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Escrito por Cassio GussonRedatorRevisado por Lucas CaramEditor

Tokens nativos de DeFi estão 'morrendo' e perdendo espaço para ações tokenizadas

Últimas NotíciasPublicado6 de ago. de 2026

Depósitos de ativos do mundo real em protocolos triplicaram para US$ 7,4 bilhões em um ano; no Brasil, avanço do crowdfunding e criação de grupo da CVM colocam a infraestrutura da renda fixa digital no centro do debate.

O movimento mais acelerado nas finanças on-chain não está vindo de uma nova criptomoeda. Está vindo de títulos do Tesouro dos Estados Unidos, ouro, crédito privado, índices como S&P 500 e Nasdaq-100 e ações de empresas de tecnologia e semicondutores.

Entre o segundo trimestre de 2025 e o segundo trimestre de 2026, os depósitos de RWAs em plataformas de empréstimos e exchanges descentralizadas mais que triplicaram, de US$ 2,3 bilhões para US$ 7,4 bilhões. No mesmo período, os depósitos totais em finanças descentralizadas (DeFi) recuaram cerca de 15%.

Os dados constam da segunda edição do relatório sobre “finanças híbridas” produzido pela gestora de ativos digitais CoinShares em parceria com a plataforma de dados on-chain Token Terminal. O estudo acompanha fundos, ações e commodities tokenizados e procura responder a uma pergunta que se tornou central para o setor: esses ativos estão apenas sendo emitidos ou já começaram a ser usados como instrumentos financeiros dentro das redes?

A resposta do relatório é que a utilização está crescendo mesmo em um ambiente de retração da atividade cripto nativa. Além dos depósitos, o volume à vista de RWAs em exchanges descentralizadas avançou aproximadamente 220% em um ano, embora partindo de uma base menor, enquanto o volume agregado das DEXs caiu cerca de 70%. Nos mercados de futuros perpétuos, volume e posições em aberto vinculados a ativos tradicionais continuaram aumentando durante a desaceleração mais ampla iniciada em outubro de 2025.

O contraste sustenta a tese da CoinShares de que blockchain e finanças tradicionais estão convergindo. Não seria a substituição de um sistema pelo outro, mas a migração gradual de produtos conhecidos para uma infraestrutura programável, disponível continuamente e capaz de conectar negociação, garantias e liquidação.

“Os investidores não estão deixando as finanças tradicionais para trás”, afirmou Jean-Marie Mognetti, cofundador e CEO da CoinShares, no material que acompanha o estudo. Para ele, o movimento representa “convergência, não ruptura”.

O que está sendo usado on-chain

No mercado de crédito descentralizado, a maior contribuição para o aumento dos depósitos veio de fundos tokenizados de títulos do Tesouro e de estratégias diversificadas, seguidos por produtos de crédito privado e estratégias neutras à variação de preço. O incentivo econômico é direto: ao ser depositado como garantia, um ativo que continua gerando rendimento reduz o custo de oportunidade do capital bloqueado.

Quase 70% dos depósitos de RWAs analisados estavam em protocolos de empréstimos construídos sobre a Ethereum. Plataformas como Aave e Morpho concentram parte relevante dessa atividade, enquanto Solana aparece com crescimento apoiado por aplicações nativas como a Kamino.

Nas negociações à vista, o ouro tokenizado lidera. Tokens como XAUT e PAXG responderam por uma parcela importante do volume, segundo CoinShares e Token Terminal. Fundos tokenizados vêm em seguida, enquanto ações representadas on-chain começam a ganhar participação.

Nos futuros perpétuos, a composição muda. Petróleo e metais preciosos têm peso elevado no volume, enquanto S&P 500, Nasdaq-100 e ações de tecnologia e semicondutores atraem tanto negociação quanto capital mantido em posições abertas.

Um mercado de quase US$ 38 bilhões

O painel da RWA.xyz mostrava, em 6 de agosto, cerca de US$ 37,93 bilhões em ativos distribuídos on-chain, excluindo stablecoins. Só os produtos ligados a títulos do Tesouro americano somavam aproximadamente US$ 16,12 bilhões na mesma data. No fim de julho, o recorte citado pelo Mercado Bitcoin apontava US$ 36,8 bilhões no total e cerca de US$ 16,2 bilhões em Treasuries tokenizados.

