado e ajustar o caminho conforme avançamos”, afirmou.
No entanto, Antunes foi direto ao apontar o principal obstáculo. “O maior desafio somos nós mesmos. Precisamos avançar coletivamente”, disse. Ele defendeu o conceito de “disagree and commit” como essencial para o progresso. Ou seja, discordar faz parte, mas não pode travar a execução.
Além disso, destacou que a rede terá papel relevante na regulação. “Vamos gerar insumos concretos para orientar adaptações regulatórias”, afirmou. Antunes também alertou para o risco de discussões excessivamente teóricas.
“Precisamos transformar o piloto em entregas reais e expandir para outras classes de ativos”, concluiu.
Santander reforça execução como principal gargalo
Vito Castanha, Head de Digital Assets do Santander Brasil, reforçou a visão de que o maior desafio não está na tecnologia.
“O gargalo está na nossa capacidade de avançar como indústria”, afirmou.
Assim como Antunes, ele destacou a importância de seguir adiante mesmo com divergências. “Não haverá consenso total, mas precisamos continuar evoluindo”, disse.
Castanha também destacou que a rede permitirá trazer mais materialidade para o debate regulatório, reduzindo a distância entre teoria e prática.
“Vamos gerar insumos concretos para orientar os ajustes necessários”, afirmou.
Ele ainda lembrou que os desafios atuais não são novos. Desde 2015, temas como governança e padronização já aparecem nas discussões sobre blockchain.
Por fim, reforçou a necessidade de escala. “Precisamos garantir que a iniciativa vá além das debêntures e alcance outras classes de ativos”, concluiu.

