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Escrito por Cassio Gussonstaff writerRevisado por Lucas Caramstaff editor

Tokenização pode ser o 'Pix do crédito' e reduzir custo do mercado privado no Brasil

Últimas NotíciasPublicadoJun 12, 2026

Tokenização pode reduzir custos, acelerar o crédito privado e ampliar a rastreabilidade em nova infraestrutura debatida por ABToken e AmFi.

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A tokenização pode assumir no mercado de crédito privado um papel semelhante ao que o Pix assumiu nos pagamentos: reduzir custos, encurtar prazos, ampliar o acesso e criar uma nova infraestrutura financeira no Brasil. Essa foi uma das principais teses debatidas no webinar “O Custo Invisível do Crédito”, promovido pela ABToken e pela AmFi, com mediação do jornalista Aluisio Alves, do Crédito Privado 360.

O debate reuniu Regina Pedroso, diretora executiva da ABToken, e João Pirola, cofundador e CRO da AmFi, para discutir como blockchain, tokenização, smart contracts, inteligência artificial e novas regras da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) podem remodelar a forma como empresas acessam capital no país.

Na abertura do debate, Aluisio Alves afirmou que o Brasil costuma concentrar a discussão sobre o custo do crédito na taxa básica de juros, mas que o problema envolve uma cadeia muito mais ampla. Segundo ele, crédito direcionado, entraves legais, custos fiscais, concentração bancária, ineficiências operacionais e processos analógicos também pesam no valor final pago por empresas e consumidores.

Ele destacou que o mercado de capitais passou a ganhar relevância como fonte de financiamento para empresas, mas ainda opera com muitas fricções. Ele citou os FIDCs como exemplo de estrutura que, de uma ponta a outra, pode passar por diversos intermediários antes de chegar ao investidor e ao tomador.

Essas camadas, segundo o debate, criam o chamado “custo invisível do crédito”: despesas, atrasos e riscos que nem sempre aparecem de forma clara, mas que reduzem a rentabilidade do investidor e aumentam o custo para quem precisa captar recursos.

Tokenização como infraestrutura, não apenas distribuição

João Pirola afirmou que o mercado de capitais brasileiro se parece com uma estrada que recebeu cada vez mais carros, mas sem obras suficientes de ampliação. Para ele, a tokenização surge como uma forma de aumentar a capacidade dessa infraestrutura.

“A gente tem hoje a infraestrutura do mercado de capitais como se fosse uma estrada que tem recebido cada vez mais carros”, disse Pirola.

Segundo o executivo, a tokenização já mostrou impacto relevante na distribuição de ofertas, especialmente em operações reguladas pela Resolução CVM 88. Ele afirmou que esse modelo ajudou a abrir o mercado de capitais para operações menores, na faixa aproximada de R$ 1 milhão a R$ 30 milhões, que antes tinham menos acesso a fontes profissionais de financiamento.

Pirola também defendeu que o maior potencial da blockchain não está apenas na distribuição dos ativos, mas no uso da tecnologia durante todo o ciclo de vida de um produto de crédito. Isso inclui a emissão, a liquidação dos investidores, a cobrança, o recebimento e a aquisição de lastro.

Para ele, a blockchain permite criar um histórico de crédito menos sujeito a alterações indevidas, com mais transparência nas transações e mais visibilidade para investidores. Esse ponto, segundo o executivo, ainda aparece menos explorado pelo mercado, apesar de representar um ganho estrutural maior.

“Blockchain é um dado transparente e acessível”, afirmou Pirola, ao defender que a tecnologia pode se combinar com inteligência artificial para identificar problemas com mais velocidade.

Na visão do executivo, a IA funciona como uma camada de processamento sobre dados auditáveis. Assim, blockchain e inteligência artificial não competem entre si, mas se complementam: a primeira registra e torna verificáveis as informações; a segunda analisa padrões, inconsistências e riscos com mais agilidade.

Pirola afirmou que, nos próximos cinco anos, vê dificuldade em imaginar o mercado de capitais brasileiro sem uma combinação mais forte entre essas tecnologias.

Crédito cresce, mas gargalos ficam mais visíveis

Regina Pedroso afirmou que a discussão acontece em um momento importante para o mercado financeiro, especialmente diante da agenda da nova presidência da CVM. Segundo ela, a tokenização passou a ocupar espaço prioritário entre os temas que a autarquia deve enfrentar nos próximos meses.

A diretora executiva da ABToken afirmou que o mercado de capitais encerrou 2025 com R$ 838,8 bilhões em ofertas públicas, dos quais R$ 737 bilhões concentrados em renda fixa, conforme dados citados durante o webinar.

Ela também mencionou números da indústria de FIDCs e afirmou que o avanço da tokenização dialoga diretamente com o crescimento do crédito privado no Brasil. Para Regina, onde há inovação, há solução para problemas concretos de mercado.

“O mercado financeiro está discutindo a eficiência da tokenização e seus impactos positivos”, afirmou.

Apesar do crescimento, os participantes defenderam que a infraestrutura tradicional do crédito não avançou na mesma velocidade. Com mais emissões, mais investidores e mais empresas buscando financiamento fora dos bancos, problemas de governança, rastreabilidade, monitoramento e custos operacionais ficam mais evidentes.

