Nesta quinta, 14, durante um painel na abertura do Blockchain Rio em São Paulo, Thales Freitas, general manager da Crypto.com no Brasil, defendeu que o modelo tradicional das bolsas de valores perdeu relevância diante da velocidade dos mercados digitais operando em tempo integral.
Segundo o executivo, o fluxo financeiro global deixou de seguir o horário comercial dos pregões tradicionais e passou a migrar para plataformas capazes de oferecer negociação contínua, liquidez imediata e exposição a novos tipos de ativos digitais. Para Freitas, essa mudança representa uma ruptura semelhante à transformação provocada pela internet no mercado de mídia e comunicação.
Para ilustrar essa mudança, Freitas citou o ataque conjunto realizado por Estados Unidos e Israel contra o Irã em 28 de fevereiro deste ano, evento que elevou imediatamente as preocupações globais sobre uma possível interrupção no fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz, região responsável por cerca de 20% do abastecimento mundial da commodity. A escalada militar provocou forte reação nos mercados internacionais e levou analistas a projetarem uma disparada nos preços do petróleo.
Segundo o executivo, em crises anteriores investidores precisariam aguardar a abertura das bolsas na segunda-feira para negociar petróleo ou ajustar posições em ativos ligados ao conflito geopolítico. Agora, porém, os mercados digitais já operam continuamente durante fins de semana e madrugadas, permitindo reação praticamente instantânea aos acontecimentos globais.
“O investidor não quer mais esperar o pregão abrir. O mercado acontece onde a liquidez está”, afirmou.
Para Freitas, essa transformação já alterou de forma permanente o funcionamento do sistema financeiro global.
“O mercado já não gira quando a bolsa abre. O mercado roda onde a liquidez está”, disse.
Derivativos perpétuos
Além disso, Thales afirmou que outra das grandes invenções do mercado cripto foram os derivativos perpétuos. O executivo destacou que esse tipo de instrumento, negociado 24 horas por dia e sem vencimento definido, chegou a movimentar cerca de US$ 5 trilhões mensais em outubro do ano passado.
Em abril deste ano, o volume caiu para aproximadamente US$ 2 trilhões, movimento que ele atribui à desalavancagem do mercado e à queda do preço do Bitcoin.
Os dados apresentados por Freitas também mostram retração no mercado spot de criptomoedas. Segundo ele, o volume negociado caiu de US$ 1,2 trilhão para cerca de US$ 500 bilhões no mesmo intervalo.
Ainda assim, o executivo argumenta que a redução de liquidez não significa enfraquecimento estrutural do setor, mas sim uma redistribuição de capital para novas narrativas digitais.
Na avaliação dele, parte relevante desse fluxo migrou para empresas ligadas à inteligência artificial, mercados preditivos e ativos tokenizados do mundo real, conhecidos como RWAs. O executivo citou o avanço de empresas como OpenAI e Anthropic, que seguem captando bilhões de dólares em rodadas privadas, além do crescimento acelerado dos mercados de previsão nos Estados Unidos.
“Liquidez funciona como um rio. Se você coloca uma pedra no caminho, ela muda de direção, mas continua fluindo”, afirmou.
Tokenização
Entre os segmentos destacados pelo executivo, os RWAs apareceram como um dos principais vetores de crescimento da indústria.
Segundo Freitas, mais de US$ 525 bilhões foram negociados nesse mercado apenas no primeiro trimestre deste ano em plataformas centralizadas, um salto significativo para um setor que praticamente não existia em escala relevante no ano anterior.
“Isso mostra uma mudança estrutural”, finalizou