A CoinShares, usando dados da Token Terminal e um universo próprio de fundos, ações e commodities, afirma que a capitalização on-chain dos RWAs já superou US$ 40 bilhões. Os totais não devem ser comparados sem considerar data, fonte e metodologia. A RWA.xyz, por exemplo, separa ativos “distribuídos”, que podem circular em carteiras e mercados externos ao emissor, de ativos apenas “representados” em uma rede. A CoinShares também exclui de seu estudo redes cujos ativos não são amplamente transferíveis nos ambientes de empréstimos e negociação avaliados.

O caso brasileiro: crédito ganha uma nova camada

No Brasil, o ponto de contato mais concreto entre tokenização e economia real está no crédito. A chamada renda fixa digital mantém a lógica básica de uma operação tradicional, um emissor capta recursos e assume a obrigação de remunerar e devolver o capital segundo condições definidas, mas usa tokens e blockchain para representar direitos econômicos e organizar parte dos registros.

Uma aplicação recorrente envolve recebíveis. Uma empresa vende produtos ou serviços a prazo, mas precisa antecipar os recursos para financiar sua operação. Os direitos de recebimento podem ser agrupados em uma estrutura de crédito, e unidades digitais representam a participação econômica dos investidores. À medida que os devedores pagam, os valores são distribuídos conforme as regras da operação.

“A grande transformação acontece nos bastidores”, disse Pedro Fontes, analista de Research do MB | Mercado Bitcoin, em posicionamento enviado ao Cointelegraph Brasil. Na avaliação dele, a tecnologia integra processos que antes ficavam fragmentados entre vários participantes.

Segundo dados fornecidos pelo próprio Mercado Bitcoin, a plataforma realizou mais de 800 emissões tokenizadas desde 2019, movimentando aproximadamente R$ 2,5 bilhões, dos quais R$ 1,2 bilhão em 2025.

O Relatório de Gestão 2025 da CVM informa que as plataformas de investimento participativo regidas pela Resolução CVM 88 realizaram 861 ofertas e captaram R$ 3,9 bilhões naquele ano, ante 403 ofertas e R$ 1,2 bilhão em 2024. Isso corresponde a alta de aproximadamente 114% na quantidade e 225% no volume.

No primeiro semestre de 2026, a expansão continuou. O Boletim Econômico do segundo trimestre registrou 477 emissões sob a Resolução CVM 88, 49,1% acima das 320 do mesmo período de 2025. O volume aumentou 75%, de R$ 1,2 bilhão para R$ 2,1 bilhões.

O avanço do mercado levou a CVM a criar, em julho, um Grupo de Trabalho de Tokenização. Instituído pela Portaria CVM/PTE 177, o grupo tem prazo inicial de 120 dias e reúne representantes de 14 áreas da autarquia. Entre as atribuições estão estudar experiências nacionais e internacionais, analisar testes anteriores, avaliar impactos de tecnologias de registro distribuído e propor bases para uma futura regulação de valores mobiliários tokenizados.

Custos menores?

Um estudo publicado pelo Banco Central Europeu (BCE) em 2026 encontrou sinais de ganho econômico em títulos tokenizados. Depois de comparar papéis de emissores semelhantes, os pesquisadores observaram que o spread de rendimento na emissão foi, em média, 0,14 ponto percentual menor nos títulos tokenizados, uma redução média de 40% em relação aos convencionais comparáveis.

Na negociação secundária, o spread entre os preços de compra e venda ficou 0,05 ponto percentual menor, equivalente a uma redução média de 27%. Spreads menores normalmente indicam custo de transação mais baixo e maior liquidez.

A amostra usada para o teste de emissão continha 23 títulos tokenizados e 49 convencionais, com 58 pareamentos. Para liquidez, o painel final reuniu 20 títulos tokenizados e 75 convencionais.

“A infraestrutura de tokenização está se tornando essencial para a arquitetura do mercado financeiro”, afirmou Ashish Sethi, CEO da D24 Fintech, em comentário enviado ao Cointelegraph Brasil.
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