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Cassio Gusson
Escrito por Cassio Gusson,Redator
Lucas Caram
Revisado por Lucas Caram,Editor da Equipe

'Carteiras cripto se tornaram a carteira do inspetor bugiganga', e isso é ruim para o usuário', diz especialista

Especialista alerta que excesso de funções nas carteiras cripto pode prejudicar a experiência e afastar usuários.

'Carteiras cripto se tornaram a carteira do inspetor bugiganga', e isso é ruim para o usuário', diz especialista
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Todos os dias recebemos releases aqui no Cointelegraph Brasil, falando sobre carteiras cripto que implementaram uma nova função, seja pagamento, adicionar crédito no celular, vale presente para apps como Netflix…. carteiras que integram NFTs, que integram ordinals, que permitem enviar dinheiro para outros países… carterias que tem cartão de crédito, que tem empréstimos, que tem avatar…

Assim, o que antes servia apenas para guardar ativos agora reúne troca de tokens, NFTs, serviços DeFi, pagamentos e até experiências de metaverso, buscando trazer para o ecossistema cripto a mesma lógica da web 2 de ‘super apps’, como Yandex, Grab e o que almeja ser a Meta.

No entanto, para alguns especialistas, essa expansão não traz benefícios e pode criar um novo problema relacionado justamente ao excesso de funções que prejudicam a experiência do usuário.

Durante uma entrevista ao Cointelegraph Brasil, um representante da plataforma SwapSpace, que estará presente no evento Merge, compara a situação a um personagem famoso dos desenhos animados.

“Às vezes parece que as carteiras viraram um canivete suíço com vinte lâminas. Mas, se você não é o Inspetor Bugiganga, pode acabar se machucando só tentando abrir uma cerveja”, afirmou o especialista.

Estudos citados pelo especialista indicam que 73% dos usuários retornam em até 30 dias quando o primeiro swap funciona corretamente. Segundo ele, muitas carteiras investem em funcionalidades extras, mas negligenciam o momento mais importante da jornada do usuário.

“Você pode adicionar galerias de NFT, áreas de metaverso ou cartões de fãs de clubes. Mas se o primeiro swap falhar, o usuário simplesmente vai embora”, afirmou.

O problema se agrava quando a interface exige muitos passos para concluir uma transação. Em alguns casos, o usuário precisa navegar por várias telas, confirmar múltiplas operações e entender conceitos técnicos como taxas de gas.

Mesmo protocolos com grande liquidez podem enfrentar dificuldades se o processo se torna complicado demais.

“Você pode ter liquidez de nível mundial, como a da Uniswap. Mas se o usuário precisa passar por 15 telas, assinar três transações e pesquisar o que são taxas de gas, ele vai procurar outra plataforma”, explicou.

Confira a entrevista completa.

Carteiras cripto e canivete suiço

Cointelegraph Brasil (CTBR): As carteiras cripto deixaram de ser apenas ferramentas de custódia e estão se transformando cada vez mais em hubs completos de serviços. Essa transformação melhora a experiência do usuário ou corre o risco de tornar o produto complexo demais?

Swapspace (SP): As vezes parece que as carteiras viraram um canivete suíço: 20 ferramentas diferentes, mas, a menos que você seja o Inspetor Bugiganga, pode acabar se machucando só tentando abrir uma cerveja. É uma forma divertida de explicar o problema, mas a questão é séria.

Pesquisas mostram que 73% dos usuários retornam em até 30 dias se a primeira troca (swap) for bem-sucedida. Isso explica por que carteiras podem adicionar galerias de NFT, seções de “metaverso” ou cartões de fãs de clubes de futebol, e ainda assim perder usuários se a função principal de swap falhar. A psicologia do usuário pode ser implacável, ou como Sheldon Cooper disse certa vez: “tu és sem coração.”

E, como mostraram Sheena Iyengar e Mark Lepper em seus famosos experimentos, quando as opções se tornam excessivas, a motivação diminui. O primeiro swap é o momento da verdade.

Veja o caso da Binance Wallet: ao simplificar a experiência de uso, ela alcançou 44 milhões de swaps por semana, movimentando cerca de US$ 27 bilhões em volume. Isso não é mágica, é priorizar a função principal. Todo o resto é como chocolate no caixa do supermercado: tentador, mas opcional. É bom quando tudo existe, mas é muito melhor quando o essencial simplesmente funciona.