Pirola afirmou que eventos recentes no crédito privado não devem ser vistos como casos isolados, mas como sintomas de um ambiente mais pressionado. Segundo ele, a combinação de Selic alta, desconfiança operacional, fraudes, atrasos e falhas tecnológicas aumenta o spread e deteriora a confiança nas carteiras.

O executivo disse que a tokenização não representa uma solução mágica para todos os problemas, mas pode reduzir assimetrias de informação e melhorar a auditabilidade das operações.

Regina reforçou esse ponto ao afirmar que rastreabilidade representa uma das principais contribuições da tecnologia blockchain. Segundo ela, a tokenização permite acompanhar o caminho do dinheiro desde a emissão até a distribuição e a liquidação.

“Rastreabilidade é uma das coisas mais importantes”, disse Regina.

Para a executiva, a tecnologia resolve parte relevante das ineficiências operacionais do mercado, especialmente quando se considera o tempo de liberação de crédito, o custo operacional e a necessidade de ampliar a confiança entre emissores, investidores, estruturadores e reguladores.

CVM, segurança e novas regras

Um dos pontos centrais do webinar foi a expectativa em torno da agenda regulatória da CVM. Regina afirmou que a ABToken acompanha de perto os debates sobre novas normas e espera avanços entre 2026 e 2027.

Segundo ela, o setor aguarda atualizações relacionadas à CVM 88, além de discussões envolvendo a Resolução CVM 175 e ajustes para permitir maior escala nas operações tokenizadas.

A executiva também destacou que o novo presidente da CVM colocou segurança operacional, governança, cibersegurança, prevenção à lavagem de dinheiro e supervisão de mercado entre os focos da autarquia. Para ela, esse movimento ajuda a separar empresas sérias de projetos sem estrutura adequada.

Regina citou quatro pontos que devem ganhar força na supervisão da tokenização: market surveillance, blockchain analytics, KYT e forensics.

Market surveillance envolve o monitoramento das negociações para detectar anormalidades. Blockchain analytics permite analisar origem e fluxo das transações on-chain. KYT, ou Know Your Transaction, ajuda a rastrear e qualificar o risco de cada operação. Já forensics envolve investigação aprofundada de padrões e evidências.

Segundo Regina, essa abordagem pode combater uma percepção negativa sobre a segurança das transações on-chain, ao mostrar que a blockchain permite uma camada superior de rastreabilidade e análise.

Ela também defendeu que a CVM precisa de mais estrutura e recursos para executar essa agenda. A executiva citou a expectativa de que decisões recentes direcionem mais recursos à autarquia, permitindo investimentos em tecnologia, pessoas e sistemas.

Sobre o sandbox regulatório, Regina afirmou que considera o modelo positivo e que o setor deve continuar propondo experiências desse tipo. No entanto, ela ponderou que a nova abordagem da CVM definirá se o caminho virá por sandbox, normas mais amplas ou uma combinação dos dois modelos.

Redução de custo já aparece, mas ainda não chega totalmente ao tomador

O webinar também trouxe uma discussão sobre o impacto da tokenização no custo efetivo do crédito. Pirola afirmou que, em operações high yield para originadores pequenos e médios, a AmFi observou queda em taxas que antes ficavam entre CDI + 6% e CDI + 8% ao ano.

Segundo ele, em alguns casos, a redução chegou a cerca de 2 pontos percentuais ao ano em um período relativamente curto.

“Pode não parecer, mas é muita coisa”, afirmou Pirola.

O executivo atribuiu parte desse movimento ao aumento de liquidez no crédito privado e parte ao uso de tecnologia para viabilizar operações menores, com melhor governança e acesso a fontes profissionais de funding.

Apesar disso, Pirola afirmou que o mercado ainda não repassou essa redução com a mesma intensidade para o tomador final. Na avaliação dele, o próximo desafio consiste em fazer a eficiência chegar à empresa que busca crédito, e não apenas ao investidor ou à estrutura intermediária.

Ele também ponderou que a Selic alta mascara parte do ganho de eficiência. Quando os juros básicos caírem, segundo ele, a pressão por estruturas mais baratas deve ficar mais evidente.

O executivo afirmou que a redução de intermediários e a adoção de infraestruturas mais programáveis podem gerar impacto maior no futuro, especialmente quando o mercado deixar de apenas tokenizar estruturas existentes e passar a operar com arquitetura realmente on-chain.

Tokenização completa ainda enfrenta três desafios

Pirola afirmou que o mercado não está tão distante de uma infraestrutura de crédito on-chain quanto parece. Segundo ele, boas instituições já usam blockchain e smart contracts em partes relevantes das emissões e das regras de negócio.

No entanto, ele apontou três desafios principais para que o mercado avance para uma arquitetura mais completa.

O primeiro envolve a própria infraestrutura de blockchain. Segundo Pirola, carteiras de crédito podem ter milhões de ativos, e representar todos esses ativos de forma nativa on-chain ainda representa um desafio de escala. Ele citou limitações relacionadas a volume, escalabilidade e transações por segundo.

