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Escrito por Cassio GussonRedatorRevisado por Lucas CaramEditor

'Stablecoins não deixam remessas mais baratas e perderam sua função', defende Roberto Campos Neto

Últimas NotíciasPublicado3 de ago. de 2026

Ex-presidente do Banco Central aponta custos nas conversões, alerta para dolarização e defende o Drex como alternativa pública e regulada.

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As stablecoins não cumprem necessariamente a promessa de baratear remessas internacionais e se afastaram de sua função original como instrumentos de pagamento, segundo Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central do Brasil.

Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, Campos Neto afirma que esses ativos passaram a funcionar principalmente como reserva de valor, proteção contra a inflação e instrumento de negociação no mercado cripto.

“Nasceram como meio de pagamento: instantâneo, barato, sem fronteiras. Mas comportam-se cada vez mais como reserva de valor”, afirmou.

Para Campos Neto, esse movimento criou um paradoxo. O mercado de stablecoins cresceu de menos de US$ 7 bilhões, em 2020, para mais de US$ 315 bilhões no primeiro semestre de 2026, mas não consolidou seu uso cotidiano nos pagamentos.

Tether (USDT) e USD Coin (USDC) dominam esse mercado, com aproximadamente US$ 190 bilhões e US$ 80 bilhões em circulação, respectivamente. Em 2025, o volume ajustado de transações com stablecoins avançou 91% e chegou perto de US$ 11 trilhões, segundo os dados citados pelo ex-presidente do BC.

Conversão encarece remessas com stablecoins

A principal crítica de Campos Neto envolve o custo real das transferências internacionais. Embora uma blockchain possa movimentar stablecoins por poucos centavos, o usuário ainda precisa converter sua moeda local em um token e realizar outra conversão no país de destino.

Campos Neto compara esse processo a um “sanduíche”: a blockchain ocupa o meio da operação, enquanto as duas pontas concentram os custos. A avaliação toma como base o estudo Competing Rails for Cross-Border Payments: Banks, Fintechs and Stablecoins, de Wenxin Du, Catherine Huang e David Scharfstein.

Os pesquisadores analisaram os custos de pagamentos internacionais realizados por bancos, fintechs e stablecoins. A transferência pela blockchain representa apenas uma etapa da operação. O usuário também enfrenta taxas cobradas pelas exchanges, diferenças cambiais e custos fixos. Segundo Campos Neto, as tarifas nas plataformas podem chegar a 100 pontos-base, equivalentes a 1% da operação.

Esses custos afetam principalmente as remessas de menor valor. Em alguns corredores internacionais, fintechs como Wise e Remitly conseguem realizar transferências por preços inferiores. O ex-presidente do BC também questiona a suposta eficiência das stablecoins em países que impõem controles cambiais.

Nessas economias, o preço mais alto do dólar costuma refletir a dificuldade de acesso à moeda norte-americana. Nesse caso, a stablecoin permite contornar a restrição, mas não elimina a distorção do mercado. Além disso, mercados com baixa liquidez podem apresentar maior volatilidade e perdas mais elevadas nas transferências de grande valor.

Produtos com rendimento ameaçam depósitos bancários

Campos Neto também relaciona o crescimento das stablecoins ao avanço de produtos que oferecem rendimentos atrelados aos títulos públicos dos Estados Unidos. O GENIUS Act, transformado em lei em julho de 2025, proibiu os emissores de remunerar diretamente os usuários apenas pela manutenção de tokens de pagamento.

A legislação, contudo, não proibiu de maneira expressa que exchanges, empresas afiliadas ou outras plataformas ofereçam recompensas sobre os ativos.

De acordo com Campos Neto, essa estrutura dividiu o mercado. USDT e USDC continuam como stablecoins sem rendimento próprio, enquanto outros produtos repassam retornos entre 3% e 5% por meio de aplicações em títulos do Tesouro americano.

Esses instrumentos ganham força principalmente em países com inflação elevada e moedas locais pouco confiáveis. Os usuários passam a utilizá-los como uma poupança dolarizada. O modelo, entretanto, pode acelerar a desintermediação bancária. Produtos remunerados concorrem com os depósitos tradicionais que os bancos utilizam para financiar empréstimos.

Campos Neto também alerta para uma “dolarização involuntária”. À medida que famílias e empresas substituem depósitos na moeda nacional por stablecoins, o banco central perde parte de sua capacidade de influenciar a economia por meio da política monetária.

Autocustódia amplia desafios regulatórios

Outra preocupação envolve o crescimento das stablecoins mantidas em carteiras de autocustódia, nas quais o próprio usuário controla as chaves criptográficas.

Campos Neto cita um trabalho apresentado por Gita Gopinath no Banco de Compensações Internacionais (BIS). A pesquisa estima que entre 70% e 75% dos saldos de USDT e USDC permanecem em carteiras dessa modalidade.