Carteiras cripto não são simples de usar

CTBR: A indústria passou anos falando sobre adoção, mas os usuários ainda enfrentam jornadas fragmentadas, múltiplos aplicativos e integrações difíceis. Hoje, o maior gargalo é tecnologia, liquidez ou design de experiência do usuário?

SP: Esse é o clássico debate: o que veio primeiro, o ovo ou a galinha? No mundo cripto, porém, a resposta é surpreendentemente simples: o verdadeiro gargalo é a experiência do usuário, que pode comprometer até a melhor tecnologia ou liquidez.

Você pode ter liquidez de nível mundial, como a da Uniswap, mas se o usuário precisa passar por 15 telas, assinar três transações e pesquisar no Google o que são taxas de gas, ele simplesmente migrará para uma plataforma de memecoins em Solana, onde tudo parece funcionar “como Web2”.

Fizemos uma pesquisa que mostrou que o KYC reduz em 41% a conclusão do primeiro swap. Esse dado revela um desafio importante de design. Imagine abrir uma carteira apenas para trocar USDT por outra moeda e, de repente, ser obrigado a parar, enviar documentos e esperar verificação.

Para muitos usuários, especialmente aqueles que esperam transações rápidas, esse momento cria fricção em uma ação financeira que deveria ser simples. Não significa que compliance seja desnecessário, regulação é parte essencial da maturidade do setor. O verdadeiro desafio é criar sistemas onde exigências regulatórias não interrompam a experiência principal.

Ou seja, a questão não é se o KYC deve existir, mas como integrá-lo de forma inteligente para que os usuários consigam completar ações essenciais sem barreiras desnecessárias.

Voltando às 15 telas: UX não se resume a ícones ou fontes. Trata-se de responsabilidade sobre toda a jornada, da cotação à execução, das taxas de gas ao status final da transação. E essa jornada tem pontos críticos claros: falta de gas nativo, falhas por slippage, ausência de liquidez ou atrasos cross-chain.

Em 2026, os melhores gestores de produto pensarão como produtores: removerão etapas que usuários não entendem e automatizarão cenários de recuperação para que falhas não resultem em abandono. Afinal, os usuários não comparam protocolos. Eles comparam apenas uma coisa: “funcionou” ou “não funcionou.”

Swaps integrados

CTBR: Em um mercado com milhares de ativos e liquidez distribuída entre diferentes provedores, o acesso eficiente a swaps virou apenas conveniência ou já se tornou um fator competitivo central?

SP: Swaps integrados transformam uma carteira de simples interface de saldo em plataforma econômica. Surge monetização, aumenta o uso recorrente e cresce a retenção. Mas o elemento mais importante é confiança — e confiança, nesse contexto, é matemática.

O sistema precisa encontrar liquidez, resistir à volatilidade e explicar a formação de preços.

Segundo a Messari, a nova arquitetura Pathfinder melhora swaps em até 6,5%, graças a melhor roteamento e concentração de liquidez.

Para simplificar: o mercado cripto atual se parece com um supermercado onde cada produto tem seu próprio caixa. Maçãs em um caixa. Leite em outro. Algo exótico na prateleira do fundo? Saia da loja e procure outro mercado.

O problema não é apenas juntar todos esses caixas em um sistema único. O desafio maior é mostrar aos clientes o que realmente está nas prateleiras.

Muitos tokens, mas para que?

CTBR: Muitos usuários nem sabem que metade dos ativos existe porque estão escondidos atrás de diferentes provedores, redes e interfaces que eles nunca se darão ao trabalho de explorar. Será que o mercado ainda subestima o impacto da disponibilidade de tokens e das taxas de sucesso das transações na retenção de usuários?

SP: Muitos usuários abandonam uma plataforma quando não encontram determinados ativos ou quando a execução falha em momentos críticos.

Infelizmente, muitas dessas perdas são silenciosas. Usuários raramente escrevem: “vocês não tinham o par que eu precisava” ou “a troca falhou”. Eles simplesmente encontram outro caminho — e ficam lá.

A psicologia explica isso. Uma transação falhada é percebida como perda, e perdas pesam mais que ganhos equivalentes. Há também o que economistas comportamentais chamam de “imposto da atenção”.

Sob estresse financeiro, as pessoas toleram muito menos complexidade. Pesquisadores como Oliver Burkeman e Amos Tversky discutiram essa limitação da capacidade cognitiva.

