Jeremy Allaire, CEO da Circle, vê “enorme oportunidade” para uma stablecoin atrelada ao yuan, apesar das medidas formais de Pequim contra a maioria das stablecoins privadas ligadas ao renminbi e do compromisso com seu próprio yuan digital.
Em entrevista à Reuters em Hong Kong na quinta-feira, Allaire descreveu as stablecoins como uma forma de a China “exportar” sua moeda ao facilitar pagamentos globais, à medida que o dinheiro digital se torna cada vez mais integrado ao comércio e às finanças, e afirmou que o país poderia lançar uma stablecoin baseada em yuan dentro de três a cinco anos.
A rivalidade geopolítica em torno do dinheiro está sendo cada vez mais travada tanto no código quanto na política dos bancos centrais, e os comentários de Allaire aprofundam uma questão central: governos que restringem moedas digitais privadas podem se dar ao luxo de ignorá-las se quiserem competir globalmente?
A repressão da China contrasta com a crescente demanda por stablecoins como ferramentas de pagamento transfronteiriço, levantando dúvidas sobre como o yuan evoluirá em um sistema financeiro tokenizado.
Em fevereiro, o Banco Popular da China e outras sete agências afirmaram que a emissão offshore não autorizada de stablecoins atreladas ao yuan seria tratada como atividade financeira ilegal e que a tokenização de ativos reais domésticos enfrentaria maior escrutínio.
Autoridades justificaram a medida como necessária para proteger a estabilidade financeira, conter a fuga de capitais e preservar a soberania monetária enquanto Pequim promove sua moeda digital de banco central, o e-CNY. A decisão fecha as portas para a maioria das stablecoins offshore em RMB poucos meses após relatos de que a China estudava tokens lastreados em yuan como forma de ampliar o uso global de sua moeda.
Dólares digitais ainda dominam as stablecoins
Os comentários de Allaire surgem em um momento em que as stablecoins estão cada vez mais inseridas no cenário geopolítico. A USDC, stablecoin lastreada em dólar da Circle, cresceu 72% em circulação ano a ano, atingindo US$ 75,3 bilhões até o fim de 2025. Allaire disse à Reuters que “vários bilhões de dólares” adicionais em transações de USDC ocorreram após o início da guerra entre EUA e Irã, à medida que usuários buscavam dólares digitais portáteis em meio à crise.

A Outlier Ventures afirmou em um relatório de 2025 que stablecoins lastreadas em dólar representavam 99,8% de todas as stablecoins denominadas em moeda fiduciária, destacando o quanto o mercado ainda depende de dólares digitais em vez de tokens atrelados a outras moedas nacionais.
A China, por outro lado, segue uma estratégia centrada em CBDC. As autoridades reiteraram diversas vezes a proibição de negociação e mineração de criptomoedas imposta em 2021. Em novembro de 2025, o banco central alertou que iria intensificar a repressão às stablecoins, o que levou ao aviso de fevereiro proibindo a emissão de stablecoins atreladas ao RMB e a maior parte da tokenização de RWAs sem aprovação prévia, enquanto Pequim promove o e-CNY como seu modelo preferido para adoção do yuan digital.

