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Cassio Gusson
Escrito por Cassio Gusson,Redator
Lucas Caram
Revisado por Lucas Caram,Editor da Equipe

'Setor cripto fez muitas promessas e não cumpriu', executiva revela bastidores da Web3

'Cripto não vende tecnologia, vende confiança', executiva revela bastidores da Web3

'Setor cripto fez muitas promessas e não cumpriu', executiva revela bastidores da Web3
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A indústria de criptomoedas passou anos tentando convencer investidores de que a próxima revolução financeira dependeria apenas de blockchain, descentralização e inovação tecnológica. Agora, parte do próprio mercado começa a admitir que o verdadeiro ativo da Web3 talvez nunca tenha sido a tecnologia em si, mas a confiança construída ao redor dela.

Em entrevista concedida ao analista e fundador da OutsetPR, Mike Ermolaev, a especialista em comunicação cripto Dami, que é Head of Communication da Trust Wallet, afirmou que a sobrevivência das empresas Web3 depende menos da capacidade de gerar hype e mais da habilidade de construir credibilidade sustentável em um setor marcado por hacks, colapsos bilionários e crises reputacionais recorrentes.

“A comunicação é a infraestrutura da confiança”, afirmou Dami ao explicar por que exchanges, protocolos e carteiras digitais precisam tratar narrativa e transparência como parte central do produto. Segundo ela, o mercado entrou em uma nova fase, na qual visibilidade sozinha já não garante adoção, crescimento ou permanência do usuário.

A mudança ocorre depois de anos turbulentos para o setor. O colapso da FTX, processos regulatórios contra grandes plataformas, perdas bilionárias em protocolos DeFi e falências de empresas ligadas ao mercado fizeram investidores passarem a questionar não apenas projetos específicos, mas a própria credibilidade estrutural da indústria cripto.

Nesse ambiente, empresas que antes apostavam em marketing agressivo, campanhas virais e promessas de crescimento acelerado começaram a enfrentar um problema mais profundo: chamar atenção deixou de ser suficiente para convencer usuários a confiar seus recursos a plataformas digitais.

Visibilidade é ser visto

Dami resumiu esse dilema de forma direta. “Visibilidade é ser visto. Confiança é ser acreditado”, disse. Para ela, boa parte das empresas de criptomoedas ainda confunde presença constante na mídia com construção real de reputação.

A executiva argumenta que relações públicas no setor não podem mais funcionar como uma camada superficial usada apenas durante lançamentos de produtos ou rodadas de investimento. Segundo ela, a comunicação precisa acompanhar em tempo real mudanças de roadmap, falhas operacionais, riscos regulatórios e reações das comunidades.

“Você não está apenas explicando o que um produto faz. Está ajudando usuários a entender por que aquilo importa, como se encaixa em suas vidas e se eles podem confiar nisso”, afirmou.

A análise também expõe um dos pontos mais sensíveis da Web3 moderna: a descentralização tecnológica nem sempre cria confiança social automaticamente. Mesmo em ecossistemas descentralizados, usuários ainda avaliam lideranças, histórico das empresas, clareza das informações e capacidade de resposta durante crises.

Segundo Dami, isso fica ainda mais evidente em mercados emergentes, especialmente na África, onde milhões de usuários recorrem às criptomoedas como alternativa à inflação, restrições cambiais e dificuldades de acesso ao sistema financeiro tradicional. Ela alerta, porém, que alta adoção não significa necessariamente confiança consolidada.

“Adoção pode ser impulsionada pela necessidade. Confiança exige algo diferente”, explicou. Para ela, usuários só desenvolvem confiança quando conseguem acessar recursos sem interrupções, obter suporte eficiente e perceber que a empresa continua presente mesmo após períodos de baixa do mercado.

Setor cripto fez muitas promessas e não cumpriu

A executiva também criticou o excesso de promessas feito por parte do setor durante ciclos de alta do Bitcoin. Segundo ela, muitas empresas confundem transparência sobre ambições futuras com garantias implícitas de entrega.

“Deve existir uma diferença entre compartilhar uma direção e fazer uma promessa”, afirmou.

A fala atinge um ponto delicado da indústria cripto. Durante os últimos anos, diversos projetos utilizaram discursos sobre revolução financeira, descentralização e democratização de investimentos para captar usuários e liquidez antes mesmo de possuírem produtos plenamente funcionais.

Esse modelo começou a perder força à medida que investidores passaram a exigir fundamentos mais sólidos, sustentabilidade operacional e governança mais transparente. Em muitos casos, empresas que cresceram rapidamente durante mercados de alta enfrentaram dificuldades para sustentar credibilidade quando o fluxo especulativo diminuiu.

Na avaliação de Dami, a próxima geração de líderes de comunicação da Web3 precisará dominar não apenas marketing, mas também entendimento técnico, gestão de crises e sensibilidade cultural para diferentes mercados.

“Trate confiança como sua intenção principal, não atenção”, concluiu.
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