Esse fenômeno aparece claramente na América Latina. Quando famílias recebem remessas internacionais e taxas ou câmbio reduzem seu valor, elas precisam de um caminho sem surpresas.

Em 2025, o México recebeu US$ 61,791 bilhões em remessas, com transferências médias de cerca de US$ 397. Isso cria uma enorme economia de pequenas transações onde preço e confiabilidade são prioridades diárias.

Até 2026, produtos realmente de alta qualidade não se orgulharão do número de recursos que oferecem, mas da raridade com que os usuários veem a palavra “falhou”.

O mercado ainda subestima drasticamente o impacto da disponibilidade de tokens e do sucesso na execução. Esses indicadores não aparecem em métricas populares como DAU ou TVL, mas determinam se um negócio existirá no próximo ano.

Carteira tudo em um

CTBR: A promessa da carteira “tudo em um” é poderosa, mas cada novo módulo aumenta a pressão sobre as equipes de produto, compliance e engenharia. Até que ponto o modelo de super app é realmente sustentável no universo cripto?

SP: O modelo de super app é sustentável, mas não no sentido de “vamos construir tudo sozinhos”. Ele funciona quando as equipes montam um sistema usando os melhores módulos disponíveis no mercado.

Algumas carteiras tentam desenvolver swaps internamente e acabam gastando cerca de US$ 250 mil e entre seis e nove meses de desenvolvimento, apenas para terminar com um produto pior do que uma API pronta.

A sustentabilidade dos super apps em cripto dependerá de parcerias e orquestração. Não é necessário construir cada módulo sozinho.

CTBR: À medida que o setor amadurece, o que realmente importa para o usuário médio: preços melhores, maior variedade de moedas, execução confiável ou a sensação de que ele não precisa sair daquele ecossistema para resolver outra necessidade?

SP: Na Argentina, a inflação oficial em 2025 ficou em cerca de 31,5%, após atingir 117,8% em 2024. Na Venezuela, o banco central registrou inflação mensal de 14,6% em fevereiro de 2026, enquanto estimativas da Reuters apontam inflação anual de centenas por cento.

Em ambientes como esses, as pessoas valorizam acesso a stablecoins e a capacidade de convertê-las rapidamente em moeda local.

Os usuários modernos precisam de menos “romantismo DeFi”. Eles precisam de um botão que funcione. Quando dinheiro está envolvido, as pessoas se tornam pragmáticas e suas prioridades passam a ser moldadas pela vida cotidiana.

Se a inflação corrói a poupança, velocidade e estabilidade tornam-se fundamentais. Se a regulação é rígida, transparência e conformidade ganham importância. Se os mercados são voláteis, os usuários valorizam execução confiável e proteção contra surpresas.

Quem vai vencer no futuro?

CTBR: Olhando para o futuro, as carteiras vencedoras serão aquelas que desenvolverem mais funções internamente ou aquelas que melhor conseguirem orquestrar liquidez, infraestrutura e experiência do usuário sem transformar o produto em um labirinto?

SP: Os números já apontam a resposta. Um relatório da Messari sobre a 1inch mostra como o setor está avançando para modelos baseados em intenção do usuário (intent-based) e competição entre resolvedores, onde qualidade de roteamento e mecânica de leilão se tornam o próprio produto.

Dados da Dune Analytics mostram outra camada dessa realidade: carteiras e redes nativas criam um efeito de volante (flywheel) no qual a plataforma que controla a melhor experiência integrada captura a maior parte do tráfego de swaps.

A conclusão é simples: os vencedores serão os orquestradores.

CTBR: A entrada de grandes bancos e gigantes de tecnologia, como a Meta, poderia remodelar o mercado de carteiras cripto nativas, especialmente se usuários menos familiarizados com criptomoedas migrarem para soluções mais familiares e confiáveis?

SP: As Big Tech dominam duas coisas melhor que o setor cripto: distribuição e familiaridade. Mas historicamente seu ponto fraco tem sido risco regulatório e contexto político. E, honestamente, essa é uma pergunta de um milhão de dólares — talvez até de um bilhão.

Acredito que o setor caminhará para um terceiro caminho: soluções híbridas.

Quer KYC e integração com moeda fiduciária? Tudo bem.
Quer privacidade e DeFi? Melhor ainda.

As carteiras que oferecerem aos usuários controle sobre o nível de abertura que desejam ter vencerão em ambas as categorias.

A entrada dos gigantes não representa o fim do mercado. É apenas a próxima etapa da evolução.

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