Empresas de fintech e stablecoins deveriam olhar além do corredor EUA–México para capturar o mercado de remessas da América Latina, avaliado em US$ 174 bilhões, segundo uma ex-executiva da Bybit.
A maioria das empresas tem focado de forma muito restrita no mercado de US$ 61,8 bilhões entre EUA e México e está ignorando corredores com crescimento mais acelerado entre os EUA e a América Central, além das remessas dentro da própria América Latina, disse Claudia Wang em um post no X no domingo. “Os corredores que parecem ‘quentes’ agora não são os corredores para os quais a maioria das fintechs está otimizada”, afirmou, citando Venezuela–Colômbia, Argentina–Bolívia e Espanha–Equador como exemplos. O mercado de remessas fora do eixo EUA–México gira em torno de US$ 112 bilhões.
“Pare de tratar a América Latina como um único mercado”, disse Wang, acrescentando que passou seis meses estudando a região:
“Brasil, México, Argentina, Colômbia — cada um precisa de licenças diferentes, rails diferentes, stablecoins diferentes, marketing diferente. As empresas que vencem aqui operam stacks específicos por país, não regionais.”
As remessas nas Américas têm sido tradicionalmente feitas por meio de sistemas bancários por empresas como Western Union e MoneyGram. No entanto, ambas anunciaram planos para implementar infraestrutura de stablecoins após a aprovação do GENIUS Act em julho.
A Western Union está desenvolvendo sua própria stablecoin atrelada ao dólar, a USDPT, que está na fase final de preparação e deve ser lançada ainda este mês.
Empresas cripto nativas como Binance, Bitso, Strike e Felix Pago também estão competindo no mercado de remessas da América Latina, assim como bancos e empresas de varejo e telecomunicações, como Walmart e Tigo, observou Wang.
Política migratória dos EUA influencia o mercado de remessas
Wang destacou que o corredor EUA–América Central “está explodindo”, com remessas para Honduras, El Salvador e Guatemala crescendo 19%, 18% e 15%, respectivamente, em 2025.
Em contraste, as remessas no saturado corredor EUA–México caíram 4,5%, para US$ 61,8 bilhões.
Segundo Wang, a divergência entre o crescimento da América Central e a queda no México é resultado da política migratória dos EUA:
“Migrantes da América Central estão enviando mais dinheiro para casa — com mais frequência e em valores maiores — como forma de proteção contra o risco de deportação.”
Já o México possui uma “diáspora mais estabelecida e documentada” e, portanto, “não apresenta o mesmo comportamento de envio por pânico”, explicou.

Sobre os corredores fora dos EUA, Wang destacou que, embora alguns desses mercados sejam pequenos em termos absolutos, eles são “pouco atendidos” por operadores tradicionais de transferência e “quase intocados” por infraestrutura cripto.
Latino-americanos querem guardar stablecoins, não apenas transferi-las
Wang também afirmou que muitas fintechs ocidentais ainda não perceberam que, na América Latina, o verdadeiro “killer app” é manter stablecoins, não apenas movimentá-las.
“Os usuários não querem ‘usar’ stablecoins em uma transação e depois converter para moeda local. Eles querem guardar dólares. A transação é um efeito colateral.”
Segundo ela, ainda não há um vencedor claro no mercado de remessas da região, mas as empresas que dominarão a próxima década serão aquelas que combinarem infraestrutura local, liquidez em stablecoins, confiança e economia em ciclo fechado: enviar → guardar → gastar → gerar rendimento.
Ela acrescentou que muitas fintechs construíram produtos pensando em traders cripto de 25 anos, e não no usuário médio de remessas, que tem entre 40 e 60 anos e geralmente não é familiarizado com tecnologia.

“Se o seu produto faz um trabalhador de fábrica de 50 anos em Nova Jersey pensar por mais de 30 segundos antes de enviar US$ 300 para a mãe em Honduras, você já perdeu”, disse Wang:
“A indústria cripto passou cinco anos otimizando para o usuário errado. O cliente de remessas na América Latina não quer ‘autocustódia’. Ele quer saber que o dinheiro chegou.”