O segundo desafio envolve mecanismos de liquidação regulados e on-chain. Para que uma operação de crédito funcione de ponta a ponta em blockchain, pagamentos, investimentos e liquidações também precisam ocorrer em uma infraestrutura compatível. Nesse contexto, stablecoins reguladas podem exercer papel central.

O terceiro desafio envolve padrões compartilhados no mercado de capitais. Para Pirola, não basta uma empresa desenvolver uma infraestrutura própria se ela não se conecta a um ecossistema mais amplo. O ganho estrutural depende de interoperabilidade, padronização e adoção por instituições relevantes.

Ele citou o piloto da Anbima como exemplo de iniciativa que pode ajudar a criar padrões de mercado e estimular a integração entre participantes.

O executivo também afirmou que o Pix funciona muito bem como meio de pagamento, mas não está on-chain. Por isso, provedores de pagamento ainda precisarão conectar essa ponta à infraestrutura tokenizada para permitir uma operação de crédito totalmente integrada.

O “Pix do crédito”

A comparação entre Pix e tokenização surgiu no debate como uma analogia sobre impacto estrutural. Ao responder se a tokenização poderia fazer pelo crédito o que o Pix fez pelos pagamentos, Regina afirmou que, em termos de velocidade, redução de custos e democratização, a comparação faz sentido.

Segundo ela, a tokenização representa uma nova economia. No primeiro momento, essa infraestrutura deve atingir grandes players institucionais e o mercado de crédito estruturado. No entanto, em um horizonte de cinco a dez anos, Regina acredita que os efeitos podem chegar ao cidadão comum.

“Daqui a cinco, dez anos isso atinge o cidadão comum”, afirmou.

Para a diretora da ABToken, a democratização do crédito significa ampliar escolhas. Pequenas e médias empresas passam a ter acesso a novas fontes de financiamento, além das grandes instituições tradicionais. Investidores, por sua vez, passam a contar com mais transparência sobre lastro, risco e fluxo dos recursos.

Regina afirmou que a tokenização permite originação em escala, com originadores médios e pequenos viabilizando operações antes restritas a grandes securitizadoras. Ela também destacou a distribuição híbrida e fluida, capaz de pulverizar o acesso e gerar maior liquidez.

No debate, a executiva citou dados da plataforma RWA Monitor, segundo os quais o mercado brasileiro de tokenização de ativos do mundo real movimentou R$ 3,76 bilhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 121% em relação ao ano anterior. Ela também afirmou que as emissões chegaram a R$ 1,5 bilhão em janeiro de 2026.

Regina associou esse movimento a uma tendência global de adoção institucional. Segundo ela, instituições reguladas começam a incorporar infraestruturas tokenizadas em suas transações financeiras, em movimento semelhante ao avanço das stablecoins no mercado cripto nos últimos anos.

Ela citou Estados Unidos, Stellar, BlackRock e JPMorgan como exemplos de players e ecossistemas que impulsionam essa agenda fora do Brasil. Também mencionou a B3 e eventos voltados à tokenização como sinal de que o mercado tradicional já acompanha a transformação.

Microcrédito também pode sentir impacto

Na parte final do webinar, os participantes responderam uma pergunta da audiência sobre o possível impacto da tokenização no microcrédito.

Pirola afirmou que a tecnologia pode beneficiar esse segmento porque o microcrédito depende de escala e baixo custo operacional para fechar a conta. Segundo ele, infraestruturas mais baratas podem viabilizar operações menores e abrir nichos que hoje não compensam economicamente.

O executivo afirmou que a AmFi já opera carteiras com tíquete médio baixo, o que, em sua avaliação, se aproxima da lógica do microcrédito. Para ele, os benefícios discutidos no webinar podem se estender a diferentes categorias de crédito e tipos de garantia.

Regina concordou, mas acrescentou que o avanço depende também de educação financeira. Segundo ela, investidores e tomadores precisam entender melhor as opções disponíveis no mercado para tomar decisões mais conscientes.

Para a executiva, a tokenização oferece escolha, mas o tomador precisa ter capacidade de comparar alternativas, avaliar riscos e entender o custo real do crédito.

Próximos 12 meses devem acelerar adoção institucional

Ao projetar os próximos passos do setor, Pirola afirmou que o movimento mais relevante no curto prazo deve ser a adoção de blockchain por instituições financeiras reguladas e players de grande porte.

Segundo ele, antes mesmo da eliminação de intermediários em escala ampla, o mercado deve observar mais bancos, corretoras, DTVMs, securitizadoras e instituições tradicionais testando ou incorporando infraestruturas tokenizadas em parte de suas operações.

Pirola disse que a tokenização não deve ficar restrita a criptoativos. Para ele, a grande temática dos próximos 12 meses será a entrada de instituições reguladas no uso de blockchain como infraestrutura para crédito e mercado de capitais.

Regina reforçou que o setor vive um momento de transformação, mas ainda precisa enfrentar desafios regulatórios, tecnológicos e educacionais. Para ela, a tokenização carrega um potencial disruptivo comparável a outras grandes mudanças da infraestrutura financeira brasileira.

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