A Fundação Ethereum revelou nesta semana um conjunto de inovações que devem redefinir a arquitetura da rede a partir de 2026. As atualizações foram apresentadas durante a conferência EthCC[9] e mostram uma mudança clara de prioridade: o protocolo passa a focar em privacidade nativa, redução da dependência de intermediários e redistribuição de valor econômico dentro da rede.
Entre os destaques, está o avanço do framework de privacidade Kohaku, que evolui de uma solução voltada à camada de aplicação para uma abordagem integrada entre rede, hardware e clientes leves. Ao mesmo tempo, a introdução do modelo de Execution Tickets sinaliza uma reformulação profunda na forma como o valor gerado pelas transações é distribuído entre participantes.
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De acordo com Vadim Taszycki, head of growth da StealthEX, essas mudanças colocam mais controle nas mãos do usuário comum. Com a integração do cliente leve Helios e o fim da dependência de serviços como Infura, o usuário passa a validar suas próprias transações diretamente no dispositivo.
Segundo ele, isso reduz riscos de censura, vazamento de dados e rastreamento de comportamento. Além disso, o uso de TEE e ORAM impede que terceiros descubram quais carteiras ou dados estão sendo consultados, enquanto o sistema de endereços isolados por DApp elimina a ligação entre diferentes atividades. O resultado é uma experiência mais privada, onde navegar no Ethereum deixa de expor padrões de uso.
“Ao mesmo tempo, o novo modelo econômico com Execution Tickets tende a tornar o ecossistema mais justo e previsível. Como o valor do MEV deixa de ficar concentrado em poucos participantes e passa a ser parcialmente “devolvido” ao sistema via queima de ETH, todos os detentores da moeda se beneficiam indiretamente. Para quem faz staking, a renda fica mais estável e menos dependente de infraestrutura avançada, o que reduz barreiras de entrada. Na prática, isso abre espaço para mais usuários participarem da rede, aumenta a descentralização e diminui a vantagem competitiva de grandes operadores”, afirma Taszycki.
Privacidade avança para o nível de infraestrutura
De acordo com o anúncio, a nova versão do Kohaku incorpora o cliente leve Helios diretamente em carteiras digitais por meio de SDKs. Com isso, usuários passam a validar suas próprias transações sem depender de provedores centralizados como Infura ou Alchemy. Na prática, a mudança reduz significativamente a exposição de dados como IP e comportamento transacional, hoje acessíveis por esses intermediários.
Além disso, o framework introduz tecnologias como Trusted Execution Environment (TEE) e Oblivious RAM (ORAM). Essas soluções impedem que terceiros identifiquem quais dados estão sendo acessados, mesmo por meio de análise de tráfego. Ou seja, o simples ato de consultar uma conta deixa de ser rastreável.
Outro ponto relevante é a implementação de um sistema automático de roteamento de privacidade. A funcionalidade cria endereços isolados para cada aplicação descentralizada (DApp) acessada pelo usuário, eliminando a possibilidade de correlação entre atividades em diferentes plataformas.
Segundo os desenvolvedores, um grupo dedicado dentro do programa Ethereum Protocol Fellowship (EPF) já trabalha na integração profunda do Kohaku aos principais clientes da rede, o que indica que a solução deve ganhar escala gradualmente.
Novo modelo econômico busca reduzir concentração de poder
No campo econômico, a Fundação Ethereum apresentou o conceito de Execution Tickets, uma proposta que altera o funcionamento do atual modelo de Proposer-Builder Separation (PBS). Hoje, construtores de blocos concentram grande parte do poder ao definir a ordem das transações e capturar valor por meio de MEV (Maximal Extractable Value).
Com o novo modelo, o direito de executar e ordenar transações dentro de um bloco será leiloado por meio de tickets. Os validadores permanecem responsáveis apenas pela validação e consenso, deixando de participar diretamente da disputa por MEV.
A principal mudança está na destinação da receita: os valores pagos pelos tickets serão queimados pelo protocolo, em um mecanismo semelhante ao EIP-1559. Dessa forma, o valor antes capturado por poucos participantes passa a beneficiar todo o ecossistema, ao reduzir a oferta total de ETH.
Além disso, a proposta tende a tornar a renda dos validadores mais previsível. Sem a necessidade de competir por MEV ou operar infraestruturas complexas, o staking se torna mais acessível para participantes menores, incluindo operadores domésticos.
A Fundação Ethereum também destacou que os Execution Tickets fazem parte da fase “The Scourge” do roadmap, voltada à mitigação de censura e concentração de poder. Combinados a mecanismos adicionais, como listas de inclusão obrigatória, eles devem reforçar a neutralidade da rede.