O levantamento compara essas carteiras ao dinheiro físico, embora reconheça diferenças importantes. A blockchain registra publicamente as transações, mas nem sempre revela a identidade ou a localização de quem controla cada endereço.

A pesquisa apresentada no BIS não afirma que a maioria dos usuários de autocustódia participa de atividades ilícitas. O estudo destaca que essa estrutura dificulta a fiscalização prévia baseada em identificação.

As transferências entre duas carteiras privadas também podem ocorrer sem passar por exchanges submetidas às regras de identificação dos clientes. Por isso, segundo Campos Neto, uma regulamentação concentrada apenas nos emissores e nas exchanges centralizadas alcançaria uma parcela limitada das movimentações.

Dados da Chainalysis apontam que endereços classificados como ilícitos receberam ao menos US$ 154 bilhões em 2025. As stablecoins representaram 84% desse volume.

A empresa ressalta, porém, que as operações ilícitas corresponderam a menos de 1% de todo o volume cripto atribuído analisado no período. Campos Neto também reconhece que a digitalização não cria os crimes. Para ele, parte das operações ilegais que antes utilizava dinheiro físico migrou para os ativos digitais.

Drex pode servir de modelo para bancos centrais

Apesar das críticas, Campos Neto não defende o combate à tokenização ou a proibição das stablecoins. Para o ex-presidente do BC, a transformação da economia por meio de ativos digitais tornou-se irreversível.

Ele atribui parte dos problemas das stablecoins não reguladas à falta de uma alternativa pública capaz de oferecer dinheiro digital programável. O mercado privado ocupou esse espaço porque os bancos centrais ainda não disponibilizaram uma infraestrutura com os mesmos recursos de programação e liquidação encontrados no ecossistema cripto.

Nesse cenário, Campos Neto considera que stablecoins reguladas, com reservas transparentes e supervisão, podem integrar a nova infraestrutura financeira. O ex-presidente do BC apresenta o Drex como uma proposta mais completa para levar a programabilidade e parte da eficiência das finanças descentralizadas ao ambiente regulado.

O projeto do Banco Central busca criar uma infraestrutura para a negociação e a liquidação de ativos tokenizados. A plataforma também pretende permitir operações de crédito garantidas por ativos digitais, sem retirar essas transações do alcance das autoridades.

Na avaliação de Campos Neto, essa combinação permitiria aproveitar os ganhos da tokenização sem abrir mão do controle monetário, da identificação dos participantes e da supervisão financeira.

Por esse motivo, ele considera que o Drex pode servir de modelo para outros bancos centrais. As stablecoins, segundo sua análise, já revelaram a demanda por dinheiro programável; agora, as autoridades precisam oferecer uma infraestrutura adequada para a economia tokenizada.

No entanto, atualmente o Drex abandonou o uso de blockchain nos testes e, apesar do BC ter declarado que os testes seguiriam em outro formato neste ano, até o momento, não houve qualquer anuncio do regulador sobre a nova fase.

Sim. Essa análise reforça a tese de Campos Neto ao mostrar que o problema não está na adoção dos pagamentos digitais, mas na confiança e na utilidade percebida das stablecoins.

Consumidores dos EUA ainda resistem às stablecoins

A popularização das carteiras digitais ainda não se traduziu em maior interesse pelas stablecoins nos Estados Unidos, segundo pesquisa da S&P Global Market Intelligence referente ao segundo trimestre de 2026.

O levantamento mostrou que 67% dos consumidores utilizaram carteiras digitais em compras online nos 90 dias anteriores. Além disso, 45% afirmaram usar essas ferramentas semanalmente.

O comportamento muda quando a pesquisa aborda as stablecoins. Apenas 16% dos participantes conheciam esses ativos, enquanto as opiniões permaneceram divididas: 40% consideraram a proposta atraente, 40% demonstraram rejeição e 20% não apresentaram uma posição definida.

Compras online, formação de poupança, gastos cotidianos e transferências domésticas entre pessoas aparecem entre as possíveis aplicações mencionadas pelos consumidores. Entretanto, 48% apontaram fraudes e golpes como preocupação. Outros 46% questionaram a segurança do dinheiro, enquanto 39% consideraram as stablecoins desnecessárias.

As criptomoedas também permanecem distantes da maioria dos entrevistados. A pesquisa mostrou que 68% nunca utilizaram ou negociaram esses ativos e que 59% não enxergam potencial ou aplicação futura para eles. Somente 16% consideram as criptomoedas o futuro das finanças. O envolvimento aparece com maior intensidade entre a geração Z, com 41%, e entre os millennials, com 37%.

Os números sugerem que os consumidores norte-americanos aceitam soluções digitais quando elas facilitam pagamentos já conhecidos, mas ainda não identificam vantagens suficientes para substituir esses métodos por stablecoins.

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